por Rodrigo Silveira

As fotos de enrubescer da artista plástica brasileira que provocaram filas na Espanha

Artista anárquica pernambucana, Renata Faccenda deixou o Brasil para fazer sucesso na Espanha com suas fotos de paus, bundas e bucetas

por Rodrigo Silveira*

Vai, menina, pára de sonhar. Acorda. Levanta. Sai da casa dos teus pais, sai do país, vire-se. Vai trabalhar, procure um emprego, faz qualquer coisa. Atenda em um bar ou, se for o caso, trabalha com as putas? Qualquer coisa pra realizar aquilo que você busca. Foi com esse espírito que Renata Faccenda saiu do conforto do lar para morar em uma comunidade, alternativa e artística, sediada em Olinda. Conhecido como Molusco-Lama, o grupo contracultural tinha um expediente que variava entre atravessar o poluído rio Capibaribe a nado e ofender os artistas locais. Dentro do coletivo, esta baiana de nascimento e pernambucana de criação de 27 anos pôde aproximar-se do que buscava: algo que poderia ser definido como intervenções do cotidiano. Mas depois de alguns Carnavais ? e não foram poucos ? com direito à marchinha: ?Se você pensa que é normal/ Você se engana/ Você também é um molusco/ Molusco-Lama!?, a trupe se dissolveu.

Desta escola anárquica veio sua formação clássica e Faccenda seguiu adiante. Uniu-se a outros artistas recifenses e não parou de produzir. Junto ao Ateliê Submarino, revisitou o espetáculo da Monga, a Mulher-Macaco [matéria publicada na Salada da TRIP 126] e criou a Casa Coisa, uma versão trash do evento arquitetônico Casa Cor. O espírito crítico seguia igual. Depois de algum tempo, já de saco cheio da morosidade local, ela pediu demissão da agência de publicidade em que trabalhava e, apesar das propostas de outras agências, ela foi para Barcelona com o intuito de fazer qualquer coisa. E fez. Começou atendendo atrás de um balcão em um bar de putas. Desistiu quando quiseram ?promovê-la? a trabalhar à frente do negócio. ?Tudo tem limite, né??. E seguiu fazendo seus bicos, levando cachorro pra passear, montando espetáculos de rua, desenhando sites, até que resolveu por em práticas os projetos pessoais pendentes.

Abaixe as calças e não se mexa
Na Espanha, Renata aproximou-se dos vários artistas que circulam por lá e tocou o barco. Adaptou a Monga para o público espanhol e teve uma boa aceitação. Decidiu, então, investir numa idéia antiga, surgida nos tempos do Submarino, em Recife. Durante a Semana Pernambucana de Fotografia lhe ocorreu que as pessoas poderiam se interessar por retratos que não fossem o do próprio rosto. Seguindo este conceito, montou uma cabine onde a lente da câmera ficava à altura do umbigo. Na porta da cabine colocou o aviso: ?Baixe as calças?. Depois de pronta, a foto poderia ser admirada em um interessante mosaico de paus, bundas e bucetas.

Transportado para Barcelona, o projeto adquiriu dimensões maiores. Os visitantes fizeram fila à porta da cabine. Era distribuído vinho e não havia mais limites. O resultado surpreendeu ? e enrubesceu ? a própria autora. Essa miríade de imagens estimulou a criação de subprodutos. Além de um jogo da memória com algumas das fotos que ilustram esta página, foram confeccionadas camisetas, cuecas e calcinhas com as estampas. Para o futuro, ela pretende levar este projeto, ?Las Bragas? (calcinhas, em espanhol) para outros locais do planeta. E incluir no orçamento uma verba especial para o álcool, para a galera se animar ainda mais.

 

*Rodrigo Silveira, 30, é artista gráfico, sócio do selo Instituto e funcionário do UOL  

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