Direito de ficar calado

por J.R.Duran
Trip #191

J.R Duran explica as razões pelas quais prefere decidir seu candidato na última hora

Sexo, futebol e política. Essa é uma trinca de atividades que, o tempo ensina, são muito melhores na prática do que na teoria.

Me parece de uma imaturidade insuportável ter de ouvir as peripécias sexuais de alguém emocionado, pela chance inesperada que a vida lhe deu, por ter cruzado com o corpo desejado. Sempre existirá alguém que ache divertido contar as façanhas da noite anterior (1). Ou, ainda, assistir à performance dos outros. As variações são imensas. Fico, apenas, entre o grupo dos praticantes. Convictos e discretos.

Já o futebol tem um componente de fanatismo que intoxica a mente dos torcedores na hora de lembrar, e julgar, seus jogadores e os fatores que decidiram os jogos. Nem sempre tão bons quanto nos querem fazer acreditar, e apenas o amor incondicional por um time é capaz de levar essa galera a frequentar os estádios. Os debates em volta do futebol são folclóricos e duram até a partida seguinte. O condicional está sempre presente, nada é definitivo, e apenas os bons profissionais conseguem sobreviver às armadilhas do destino imprevisível.

Penso que na política, diferentemente do sexo e do futebol, nem sempre vence o melhor (alguém perguntará neste ponto se considero o sexo uma competição; deixo, tranquilamente, a questão sem resposta). Mas isso faz parte das regras do jogo. Um jogo em que tudo é dito e nada falado, em que a promessa de hoje é a negação do amanhã e que o melhor político é o sobrevivente de um jogo de espelhos. Ganha a eleição quem consegue falar mais alto o que o eleitor quer ouvir. Depois, os compromissos fazem com que a frase do Príncipe de Salinas - "é preciso mudar para que tudo fique como está" - faça sentido (2).

VOTO DISCRETO

Entendo que quem faz política gosta de se colocar, de forma aberta, ao lado de seu escolhido para tentar influenciar os outros sobre suas convicções. Mas como sou discreto - reservado, insisto -, e o voto é secreto (3), prefiro exercer o direito de tomar a decisão no último momento. Porque nessa área os acontecimentos são como nuvem (e esta frase é do falecido Magalhães Pinto): uma hora você olha para ela e está de um jeito, olha de novo e já mudou.

(1) Me lembro da história do rapaz que cantou a noite inteira a moça até que, finalmente, ela consentiu em escorregar entre os lençóis, por assim dizer, com ele. A única condição era de que fosse um segredo entre os dois. "Ah, então esquece, se não puder contar para ninguém não tem graça nenhuma", respondeu o rapaz.

(2) Príncipe de Salinas é o personagem principal do livro Il Gattopardo (1958), escrito por Giusseppe di Lampedusa.

(3) O voto secreto foi institucionalizado, no Brasil, em 1932. É uma forma de evitar qualquer coação ou pressão sobre o eleitor.

*J. R. Duran, 55, é fotógrafo e escritor. www.twitter.com/jotaerreduran

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