por Fabiano Alcântara

Alfredo Bello manda a real: ”Fala-se nas raízes brasileiras, mas apenas como discurso para vender”

Talvez por saber que sua missão é dura, Alfredo Bello, o DJ Tudo, não é exatamente um cara conformado e otimista. Ele está sempre pilhado e na batalha, gravando grupos de cultura popular, fazendo conexões pelo mundo, negociando com produtores, se nutrindo espiritualmente e musicalmente.

Mas o que parece deixar o músico de Brasília radicado em São Paulo revoltado é a maneira como o "Brasil profundo" é desprezado. "Acho que a sociedade não valoriza essas tradições e seus brincantes ou artistas. Estamos perdendo de mergulhar numa riqueza estética e antes mesmo humana, que já é base de muito da nossa música popular. Villa-Lobos e Chico Science nos mostraram esse caminho, mas pouca gente faz isso", diz. "Fala-se nas raízes brasileiras, mas apenas como discurso para vender".

Em 12 anos de trabalho de campo no território do “domínio coletivo”, Alfredo acumula 1.650 horas de registros. Ele também coleciona mais de 10 mil vinis, muitos deles de música brasileira e raridades.

Nos Quintais do Mundo Melhor, seu primeiro DVD, com direção de Beto Brant, mostra um show gravado no Auditório do Ibirapuera com participação de 25 músicos. O filme traz também depoimentos, making of dos bastidores e registros de algumas pesquisas pelo Brasil. O DVD será lançado nesta segunda-feira (2), às 20h, no MIS (Museu da Imagem e do Som de São Paulo). Um dia depois chega a Paraty e no final do mês inicia turnê com discotecagens na Finlândia, Estônia e Bélgica.

Leia entrevista concedida em duas etapas, do Pará, onde gravava carimbós, e, já de volta para casa, na Penha, zona leste de São Paulo, na mesma rua onde Itamar Assunção (1949-2003) morava.

Que características fazem com que a música brasileira seja tão fácil de ser fundida com músicas de outros lugares do mundo? 
Alfredo Bello - A música brasileira nasce de várias culturas, isso facilita sermos abertos a misturas e trocas, se juntarmos grupos de cultura popular do Brasil com outras tradições acontecerão experiências estéticas muito ricas. A música que estou gestionando tem esse princípio de ser internacionalista e multicultural a partir do nosso Brasil profundo.

Existe uma questão complicada na produção de cultura popular. É muito difícil viabilizar economicamente um grupo de 20, 30 pessoas e muitas vezes estes artistas não são pagos porque existe um argumento de que eles já fazem aquilo de graça mesmo, então eles não precisariam ser pagos... Além disso, a noção de autoria é dissolvida no coletivo, como se resolve isto?
Só se resolve o dia em que gestores públicos, produtores e agentes da cadeia produtiva conhecerem os grupos e seus membros profundamente. Cada tradição tem um jeito de acontecer. Por fé, por pura diversão. Tem grupo que só canta coisas tradicionais, outros estão sempre criando novas músicas. Grupos que para existirem precisam de figurino caro, outros os instrumentos são as próprias mãos. Não existe um jeito único de pensar sobre esse assunto. Com certeza os grupos precisam de cuidados do poder público e isso não existe no Brasil. Um cachê por apresentação sempre é bem-vindo para um grupo, mas isso não pode transformar a tradição em algo apenas de aspecto econômico, por isso é necessário conhecer melhor como funcionam as tradições. Mas a lógica da sociedade de espetáculo não tem tempo para isso. O Carnaval de Pernambuco é o exemplo moderno de como colocar dinheiro mas sem nenhum tipo de conhecimento sobre as tradições. Muito perigoso a falta de visão em Pernambuco. As tradições se transformaram apenas em números para compor as grades da programação do Carnaval. A questão do direito autoral tem o problema da legislação que foi feita no mundo do autor individual, tanto copyright quanto o CC são sobre o autor burguês, nada sobre coletividades. Teria que existido conceito do domínio coletivo. Quem sabem um dia...

