Discutindo acerca de Liberdades
em 22 de junho de 2010
Liberdades
Muitas são as variantes possíveis para se entender o conceito Liberdade. Mas creio que duas prevalecem. A liberdade de ir e vir e a liberdade do pensamento. Constantemente juntamos as duas em um só baralho. É parecido com o conceito de propriedade pública e propriedade privada que constantemente são confundidos. Alias os conceitos sempre nos confundiram muito. Particularmente na era da descontinuidade que vivemos. Nada mais é fixo ou determinado, nem os conceitos. Tudo se tornou relativo e fluente.
Não creio que a liberdade do pensamento dependa da liberdade de ir e vir. Penso que é relativo, pessoa a pessoa. Parece que a maioria acredita não dá para pensar sem liberdade. Ou seja; sem liberdade ficamos travados no afã de nos libertar e deixamos de pensar outras importâncias. Há quem pense em contrário. Por exemplo Gandhi em sua auto-biografia “Minha vida e minhas experiências com a verdade”, deixa absolutamente claro que ele formulou quase todo seu ideário acerca da não-violência e da libertação da India do jugo inglês, enquanto preso. Hitler escreveu seu diário “Minha Vida”, dentro da prisão. Neste livro já afirmava seu ódio visceral aos judeus e quase todos objetivos que irá perseguir em sua ascensão ao poder. Nelson Mandela manteve vivas, preso por 27 anos, todas as idéias que iriam vencer preconceitos e tornar a África do Sul livre como vemos hoje. Ir e vir não tinha quase importância para esses homens. Eles não precisavam de pernas para isso. Suas idéias caminhavam por eles.
Da liberdade de pensamento dos chamados Enciclopedistas, que viveram do século XV para o século XVI (Diderot, Montesquieu, Voltaire, Condillac e outros) na França, surgirão as bases da Revolução Francesa, que aconteceria quase 200 anos depois.
Experimentei algo parecido, guardadas as proporções. Estava preso fisicamente, mas meu pensamento atingia o outro lado do mundo. Meu livro “Tesão e Prazer” foi publicado na Rússia. Tenho outros livros publicados. O primeiro deles: “Memórias de um Sobrevivente” vendeu mais de 15 mil cópias até agora. E continua vendendo, agora em forma de poket. Onde esses livros estiverem, estou de alguma forma. Foi com a alma que os escrevi. Impregnei de mim cada uma daquelas palavras. Estou com uma peça para surgir os teatros. Estamos na fase de captação de recursos para a montagem. Montando, será na boca do ator para a platéia que estarei todos os dias. Comecei a escrever minha coluna na revista Trip de dentro da prisão e mantive por 2 anos lá dentro, antes de sair. E a Trip imprime de 50 a 80 mil exemplares por mês. Não é uma revista que se leia e jogue fora. Muitos a lêem. São textos escritos na ou sobre a prisão. Depois de décadas preso, a liberdade de pensar contrabalançou a falta de liberdade de ir e vir, embora não a tenha substituído.
A necessidade da liberdade de ir e vir continuou como uma ânsia permanente. E o mais difícil de dizer é que ainda estou esperando por essa liberdade. Ir e vir custa caro. E, à proporção que mais se vai e volta, mais caro e inviável ao bolso vai ficando.
A necessidade interior, a mídia, o merchandise e até a propaganda subliminar nos pressionam o tempo todo para sermos livres. Mas associa ter a ser. Ter é possuir. Liberdade me parece só vale como conceito se for livre mesmo e não possa ser possuída. É conceito, não coisa. Por isso mesmo é fluência, vir a ser livre contínuo que não cessa.
Estou para acreditar que liberdade de ir e vir seja uma ficção humana, uma ideologia. Liberdade assim é ânsia de ser livre. Quanto mais se tem, mais se necessita. Como isso de se dar o pé e o sujeito querer a mão também. Mas é claro que tem querer, e não só a mão, mas tudo. “Queremos inteiro e não pela metade”, dizia Arnaldo Antunes nos Titãs.
Como queria J.P.Sartre, talvez o homem seja mesmo uma liberdade a se realizar. Uma busca de mais espaço, de mais tempo, de mais vida, de mais liberdade.
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Luiz Mendes
22/06/2010.
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