por Milly Lacombe
Trip #272

”A vida, essa loucura, é igualmente monstruosa e arrebatadora, igualmente pavorosa e delirante, e seu beijo me reconectou com o lado arrebatador e delirante da existência”

Eu queria falar a respeito daquele beijo. Queria falar a respeito das coisas que senti antes mesmo que sua boca alcançasse a minha. Queria falar do universo que existiu entre o momento em que você inclinou seu corpo em direção ao meu e o momento em que seus lábios finalmente tocaram os meus. Em tempo mundano, esse tempo que usamos para medir o dia, e executar compromissos, e estabelecer metas que jamais serão respeitadas, deve ter se passado meio segundo, ou nem isso. Mas em tempo pagão, esse tempo subjetivo que optamos por ignorar porque ele não pode ser medido, muito menos monetarizado ou mercantilizado, um portal foi aberto e, dentro dele, pude perceber o infinito de sensações e de emoções que nos inundam quando ousamos escapar da ilusão que só a realidade oferece.

Agora entendo que o portal foi aberto no momento em que você sorriu para mim e começou a realizar o movimento de inclinação de seu tronco rumo ao meu. Como diz o provérbio, quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação: seu sorriso maroto, esse que abriu o portal, comunicou emoções e sensações que palavras não podem jamais alcançar. Num primeiro instante, ainda aprisionada ao tempo mundano, achei que as banalidades e trivialidades que eu estava dizendo, que já nem lembro quais eram, tinham entediado você, que não parecia estar prestando mais nenhuma atenção. Mas, antes mesmo que eu pudesse mergulhar em desconforto, teve início o movimento de inclinação de seu tronco em direção ao meu, o que me fez achar que talvez você não estivesse exatamente entediada. Como estávamos de pé, e como você tem vários centímetros a mais do que eu, eu enxergava a cena de um ponto mais baixo do que o seu, e pude notar com extrema nitidez que aquele sorriso maroto e misterioso ainda estava ali, agora chegando mais perto de mim.

Esse seu sorriso maroto me disse coisas bastante claras. Uma delas foi a que, embora estivéssemos começando a entrar em oceano nunca antes navegado, havia uma arrebatadora certeza em você de que aquela atitude carregava significado – já que no corre diário acabamos esquecendo que não são as palavras que revelam as maiores verdades – e que o beijo que estava prestes a acontecer não era apenas um beijo roubado em um bar lotado dentro de uma noite quente, vadia e delirante. Tudo isso pude perceber na faixa de tempo pagão que ocorreu entre o momento em que seu corpo começou a se inclinar sobre mim e o instante em que seus lábios encostaram nos meus. Eu estava na segunda cerveja e começava a enxergar o mundo com aquele véu de inocência e alegria que cai sobre os olhos dos embriagados, então não sei como reagi ao seu sorriso maroto, mas imagino que tenha sorrido de volta, tentando esconder a timidez e a insegurança que me acompanham.

Enquanto sua boca se dirigia à minha, seu sorriso me disse também, de forma muito eloquente, que aquele momento, naquela sexta-feira à noite, no mês de dezembro, no bairro de Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro, estava sendo construído há muito tempo sem que tivéssemos consciência dele. É a beleza que só o mistério pode abrigar, e que talvez Proust tenha sido capaz de colocar em palavras ao escrever: temos tantos interesses em nossas vidas que não é incomum que, em uma específica ocasião, as fundações de uma alegria que ainda não existe estejam deitadas ao lado de uma tristeza da qual ainda estamos padecendo.

Improvável portal

Há muitos meses, quando nossos caminhos se cruzaram, quando esse roteirista cósmico debochado fez com que nossos personagens se encontrassem em ocasião de trabalho, ambas ainda sofríamos, dentro de nossas noites escuras da alma, de uma tristeza que talvez, arrogantes, jamais tenhamos imaginado sofrer, e que nos levou a estados de desespero e a labirintos espirituais dos quais, por vezes, imaginamos jamais conseguir sair. Mas um dia, finalmente, aprendemos que o caminho da formação da consciência é o caminho do desespero e, refeitas, voltamos a existir plenamente; e então estávamos ali, numa cervejaria no Botafogo, prestes a abrir um improvável portal e a passar para uma nova região da experiência.

Quando seus lábios finalmente encostaram nos meus e você, pela primeira vez, entrou em mim enquanto sua mão em minha cintura me chamava para deixar meu corpo cair sobre o seu, tudo fez sentido outra vez. Seu beijo, e o calor que agora trocávamos, estavam me reconciliando com as fundações da minha existência, me fazendo aceitar e celebrar o mistério, me devolvendo o senso de estupefação diante dessa enorme maluquice que é existir, que é estar aqui agora.

A vida, essa loucura, é igualmente monstruosa e arrebatadora, igualmente pavorosa e delirante, e seu beijo, o beijo mais doce e delicado que já ganhei, me reconectou com o lado arrebatador e delirante da existência e me fez, como no afresco de Michelangelo, sentir um átomo do que sou encostar no dedo do divino. Felicidade é como o horizonte: quanto mais furiosamente a perseguimos mais ela escapa. É preciso se render à vida, aceitando todo o horror, todo o mistério e toda a estupefação que ela é, para que consigamos entrar no vestíbulo do paraíso.

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É impossível saber o que virá depois. Impossível saber o que nos tornaremos, tudo o que viveremos ou deixaremos de viver, tudo o que sentiremos e alcançaremos, todos os medos que nos visitarão e todas as coisas que superaremos, mas é bastante possível saber que aquele beijo, e a coragem que levou você até ele, me transformaram. Ser capaz de se jogar na correnteza e de, humilde e alucinadamente, se curvar ao “seja feita a sua vontade” é a experiência mais libertadora que podemos ter – e você e aquele beijo me reconciliaram às fundações dessa nossa louca existência.

A vida, afinal, não erra. E se toda a dor, e se todas as noites escuras da alma, e todo o desespero e as angústias pelas quais passei tiverem me conduzido a você, e ao que vivemos até aqui, então eles foram absolutamente necessários. Nem que seja por uma noite, nem que seja por uma semana, nem que seja por um mês, nem que seja por um ano – nem que seja por toda uma vida.

Créditos

Imagem principal: Ernesto Neto / Circleprototemple...! (2010)

Foto: ERNESTO NETO CIRCLEPROTOTEMPLE…! (2010). HAYWARD GALLERY, SOUTHBANK CENTRE, 2010. FOTO STEPHEN WHITE

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