Quais são os momentos mais reveladores do DVD? 
No making of mostra um pouco do meu trabalho de registros. E o show mesmo. A sobreposição de imagens e a luz deu ao show um tom muito especial. Também a participação de 25 músicos foi algo que traz a idéia de uma arte coletiva, que sem pensar aprendi muito isso com a cultura popular.

"Fala-se nas raízes brasileiras, mas apenas como discurso para vender"


A MPB, o pop, o jazz, a música erudita e todos os gêneros frequentemente bebem na cultura popular. Você acha que os artistas populares são devidamente reconhecidos por manter estes bancos de dados vivos?
Acho que a sociedade não valoriza essas tradições e seus brincantes ou artistas. Estamos perdendo de mergulhar numa riqueza estética e antes mesmo humana, que já é base de muito da nossa música popular. Villa-Lobos e Chico Science nos mostraram esse caminho, mas pouca gente faz isso. Fala-se nas raízes brasileiras, mas apenas como discurso para vender. Vamos em ciclos “modísticos” e aí o Brasil profundo, nada, entra no discurso.

Pouca gente atenta que a cultura popular também é influenciada pela TV, pelos meios de comunicação de massa. Você acha que isso ajuda a mantê-la viva?
Ela se diverte com isso como um elemento para se comunicar. Mas não mais que isso, utiliza a mídia com dignidade às vezes, mesmo que para negá-la. A mídia não a ajuda a manter viva, pelo contrário, na maioria das vezes a comunicação de massa trava uma guerra silenciosa às identidades culturais do povo brasileiro. Mais isso é algo mais complexo.

Fale sobre este trabalho no Pará e de outros que você pretende fazer. Quais são seus projetos não realizados? 
Estou desde 2006 registrando cultura popular no Pará e desde 2008 estou registrando carimbós. Depois dessa viagem de junho de 2012 serão ao todos 38 grupos. Realizo esses registros através da articulação do movimento "Carimbó: Patrimônio Cultural Brasileiro". Meu grande projeto é poder ampliar o portal Mundo Melhor, disponibilizando todo meu acervo para consulta pública. Isso somente com parceria ou apoio. Espero poder realizar isso um dia. Poder transformar minhas viagens num programa que mostra o Brasil para os brasileiros e outros povos. Pretendo em algum tempo fazer registro da cultura na América Latina, África e outros lugares.

A internet favorece ou piora as coisas para a cultura popular? 
A internet favorece como veiculo de disseminação, isso como possibilidade, porque os grupos ainda tem pouco acesso. A internet no Brasil reproduz a desigualdade social. As cidades que são mais simples e foras dos eixos econômicos tem net muito lenta e pouco usada pela população. Espero que ela seja ainda mais usada pelas culturas populares

Como a espiritualidade se manifestou em você e que impacto teve na sua música?
A espiritualidade para mim está em tudo que faço na minha vida, foi e é através da música que me conectei e que procuro me reconectar sempre. A música é um exclente veículo de comunicação entre nós.

De que maneira definiria o caminho estético que você vem trilhando atualmente?
Criei um caminho que é a soma das minhas experiências de músico, produtor e pesquisador, tendo o Brasil como fonte inspiradora e isso de forma muito aberta e ampla. Sou um apaixonado pelo Brasil e este Brasil profundo que tenho conhecido e vivido está me levando para encontrar o mundo. Sou muito grato a esse Brasil que me transforma sempre e sempre.

Vai lá: Lançamento do DVD “Nos quintais do Mundo Melhor”, do DJ Tudo
Quando: segunda, 2 de julho, às 20h
Onde: Museu da Imagem e do Som - MIS - Av. Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo/SP; (11) 2117-4777; Estacionamento conveniado: R$ 8; Acesso e elevador para cadeirantes; Ar condicionado
www.facebook.com/djtudoesuagentedetodolugar

TEASER Nos Quintais do Mundo Melhor from Dimitre Lucho on Vimeo.

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