por Filipe Luna
Trip #159

O mestre da arquitetura sustentável, o Lelé, conversa com a Trip sobre a vida e a carreira

Lelé é seu apelido, mas nem pense que o arquiteto João Filgueiras Lima é ruim das idéias. Mestre do conforto ambiental muito antes de se falar em arquitetura sustentável, o carioca sempre pautou seu trabalho por uma idéia óbvia mas nada fácil: a função vem sempre antes da forma

João da Gama Filgueiras Lima conta sua vida em acidentes. Alguns de verdade, como o de carro, em 1964, que juntou seu destino ao do médico Aloysio Campos da Paz. Mal sabia o paciente que seria ao lado do jovem doutor que ergueria seu trabalho mais significativo: o Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília. O centro médico modelo se replicaria pelo Brasil em uma rede de recuperação de pacientes com dano no sistema locomotor – em sua maioria, acidentados. Pois foi nesses cruzamentos de rotas paralelas que o jovem Lelé (apelidado em homenagem ao meia-direita do Vasco) construiu-se arquiteto. Para não contrariar o destino, dos melhores que o Brasil já viu.

Se o métier do leitor não envolve plantas, vigas e fachadas, é provável que nunca tenha ouvido falar nem no apelido, quanto mais no nome. Admite-se a falta de senso da analogia, mas pode-se dizer que Lelé tem um quê de Forrest Gump: ele transita pela história da arquitetura brasileira quase desapercebido, no plano de fundo. Ao contrário do contador de histórias, porém, Lelé foi mais verbo que sujeito da narrativa. Ajudou a erguer a Brasília que o gênio de Niemeyer e Lucio Costa desenharam. Foi elemento fundamental no desenvolvimento e construção dos CIEPs brizolistas, que por sua vez inspiraram os colloridos CIACs. Participou da equipe que nos anos 70 reuniu-se para pensar a cidade de Salvador. Ali, seus companheiros eram Lina Bo Bardi, Wally Salomão, Rogério Duarte, Gilberto Gil.

Pedras no caminho
Tudo acidental. Apenas o acaso explica como foi parar no vestibular de arquitetura o então jovem músico – pianista e acordeonista dos bons, tocava com Cauby Peixoto, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, João Donato. Inesperado que o pintor Ubi Bawa fosse um dos examinadores da prova eliminatória de desenho, ensinando durante o teste o garoto, que já desenhava muito bem, as técnicas que precisava saber para completar o exercício. Pura coincidência que nenhum outro arquiteto do Instituto dos Bancários quisesse representar a repartição na construção de Brasília e o aparente mico sobrasse para o recém-formado Lelé. A aleatória ordem das coisas explica como Darcy Ribeiro o enviou a uma viagem pelo leste europeu para co­nhecer os segredos da construção com pré-moldados – especialidade que ele dominaria como poucos por aqui. Lelé gosta de se fazer de­simportante diante da sua trajetória, mas é óbvio que uma caprichada dose de esforço pessoal contribuiu no percurso. Pense em madrugadas passadas em Brasília estudando fundações e tardes inspecionando as estruturas recém-fundadas, assim como a observação meticulosa da natureza – hábito infantil que abriu seus olhos para o estudo do conforto ambiental na construção.

O estilo reservado, que escapa de um microfone e uma máquina fotográfica como um evangélico foge de uma rave, contribui para fazer de Lelé um segredo bem guardado da arquitetura nacional. Entre seus iguais, contudo, o carioca é admirado por ser craque em criar edifícios que aproveitam as condições climáticas do entorno – o que parece, mas não é nada simples. Se não têm o deslumbre do concreto curvilíneo de Niemeyer ou o desafio à gravidade das estruturas de Lina Bo Bardi, suas obras conjugam a função como poucos artistas das réguas e escalas conseguiram. Muito antes de se falar em sustentabilidade e arquitetura verde, Lelé já pensava em economizar energia e tornar as construções menos agressivas a seus habitantes e usuários. Essa foi sua contribuição para que a rede Sarah Kubitschek se tornasse referência em bom atendimento na rede pública de saúde. Na sua cartilha, forma jamais vem antes da função.


