DOMINGO ILEGAL
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Criticar a programação da TV nos domingos é chover no encharcado. Provavelmente, oitenta ou noventa por cento dos leitores deste jornal nasceram e cresceram ouvindo como trilha sonora das tardes do último dia da semana, as tristes musiquinhas dos Trapalhões e o ‘Mas que vai vai, mas que vai vem…’ de Sílvio Santos. O dia em que o número de televisores ligados atinge seu pico obrigaria as redes a elaborar programações populares, para alargar tanto quanto possível, a fatia que cada uma morde no bolo da verba publicitária. Com este pretexto, as redes de televisão, com seu poder nuclear, serviram durante décadas à causa da idiotização do brasileiro médio. Com elas, aprendemos a respeitar cogumelos surgidos do absurdo.
Como Décio Piccinini, Flor, Wagner Montes e outros, que através dos anos, recitam o nada para a massa amorfa sentada nos sofás. Foram eles que nos ensinaram a nos comportar como idiotas, ridicularizando efeminados como Zacharias, debochando de negros burros como Mussum e nordestinos patéticos como Didi. E, é claro, tratando como estes personagens sempre fazem, mulheres como criaturas burras e servis.
Os teóricos que apostavam que as redes brasileiras de TV (sempre é bom lembrar, concessões do governo a pessoas jurídicas escolhidas) seriam obrigadas a rever suas posições como consequência natural das mudanças absurdas por que passa a civilização, graças, principalmente, ao avanço da tecnologia, lamentavelmente perderam suas aposta. Pelo menos por enquanto.
Claro, há sinais por todo lado do ‘up grade’ que a velocidade da informação tem proporcionado aos diferentes setores da sociedade organizada. Estes sinais, porém, ainda são fracos, apenas embriões frágeis, muitas vezes engolidos no útero pelos ‘Godzillas’ da ignorância interessados na manutenção do estado de lobotomia coletiva em que teimamos em permanecer. Um exemplo destes extertores, foi a reação de algumas pessoas ao anúncio publicado recentemente pela ‘austera e imaculada’ Nestlé e assinado pela ‘moderna e provocativa’ agência DPZ. Na ‘obra-prima’, via-se um par de seios em close, sustentados por um sutiã preto e uma caixinha de suco de laranja Nestlé. O título que, acreditem, alguém ‘criou’ e, pasmem, alguém ‘aprovou’ dizia alguma coisa parecida com ‘Porque tem coisa bem melhor para espremer…’. A peça conseguia, com apenas duas imagens e meia dúzia de vocábulos, provar muita coisa. Que a Nestlé, preocupada em se despir de moralismos antiquados e renovar seu ar de vovó Donalda, perdeu a noção de bom senso e inteligência, que a DPZ cresceu demais a ponto de permitir uma criação pobre e infeliz ir às ruas com sua assinatura, que ambos entendem muito pouco sobre como tratar o consumidor e, o que é pior, que tem tratado muito mal os seios de suas esposas e namoradas.
A vida curta deste anúncio diz alguma coisa. Nem tudo está perdido. Mas esta sensação logo é abafada, neutralizada quando se vê a pobre figura de TIRIRICA, um ignorante ingênuo, sem poder e competência, ser alçado a condição de belzebú oficial, de boi-tatá da vez por causa de seus versinhos que só tem culpa de serem ruins.
Se quisermos atacar, processar e queimar na fogueira os verdadeiros soldados do preconceito, os bravos guerreiros da ignorância perpétua, deixemos de lado os alvos fáceis como Tiririca, Edir Macedo e seus blue caps e vamos direto aos James Bond da Boçalidade, aqueles que usam seus três ou quatro neurônios a serviço da burrice coletiva e do lucro a qualquer custo. Aqueles que aprenderam a fazer uso da tecnologia no que ela tem de pior, fazendo da velocidade da informação arma letal contra aqueles que a ela não tem acesso.
Vejamos Gugu Liberato. O roliço e rosado bom cunhado da televisão brasileira, o ex-coroinha, eterno bom-moço, escolhido pelo líder das organizações SS para sucedê-lo. Por trás de seu penteado Zetaflex e seu olhar de falso ingênuo, habita o Dr. Silvana da mediocridade, que consulta a cada intervalo de seu programa computadores de última geração, linkados aos números do Ibope, por sua vez, índices que medem a reação do gado ao toque do berrante. Em nome do entretenimento e da curiosidade, Gugu superou todos os limites domingo retrasado quando apresentou ao público brasileiro o que ele mesmo chamou repetidamente de ‘um lobisomen de verdade’. A pobre criatura, um rapaz de vinte e poucos anos, é uma das únicas vítimas de hipertricose, uma disfunção hormonal que faz a penugem do rosto se transformar em cabelos da espessura de um prego.
O pobre mexicano, por razões óbvias para quem o viu, não encontrou maneira diferente de sobreviver a não ser como atração para circos e exposições. Não contente em trazê-lo, Gugu convocou a irmã menor do rapaz, uma garota de dezessete anos, cujo rosto e corpo são cobertos de pêlos negros. Não contente com o espetáculo, Gugu mandou sua produção levar os irmãos para comer feijoada e dançar, sem esquecer de registrar a cara de espanto dos presentes. Completando o circo, três ‘mulheres incríveis’ foram chamadas para fazer perguntas aos convidados. Terezinha Sodré, Roberta Close e uma terceira senhora disparavam pérolas como: ‘Você tem pêlos no peito?’ para a moça, que entre constrangida e resignada, abriu os botões da blusa. Ou ‘Na lua cheia seus caninos crescem?’ para o rapaz que, talvez por se chamar Jesus, seja dotado de compaixão infinita, respondeu apenas ‘não’ com um sorriso curto nos lábios.
Quem mudou de canal, deu de cara com Faustão disparando perguntas da mesma qualidade sobre sexo a atores e atrizes que, apesar de rostos bem mais bonitos e menos peludos que o de Jesus, não tinham a mesma simplicidade e humildade do mexicano.
Sindicância, boicote de empresas, anunciantes e agências de propaganda, greves, suicídios, alguma reação tem que haver diante deste tipo de deserviço à sensibilidade, desta violência via satélite.
Sívio Santos, que de uns anos para cá virou cult, achou uma maneira de alisar com uma mão e apunhalar com a outra. Dá Jô Soares, Serginho Groisman e Boris Casoy com a mão direita e nos apunhala com Gugu, seus taxis forjados e suas aberrações com a esquerda. Que as centenas de lâmpadas de neon da nova sede na Anhanguera o iluminem.
Nem tudo está perdido, porém. O Fantástico, que atravessou décadas mostrando lobisomens melhor barbeados, de uns meses para cá tem se preocupado em perceber que do outro lado da tela não há necessariamente um idiota.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu