por Arthur Bueno
Trip #244

As reuniões dos Devedores Anônimos revelam como a produção de culpa e vergonha está no centro das dinâmicas econômicas

A análise da experiência de pessoas que, com frequência às voltas com graves problemas de endividamento, participam das reuniões dos Devedores Anônimos é capaz de revelar a importância do sentimento de vergonha nas dinâmicas do sistema econômico. A vergonha é, com efeito, uma das razões mais frequentemente mencionadas por tais indivíduos para terem decidido frequentar os encontros do grupo. Após anos ou décadas mantendo comportamentos econômicos percebidos muitas vezes como peculiares ou extravagantes, mas não necessariamente problemáticos, é comum que o impulso decisivo para a adesão ao grupo seja ocasionado por um fato relativamente corriqueiro: a inclusão em cadastros de inadimplentes, também conhecido como ficar com o "nome sujo". Esse fato demonstra o papel exercido pelas instituições econômicas na definição do que são condutas adequadas ou excessivas, justificadas ou injustificadas, racionais ou irracionais, normais ou patológicas. Com efeito, é somente após ficar com o "nome sujo" que muitos passam a sentir-se envergonhados, reconhecendo-se como pessoas irresponsáveis ou mesmo portadoras de uma doença – o "endividamento compulsivo".

A eficácia das instituições econômicas resulta não somente de seus efeitos mais diretamente econômicos, como o bloqueio à tomada de novos empréstimos, mas também do amplo reconhecimento moral de que gozam, inclusive por parte daqueles que transgridem as suas normas. Daí que as estruturas econômicas sejam também estruturas morais e afetivas: a economia da dívida é igualmente uma economia da culpa e da vergonha. Não por acaso, dívida e culpa são designadas pela mesma palavra em alemão (Schuld): a dívida opera por meio da responsabilização do indivíduo perante uma autoridade maior, engendrando um sistema de disciplina moral que encontra sua correspondência psíquica nos sentimentos de culpa e má consciência. É esse núcleo moral da dívida que permite compreender o fato de que a responsabilidade pelas crises financeiras possa, com frequência e naturalidade, ser atribuída unicamente aos devedores (sejam eles compradores de imóveis, estudantes ou Estados nacionais), sem colocar em questão o outro polo da relação: os credores.

A produção da vergonha e da culpa é portanto central para o funcionamento da economia; mas sentimentos contrários também têm um papel importante. No momento da compra e das tomadas de empréstimos, trata-se precisamente de enfatizar a lógica oposta: entram em cena, então, mecanismos de desculpabilização de variados tipos, dos quais slogans publicitários como "aproveite a vida" ou "você merece" são somente a expressão mais evidente. Refreadas nesse primeiro momento, culpa e vergonha não deixam porém de retornar mais à frente, na medida em que o comprador ou devedor se torne incapaz de fazer jus aos compromissos assumidos – em outras palavras, quando as promessas de felicidade proporcionadas pelo dinheiro encontram os limites da felicidade de outros agentes econômicos (empresas, bancos, credores).

Um mesmo comportamento pode assim ser encarado num momento como aceitável, normal, saudável, e em outro – ao intensificar-se para além dos limites de racionalidade estabelecidos pelas instituições econômicas – como injustificado, excessivo e patológico. Vergonha e falta de vergonha, culpa e desculpabilização são ambos movimentos vitais, cada um em seu tempo devido, para que o sistema econômico mantenha seu processo de acumulação, e o dinheiro continue gerando dinheiro. 

*Arthur Bueno é doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Sua dissertação de mestrado é um estudo do grupo dos Devedores Anônimos

 

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