Homem simples, de poucos luxos, vai todo dia até o Centro de Tecnologia da Rede Sarah Kubitschek, em Salvador – sua cidade há mais de  15 anos. Aos 76, o coordenador técnico da rede nem pensa em pendurar a régua-T. “Parar de trabalhar seria como morrer”, garante. Em seu escritório, onde supervisiona todos os projetos de ampliação e manutenção da rede de hospitais, além da confecção e design de todo o mobiliário e equipamentos utilizados (desde a maca e o bisturi até o elevador, tudo é desenhado por ele), Lelé recebeu Trip para contar sua “acidentada” carreira.

Que lembranças tem de sua casa de infância? Nasci no Rio de Janeiro e minha família era de classe média baixa. Vivi no Engenho de Dentro e depois me mudei para a Ilha do Governador, bairros do subúrbio carioca. Morei em muitas casas alugadas, pequenas, de dois, três cômodos. Meu pai gostava muito de se mudar, eu também gosto.

Viveu em alguma que projetou? Já, mas vendi... Nossa vida vai mudando, tem de se adaptar a um novo ambiente. Tenho uma vida mais solitária, mais isolada, e essa casa, por exemplo, tinha jardim, que tem que cuidar, dava trabalho e me desviava das coisas que gosto mais de fazer: estudar arquitetura e música. Então resolvi mudar pra um apartamento. Moro só. Desde que deixei o Rio e fui para Brasília, nunca morei mais de seis anos numa casa.

O que acha do projeto Brasília? Acho excelente, mas ele vive em contradições com a pobreza do país. Foi um pólo de  atração para a população que vinha principalmente do Nordeste. Esses assentamentos se formaram de maneira irregular em torno da cidade, um fenômeno comum, Brasília não poderia ser preservada disso.

O que há de errado no planejamento das cidades? O crescimento indiscriminado. Numa cidade como São Paulo, a quantidade de veículos é tão grande que, do ponto de vista urbano, não tem como resolver. Salvador já está chegando nesse ponto. Brasília, por ter sido planejada para o automóvel, tem facilidades que o projeto criou, mas somente no plano piloto. Fora dali há todos os problemas das metrópoles.

Mas a crítica a Brasília é de ter sido feita para o automóvel. Os críticos não gostam, mas os donos dos automóveis acham ótimo. Brasília foi feita para um grande conforto para o automóvel. Mas se quisesse ter um transporte coletivo, seria fácil implantar. Não há cidade mais fácil de colocar um metrô que Brasília. Quando se projetou a cidade era para 500 mil habitantes, não comportava um metrô ainda, o número de habitantes não justificava.

Que soluções você imagina para as cidades? A curto prazo, teríamos de mudar os compromissos da sociedade. Essa ânsia de sempre comprar coisas em shoppings precisa mudar. O automóvel ocupa um espaço muito grande. Além de tudo, tem o comprometimento do falso conforto. Falso porque conforto é ter, como aqui, iluminação e ventilação natural. É melhor, mais econômico e mais sadio. É fundamental fazer edifícios levando isso em conta.

 


O que acha da arquitetura sustentável? A primeira coisa que uma arquitetura sustentável tem de levar em conta no Brasil são nossas condições climáticas, preservar sempre iluminação e ventilação. A maioria da matéria-prima utilizada na construção compromete muito o meio ambiente. O aço exige combustão a níveis altíssimos de temperatura, isso consome muita energia. O cimento também. Mas esses são os materiais que a indústria pode fornecer. Mesmo assim, é possível que pelo menos os edifícios salvaguardem questões básicas. Se você faz um prédio que daqui a dez anos se torna obsoleto e tem de derrubar para fazer outro, como ocorre hoje, está consumindo uma energia brutal do planeta. Se faz um prédio sensível, extensível, que pode se ajustar melhor, como nosso hospital de Brasília, que tem quase 30 anos e tem se ajustado bem porque foi pensado com essa visão, você economiza.

