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DE NOVO NÃO!

A criação do Conselho Federal de Jornalismo mostra que ainda não estamos livres do fantasma do AI-5

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Caro Paulo,


 


Hoje tive a sensação de que a história se repete, e o sentimento que veio junto foi medo. Estava em meu carro ouvindo o noticiário pelo rádio quando fiquei sabendo que, em nome do interesse e da segurança nacionais, algumas medidas de exceção estavam sendo tomadas pelo governo. Parecia 1968, uma reedição do AI-5. Mas não. Agora, era a criação do Conselho Federal de Jornalismo [projeto de lei do governo que cria um mecanismo para fiscalizar e punir a imprensa]. Com o medo, uma tristeza profunda tomou conta do meu coração. E eu, indignado, gritei no carro: ?De novo não!?.


O texto era muito parecido com o do AI-5, e a estrutura de argumentação era a mesma: em nome de algo maior e melhor para todos, algumas pessoas tomam para si o poder de decidir sobre a vida do resto da população. Nas duas situações, surgiu na minha cabeça a imagem de um poderoso ?eles?, inteligente e arrogante, querendo controlar minha vida. Meu Deus, ?eles? estão de volta. E nós? Onde está o resto dos brasileiros? O Chico explicou na histórica canção ?Vai Passar? o que os brasileiros estavam fazendo quando lhes tomaram o poder daquela vez: ?Erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais?. Erravam cegos significa que não tínhamos direção e não víamos o que estava acontecendo à nossa volta. Levar pedras feito penitentes significa trabalhar muito, sem nenhum sentido maior do que ganhar dinheiro para pagar as contas. Estranhas catedrais significa não ter noção do contexto em que se vive nem do nosso papel histórico na sociedade. A poesia torna a tragédia bela, mas a realidade é triste e ameaçadora: pessoas incons-cientes que trabalham muito para ganhar dinheiro e construir não sei que mundo. Um bando de gente manipulável, sem senso crítico, à deriva do destino.


 


Vários sentidos


Lembra o episódio dos quatro peões que trabalhavam numa obra assentando tijolos? Já contei essa história para você. Alguém se aproximou dos peões e perguntou a cada um: ?O que você está fazendo aqui??. O primeiro respondeu: ?Estou ganhando meu salário empilhando tijolos?. O segundo: ?Estou ganhando meu salário fazendo uma parede?. O terceiro: ?Estou ganhando meu salário construindo uma catedral?. O quarto: ?Estou ganhando meu salário construindo um lugar onde as pessoas vão buscar paz?. Pelo mesmo salário e com a mesma atividade, cada um dava um sentido dife-rente para seu trabalho. Questão de cons-ciência. Será que nós brasileiros já sabemos o que estamos fazendo aqui? Ou continua-mos erguendo estranhas catedrais, alie-nados, sobrevivendo no dia-a-dia, lutando as pequenas lutas que enchem o dia, mas não justificam a vida?


Mais de 30 anos depois, não vamos deixar que a história se repita, não importam as nobres razões que movem as decisões ?deles?. Agora que a lei está aí, vamos correr atrás e corrigir o desvio. Vamos à luta. Abaixo-assinados, artigos na imprensa, passeatas, comícios, eleições, pressão nos representantes. Enfim, a história se repete. Vai passar.


Mas isso não nos põem no rumo seguro da construção de um mundo de paz em que a alegria do carnaval não acontece só em quatro dias do ano. É todo dia, no trabalho diário, nas pequenas decisões de consumo, na educação de nossos filhos, em nossa atitude diante de todas as nossas escolhas. Paulo, não quero ensinar o Pai-nosso ao vigário, mas meu medo diante da notícia me diz que ainda não fazemos o suficiente.


Precisamos todos, trabalhadores, em-presários, investidores, mães, atletas, estudantes, fazer uso radical de nossa consciência e liberdade, o tempo todo, para não sermos pegos desprevenidos como fui hoje dentro do carro, tranqüilamente, indo para o trabalho. Eu não posso estar tranqüilo. Pelo menos enquanto ?eles? estiverem lá. Fora com ?eles?!


 


Ricardo


 


*Ricardo Guimarães, 54, é o presidente da Thymus Branding e está de olho nos falsos democratas. Seu e-mail é: ricardo@guimaraes.com.br

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