Crônicas da cidade
Colunista produz documentário ?lúdico e entusiasmante? sobre moradores de rua em SP
Por Redação
em 19 de junho de 2006
Quando o Paulo Santiago chegou com aquela sugestão, eu já sabia que devia prestar atenção. O sujeito é uma usina de idéias. Nosso último encontro rendeu uma peça de teatro, atualmente em fase de produção pelas mãos do ator João Signorelli. É maravilhoso contar com a ajuda e empolgação de amigos tão geniais como esses. Dessa vez, Santiago queria fazer uma simbiose entre alguns de meus textos e imagens captadas em vídeo. O Elton, que é discípulo dele, tem muita sensibilidade na manipulação de imagens. Faltava, apenas, planejarmos e definirmos o alvo e a produção. Dia seguinte sairíamos a campo para a execução do trabalho. Captaríamos imagens, faríamos entrevistas. Em seguida eu produziria o texto explicativo e faríamos a leitura. Depois era questão de edição.
Iríamos filmar a distribuição de sopa que um grupo de pessoas realiza diariamente, há 17 anos, numa das pontes do bairro da Bela Vista, em São Paulo, para moradores de rua. Fiz o meu dever de casa: descobri que cerca de 10700 pessoas vivem atualmente nas ruas de São Paulo. Dessas, 6700 procuram abrigo em albergues noturnos. Mais ou menos 4000 dormem embaixo de viadutos e praças. Entrevistei um desses. Disse-me preferir dormir pelas ruas do que nos albergues do governo. “Por quê?”, perguntei, atônito. “Por conta das regras, humilhações e exigência em demasia. Parece cadeia”, contou-me. Afirmou, categoricamente, que está nas ruas para ser livre. Se quisesse viver sob regulamentos e exigências, voltaria à vida social. Mas fomos mal recebidos. Os atos ameaçavam explodir na extremidade de cada palavra. Com voz pastosa de álcool, alguém afirmou que enfiaria o pé na câmera. O grupo todo se exaltou. Não senti risco, mas respirei todo o ar em torno. Lembrei quando, na prisão, não gostava de ser filmado sem ser consultado. Houve época em que conspirei seriamente contra oportunistas que vinham nos filmar qual fôssemos animais na jaula. Sempre haveria quem tirasse algum lucro com a miséria dos outros. Compreendemos e guardamos o equipamento.
Com a chegada do carro da sopa os ânimos foram serenados. Rosângela, a líder da equipe que realiza aquele trabalho, disse que devíamos tê-la esperado. Rosângela é linda, loira, sorriso vermelho e olhos mergulhados em uma doçura sem par. Irradia simpatia e parece compreender tudo. Chamou o povo e explicou que nos conhecia; que havíamos tido o cuidado de pedir autorização para ela antes. Foi como se tocasse a multidão magicamente. Agora todos eram sorrisos e solicitude conosco. Houve até pedido de desculpas. Desembarcamos o equipamento e, confiantes, atacamos o trabalho com amor. Elton colhia imagens, Paulo dirigia e eu procurava pessoas a quem entrevistar. Era a primeira vez que estava atrás do microfone. Percebi que perguntar também é difícil, às vezes até mais que responder, caso se tenha um objetivo na entrevista. Estava acanhado, inseguro, mas metendo as caras. Sabia que era questão de ambientação e falta de hábito; aprenderia. A primeira entrevistada foi uma das auxiliares do grupo. Parecia pessoa tímida, profundamente humana e de muita boa vontade. Seu depoimento foi suave e consistente. Uma pessoa que viu, admirou, quis fazer parte e estava ali, presente. Simples e fácil. Coisa de brasileiro mesmo, embora a orientalidade de sua descendência. Observava o cuidado, a higiene e todo o trabalho daquela gente. É sempre preciso que transformemos e que, depois de transformado, transformemos novamente. Revolução permanente, atuação constante. É o que aquilo tudo me fazia sentir. Rosângela estava ali com seu filho, parentes e amigos para atender famílias que viviam nas ruas. É tal como dizia o pensador: os cegos conduzirão os cegos, os coxos levarão os coxos e eu acrescento: as famílias assistirão as famílias.
E o povo começou a fluir. A fila, como uma cobra gorda, ondulava e dobrava quarteirão. A sopa foi saindo, aquecendo as mãos frias daquela gente que agora sorria mais abertamente. Muitos estavam alcoolizados. Eu ficaria surpreso se não estivessem inteiramente bêbados, naquela noite gelada em que as pernas tremiam, se paradas. Solidão no frio parece que cresce; a gente se encolhe, quer entrar para dentro, catatônicos.
A lua desenhava aqueles rostos entristecidos em prata e cinza, dando cor e sentido aos minutos que nasciam de cada segundo. Entrevistei várias pessoas, ri, brinquei e vivi com aquele povo aquela felicidade momentânea. Para essa gente humilde, comer já é motivo de alegria e contentamento. Estar vivo naquele momento é motivo de comemoração, pois não sabem se haverá vida para eles no momento seguinte. Rosângela me encantou. Entrevistá-la foi o chantilly do bolo. Suas palavras nos deixaram enobrecidos, ao tempo em que pequenos diante de tamanha grandeza de coração. Eles não dão apenas o sopão. Fazem atendimento àquele povo. Internam em clínicas de tratamento, encaminham para documentação, trabalham para a reintegração familiar daqueles que ainda têm uma família. Com mais de 120 voluntários, a equipe procura dar atendimento geral dentro de suas reduzidas possibilidades.
Algo me doeu profundamente: a líder do grupo nos informou que muitos ali são ex-presidiários que não conseguiram a reintegração social ao saírem da cadeia. Ela os encaminha a duas ONGs que lidam com esse meu povo. Saímos plenos por conta da consciência de que havíamos realizado um excelente trabalho. Eu preocupado em sentir mais para melhor memorizar e escrever o que dizer em cima das imagens colhidas. Elton silencioso, talvez refletindo sobre o vivido e seu trabalho na edição. Paulo, acostumado com a vida e do alto de sua experiência, já procurava dimensionar o próximo trabalho. Faremos algo lúdico e entusiasmante, foi a decisão em conjunto.
* Luiz Alberto Mendes, 53, cumpriu pena de 31 anos e dez meses por assalto e homicídio. Nessa época, ainda enclausurado, começou a escrever para a Trip depois de seu livro Memórias de um Sobrevivente cair na Redação e impressionar pela qualidade do texto e força de suas histórias. Há dois anos Mendes conquistou sua liberdade. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
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