Conseguiu chegar próximo da sustentabilidade? Não, mas pro­curo isso. Todas as experiências que fiz têm de ser corrigidas. Não tem um trabalho perfeito. Você tem que lutar muito contra a pró­pria so­ciedade para que isso seja aceito. Incrível, mas é assim. Da boca pra fora todo mundo pede luz natural. Mas aqui, no princípio, quando dava quatro horas da tarde, a direção do hospital tinha que obrigar: “Não deixa acender a luz”. Até que isso se formou como cultura. Se você deixar, às duas da tarde, com o maior sol, nego tá com a lâmpada acesa.

A gente tem uma arquitetura feita para o nosso país? Temos bons exemplos, inclusive em nossa arquitetura colonial. Embora bastante parecida com a que se praticava em Portugal, tem um sabor brasileiro, é voltada para o clima. Houve um período durante a arquitetura moderna em que essas coisas eram mais levadas em conta. Mas a pressão do mercado hoje é muito forte.

Por terem se afastado do humano, as cidades e os prédios de hoje são inabitáveis? Não, não diria isso porque o ser humano tem capacidade de se ajustar sempre às condições mais difíceis. O sucesso dele no planeta se deve a isso. Essa capacidade compromete muito a vida. Não sei como as pessoas se sujeitam a um determinado tipo de vida tão pobre, sob o ponto de vista do humano. Certas casas parecem museus. Têm tantas coisas dentro que você tem de pedir licença para passar!

E a demanda por habitação é um problema muito sério no Brasil. Pois é, e nem será resolvido. Mesmo que você quisesse resolver hoje, “nós vamos dar habitação”, a população de baixa renda ia vender a casa pra comprar um televisor e comer. Iam comer a casa! Você tem que aumentar a renda das pessoas para que te­nham acesso a uma habitação de qualidade.

Por trabalhar muito com o setor público você acabou se envolvendo com figuras controversas: ACM, Brizola, Collor... Isso não interfere no meu trabalho. Desde que não me sinta violentado e o programa solicitado esteja de acordo com o que penso, não tem problema, mesmo que o dirigente político tenha uma ideologia completamente diferente da minha.

E qual é sua ideologia política? Acho que só o socialismo pode resolver as questões da vida. Não acredito na estrutura capitalista do jeito que ela se solidifica. As coisas que o capitalismo estimula, a competição desenfreada, acho ruim para o ser humano. Não é nem ideologia, é um conceito de vida.

Acabaram-se os grandes líderes políticos? O sistema não deixa mais. Hoje ou você vai ser o Hugo Chávez ou vai ser o Lula. E a opção do Lula foi ser Fernando Henrique. É lógico que tem uma diferença, o Lula é uma pessoa bem-intencionada, não está submisso, gostaria de reagir. Na prática está tudo igual, o sistema econômico é o mesmo. Se não faz isso, tem que se colocar frontalmente contra o sistema, como o Hugo Chávez. Não tem saída.

E o que acha do Chávez? Acho sensacional essa coragem que ele tem, essa audácia de denunciar. Vende petróleo pros Estados Unidos e esculhamba o Bush, é ótimo! É uma independência. Não sei como está exatamente a Venezuela porque o noticiário chega pra gente manipulado, mas sei que é um cara bem preparado, bem informado. Já foi pra lá? Porra, é uma miséria horrível! Um país com aquela quantidade de petróleo, que abastece os Estados Unidos há 50 anos, e fica naquela miséria? É inconcebível.

 

Você teme a morte? Acho que já tive oportunidade... Quando enfartei, estive bem pertinho da morte. Foi difícil, fiquei 15 dias internado. Houve até uma vez, quando estava fazendo uma angioplastia e o sofrimento era tão grande que acreditei que estava morrendo. A morte me ronda a cada momento, mas não adianta temer... vem de qualquer maneira.

