por Ricardo Guimarães
Trip #252

As consequências dos erros que temos cometido como uma civilização pobre de ciência e arte estão aparecendo de forma cada vez mais contundente e dramática no nosso cotidiano

Caro Paulo,

No dia que o Alex Atala me explicou o tamanho do impacto que um prato de comida tem na economia, na política, na saúde pública, no meio ambiente, na educação, nas artes, na cultura, enfim, na vida em todos os seus aspectos, eu me tornei um ativista da gastronomia pela sustentabilidade e me juntei a ele para fundar o Instituto ATÁ.

A causa é alimento bom para todos e para o ambiente. A estratégia é unir o comer com o saber, simples assim. Leia o Manifesto do ATÁ e a carta do Alex no institutoata.org.br. Foi aí que entendi o real potencial do alimento para mudar a nossa história na direção de maior segurança, prazer e satisfação. “O fogo, com arte e ciência, é instrumento de civilização” é o slogan do ATÁ. Sem arte e ciência, temos a barbárie.

O impacto do açúcar na história e na saúde da humanidade e do planeta ilustra tão bem essa barbárie que o doce pó branco é conhecido também como “a morte branca”. Vale dar uma olhada no lindo e saboroso livro 50 plantas que mudaram o rumo da história (ed. Sextante, 2013), do inglês Bill Laws, para ter uma ideia do que estou falando. Foi lá que vi essa expressão “morte branca”.

As consequências dos erros que temos cometido como uma civilização pobre de ciência e arte estão aparecendo de forma cada vez mais contundente e dramática no nosso cotidiano. Aquecimento global, zika vírus, terrorismo, crise financeira, poluição, violência urbana, drogas, depressão, males que não surgem de uma hora para outra, mas que são construídos lentamente ao longo do tempo, numa complexidade crescente de causas inter-relacionadas.

É grande o risco de a gente ir se acostumando com tudo isso, como o sapo dentro da panela que não percebe que a água está esquentando aos poucos até morrer com a água fervente, sem reagir. Como não somos sapos, podemos fazer ciência e arte para fugir da morte agora anunciada.

QUESTÃO DE APETITE
A ciência pode mostrar evidências e esclarecer muito equívoco alimentado até hoje por opiniões frágeis de natureza política, econômica e religiosa. A arte pode provocar prazer, despertar a consciên-cia e abrir o apetite da alma para experiências que promovam a nossa evolução.

Com ciência e arte podemos redefinir beleza, sucesso e felicidade para substituir o padrão de vulgaridade criado por uma mentalidade ignorante, arrogante e gananciosa que foi boa para nos trazer até aqui, mas que não serve para nos levar a um futuro mais saudável e divertido.

Temos muita coisa para fazer, mas podemos começar com um simples e poderoso prato de comida.

Bom apetite.
Ricardo

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