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CONSUMIU-SE

A sociedade de consumo está no fim ? e dará lugar à sociedade sustentável. Só não vê quem se esconde atrás do insulfilm

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Caro Paulo,


 


Eu sei que você quase não assiste TV, mas tem um comercial da GM que vale a pena prestar atenção pela síntese que ele faz da nossa realidade. É muito simples: começa com a Cissa Guimarães que diz que os funcionários da GM têm uma mensagem para o telespectador. Aí, um bando de homens uniformizados começa a gritar: ?Compra! Compra! Compra!?. Não é um pedido. É uma súplica. Uma súplica constrangedora. Tão constrangedora quanto a figura dessas crianças que nos abordam na rua tentando vender qualquer coisa para não pedir esmola.


Os carros da GM não são qualquer coisa, mas a necessidade de vender para sobreviver é igual: aqueles homens vão perder o emprego se a gente não comprar os carros. Aí está escancarado o drama da realidade que vivemos. Você não vai comprar o carro porque ele é bonito, potente e econômico, mas para não transformar um empregado num desempregado, pedindo esmola ou assaltando para matar a fome dos filhos, ferindo, assim, o tecido social que nos suporta.


É o fim do charme e do glamour da sociedade de consumo do jeito que foi original e ingenuamente concebida. Quem diria, a mais brilhante representante da Sociedade Industrial, a GM, através da não menos brilhante ferramenta de estímulo ao consumo, a Publici-dade, fazendo os funcionários pedirem, pelo amor de Deus e pela paz social, que a gente compre seus produtos. Esse co-mercial é mais um sintoma de que a sociedade do consumo, meio inconsciente e infantil, individualista e materialista, consumista e concentradora de riqueza, está chegando ao fim.


Chega ao fim porque não é sustentável e não é sustentável porque se apóia em uma compreensão errada do que é a vida.


Funciona assim: quem compreende a vida de forma errada, administra a vida de forma também errada. Daí o desastre social, ecológico e econômico em que nos metemos.


 


O fim deste mundo


Se eu entendo que a interdependência é uma lei básica que rege a vida, dificilmente poderei achar que a parte doente da sociedade não afeta a saúde do todo.


Paulo, me diga sinceramente, você acha a idéia de interdependência e sustentabilidade difícil de ser entendida? Pesquisas mostram que poucas pessoas entendem esses conceitos. É incrível porque são conceitos muito próximos da vida, experimentáveis na prática. A única explicação que tenho é que deve existir um bloqueio emocional que impede as pessoas de entrarem em contato com a realidade da interdependência. Como se, ao entender, elas tivessem que mudar de atitude perante a vida. Teriam que amadurecer e se co-responsabilizar pelo que acontece com o mundo.   


Esse bloqueio emocional tem uma estética e é representado por todo esse aparato de segurança como muros, guar-das e escurecimento de vidros do carro. São barreiras que impedem o contato, de fora para dentro e de dentro para fora. Criam a ilusão de que se está separado, de que não se faz parte do mesmo mun-do. Interrompem a conexão que é o pressuposto da interdependência. (Será que é por isso que sempre achei esses vidros escuros meio cafonas e decadentes?)


Não me admira os gritos suplicantes dos funcionários da GM para que o povo compre seus carros. Não adianta. O sistema está doente. Não tem dinheiro para comprar, não tem ouvidos para ouvir nem olhos para olhar. Sorte que esse mundo está acabando. Preste atenção, porque os sintomas estão cada vez mais claros. Fica com o abraço do amigo futurólogo de plantão, 


 


Ricardo.


 

*Ricardo Guimarães, 54, é publicitário, presidente da Thymus Branding, mas aguarda com ansiedade esta página da história virar. Seu e-mail é  ricardo@guimaraes.com.br 

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