Como vê sua obra envelhecer? Tudo tem um ciclo, sabe? Hoje são raros os prédios com a pretensão de ser eternos. Fico feliz de fazer prédios transitórios, que cumpram sua função. Pelo menos por um tempo, porque alguns já nascem errados. Olho pra trás e não tenho nenhum apreço por essa ou aquela obra. Mesmo as que ficaram do jeito que estavam, como a igreja do Centro dministrativo da Bahia, igualzinha ao projeto de 1971. Significa que a Igreja não evoluiu: se fosse hospital, já estava derrubado [risos].

Pretende trabalhar por quanto tempo? Sempre, não quero parar. Parar significa morrer. Enquanto tiver forças, apesar das minhas doenças, vou trabalhando. E gosto de fazer música, né? Sempre tiro um tempinho, nem que seja para ouvir.

 

Era bom músico? Nunca fui. Tocava profissionalmente desde os 15 anos. Toquei com João Donato, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves. Mas, quando meu pai morreu, fui obrigado a trabalhar. Tinha que estudar e trabalhar, era difícil me dedicar à música. Comecei a me afastar nesse período.

E como resolveu ser arquiteto? Foi um episódio grotesco. Precisava de um emprego pra sustentar a mim e a minha mãe. Não sabia o que fazer, mas desde menino gostava de desenhar, fazia muita caricatura. Um amigo dizia: “Você gosta de dese­nhar, tem que ser arquiteto”. De tanto ser chateado por ele, fui fazer o exame. Foi ridículo... Todo mundo usava aquela enorme régua-T. E eu nem sabia pra que servia, comprei a mais barata que tinha, bem pequenininha. Todo mundo me gozou. Me emprestaram uma T e acabei passando pela prova eliminatória. Na segunda, desenho figurado, foi outra tragédia. O pintor Ubi Bawa era quem estava acompanhando. E eu fazendo tudo errado. Ele olhou e disse: “Você não vai passar, está desenhando no cantinho da folha...”, e começou a me ensinar. Passei, mas foi completamente acidental. Não tinha vocação, nem tinha me programado para ser arquiteto.


Quando se interessou por tecnologia e conforto ambiental? Também foi um pouco de acidente... Quando fui para Brasília, em 1957, era uma dificuldade enorme me comunicar com o Rio para saber dos projetos. Só dava pra falar uma vez por semana, através de um rádio. Se não tivesse uma informação técnica, podia prejudicar o trabalho da obra. Levei todos os livros disponíveis, o curso sobre fundações, estruturas, estudava intensamente. E o estudo é mais produtivo quando tem um trabalho técnico exigindo conhecimento. Passava dias e noites pra resolver um problema de fundação, por exemplo.

Falando em fundação... acredita na possibilidade de o mundo acabar? Acho mesmo! Tem certas mudanças irreversíveis impostas ao planeta. Tenho a convicção de que o ser humano está se suicidando. Todos os seres, de modo geral, competem com outras espécies, questão de sobrevivência. Só competem entre si em caso de seleção natural, do acasalamento, por exemplo. O ser humano compete consigo mesmo.

Ainda tem esperança no ser humano? Tem que manter a esperan­ça. Fico olhando meus netos e quero que eles sejam felizes... Aliás acho que não é essa a palavra, quero que vivam em paz. A preservação da nossa espécie a gente faz até o último suspiro. Alguma coisa vai acontecer, mas tem que ter uma ajudazinha da fatalidade... Senão, estamos fritos. Quem sabe um meteoro não vem aí? Ou o norte congela e os americanos têm que ir pro México... Aí muda, né?

Não gosta da palavra felicidade? Acho muito presunçosa. Pretende uma coisa que não existe. Felicidade é uma coisa inacessível. O ser humano jamais vai ser feliz do jeito que é. Não pode.

Por quê? Teria que ter outras inspirações. Primeiro, ser feliz com a felicidade do outro. E isso ele não é. Mas a paz é possível. Você sabe que as coisas não são exatamente como quer, e não sofre com aquilo. Isso seria o ideal para o ser humano: relevar algumas coisas.

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