por Ricardo Calil
Trip #199

Controle remoto: salvação ou sedentarismo?

A criação do controle remoto está envolta em polêmicas: ele veio para nos salvar dos comerciais ou para estimular a cultura do sedentarismo? E, afinal, qual dos dois velhinhos abaixo inventou o aparelho?


Em outubro do ano passado, o cientista americano Paul Shlictha recomendou aos membros da Academia Real de Ciências da Suécia que o desconhecido Eugene Polley ganhasse um Nobel pela invenção do controle remoto. Não o Nobel de física, e sim o da Paz – e não para a criação do aparelho todo, mas especificamente do botão "mudo". "Esse botão foi uma força tremendamente subestimada para promover a tranquilidade doméstica e internacional e reduzir as tensões que levam às guerras", ele escreveu na revista eletrônica American Thinker.

A sugestão de Shlictha não foi levada muito a sério. Até porque o controle remoto é visto por muitos como o símbolo maior do sedentarismo moderno, da cultura dos "couch potatoes" que se enraizam como batatas em sofás diante da TV, perfeitamente encarnados na ficção por Homer Simpson. Para os detratores do remoto, ao controlar a televisão, o homem moderno perdeu o controle da sua vida.

Mas não são apenas o impacto cultural e o social do controle remoto que causam polêmica. O título de inventor do aparelho continua sob disputa. Shlictha sugeriu o nome de Polley porque ele é o único dos candidatos ao trono que ainda está vivo, mas é também o menos reconhecido pela invenção.

A ideia de um controle remoto para a televisão surgiu da cabeça de Eugene F. McDonald Jr., fundador da indústria de TVs americana Zenith. Ele acreditava que os comerciais iriam irritar os telespectadores e arruinar o futuro da televisão – e que, portanto, seria necessário criar um aparelho que permitisse mudar de canal ou silenciar a propaganda.

A primeira solução foi adaptar uma tecnologia já usada em aparelhos de rádio da Zenith, um controle remoto com fio, cujo inventor se perdeu no tempo. A versão para a TV, lançada no começo dos anos 50, foi apropriadamente batizada de Lazy Bones (Ossos Preguiçosos), e sua propaganda prometia ao espectador fazer "magia negra" com a TV. Não deu muito certo: os americanos se cansaram de tropeçar no fio.

XILOFONES E CACHORROS

Aí é que entra a figura de Eugene Polley. De origem modesta, sem diploma universitário, ele começou a trabalhar na Zenith como funcionário do almoxarifado e chegou ao departamento de engenharia como autodidata. Em 1955, criou o Flash-Matic, o primeiro controle remoto sem fio. Uma espécie de lanterna cuja luz, direcionada a um dispositivo na TV, permitia ligar ou desligar o aparelho, mudar de canal e tirar o som.

Em um ano, foram vendidas 30 mil unidades. Como reconhecimento à invenção, a Zenith deu US$ 1 mil a Polley (uma quantia quase simbólica até mesmo para a época). Apesar de revolucionário, o Flash-Matic tinha um grande problema: num ambiente muito iluminado, a TV ligava e desligava ou mudava de canais sozinha.

 

Em 1956, a Zenith lançou um novo remoto, o Space Commander, que acionava a TV através de ultrassom. O inventor Robert Adler tinha mais pedigree que Polley: o engenheiro de origem austríaca era Ph.D. em física pela Universidade de Viena. Seu aparelho também tinha seus inconvenientes: certos xilofones podiam acionar a TV, e o som emitido pelo controle era ouvido por cachorros, que começavam a latir. Mas o Commander reinou entre os controles por 25 anos, com 9 milhões de unidades vendidas, e Adler entrou para a história como o inventor do aparelho – obscurecendo o pioneirismo de Polley.

O próprio Adler – que não gostava de ver TV – se incomodava com o título. "Eu não acredito que o controle remoto tenha um pai único. Mas o público sempre quer um nome para ligar a algo", ele dizia. Adler morreu em 2007, aos 93 anos.

Aos 94, Polley continua vivo – e inconformado. "Não foi só que eu não recebi crédito. Eu levei um pé na bunda", ele declarou há alguns anos ao jornal Chicago Tribune. Às vezes, ele adota um tom mais irônico. "A invenção do controle me faz pensar que minha vida não foi desperdiçada. Talvez eu tenha feito algo pela humanidade – como o cara que inventou a descarga."

 

 

 

 

 

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