Comendo todas no Rio
Uma das únicas vinganças do paulistano era reclamar da incompetência culinária carioca. Mas o quadro mudou
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Um fim de semana no Rio deixa a gente com inveja. Esse último, especialmente, foi de secar pimenteira. Luz de inverno com sol a pino. Praia o dia inteiro, sem fritar a pele, sem ter de correr na areia fofa para não deixar a planta do pé. Tudo mais suave. À noite, lua cheia, e um quase friozinho, só para lembrar que ainda é inverno. Dá para andar pelas ruas, algo que aqui em São Paulo já pertence ao passado. Até a comida melhorou.
Até algum tempo atrás, uma das únicas vinganças possíveis para o paulistano, diante da exuberância revoltante do Rio, era reclamar de sua incompetência culinária. Claro que sempre houve redutos da boa cozinha, mas eram realmente poucos. Contavam-se nos dedos de meia mão. O quadro reverteu. Não só pela invasão dos paulistas (Danielle Dahoni, do Ruella, que instalou no Hotel Marina All Suites o agradável Bar D’Hotel, ou os churrasqueiros competentes que levaram para os cariocas uma versão do Esplanada Grill, e ainda Carla Pernambuco e seu Carlota maravilhoso, agora também carioca), mas pelo desenvolvimento da mão-de-obra e dos chefes locais, até mesmo na pizza, vocábulo até a década passada desconhecido na Guanabara, tem hoje exemplares digníssimos sendo preparados na cidade. No delicioso Tal da Pizza, o produto nada deixa a desejar. Em que pese também, ao que parece, a ancestralidade paulistana, o que importa é que o carioca finalmente descobriu que pizza não é um disco de massa branca meio mole coberta com queijo e catchup. Há ainda outras boas pizzarias na cidade como a Capricciosa.
Tapioca com granola
Mas o que mais impressiona, pela excelência e criatividade na gastronomia carioca, é a maravilhosa ‘fast food saudável’, absolutamente genuína, desenvolvida por alguns gênios da cidade.
Primeiro foram os ‘salad bars’, praticamente exigidos pela galera mais saudável que queria comer com prazer sem se entupir de gordura e porcarias. O Luiza Saladas e outras dezenas de lugares serviam variedades incríveis com carnes grelhadas. Não se pode esquecer do próprio Bob’s, uma resposta carioca ao imperialismo ianque, que resiste bravamente com seus geniais queijos com banana.
Mas o que realmente fascina são as casas de sucos. Hoje verdadeiros restaurantes, casas como Bibi e Balada Sucos fizeram uma releitura das lojas de sucos de frutas que pontuam as esquinas do Rio há décadas, aplicando boas doses de bom senso, tecnologia e modernidade.
A Bibi, por exemplo, patrocina atletas, lançou uma linha de roupas esportivas com sua marca, desenvolveu crepes deliciosos, colocou pequenas mesas em frente a bancos na calçada, oferece suplementos importados, água de coco, açaís cremosíssimos, serviço de delivery via telefone ou e-mail, sem perder o caráter de suas antecessoras, com os pedidos ainda cantados no gogó por uma janelinha aos chapeiros e suqueiros, dúzias de frutas penduradas pelas paredes, e um verdadeiro zoológico humano desfilando pelo balcão. Onde mais se pode conseguir um sanduíche de kani com espinafre no pão careca, um suco de figo com açaí, requeijão e ginseng? Só no Rio.
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