por Ricardo Guimarães
Trip #270

Fizemos o umbigo cair no esquecimento para sempre e, quando se pergunta sobre sua utilidade, dizemos que não serve para nada. Será?

Caro Paulo,

Sempre tive inveja da Lili amamentar nossos filhos. Por que só a mãe podia ter esse prazer? Indignado, eu ficava de coadjuvante sem fala em uma das cenas mais lindas da natureza.

Mas nunca parei para pensar na ligação umbilical da mãe com o filho, que é muito mais vital e definitiva do que a amamentação.

Foi a necessidade de escrever este texto que me fez refletir sobre o personagem que vive escondido no escuro da barriga da fêmea, do qual o umbigo é um simples vestígio.

Quando o cordão, potencial umbigo, vem à luz, ele não é mais aquela solução genial que a natureza criou para produzir vida. É um problema.

Mas a natureza preparou a mãe para cortar o cordão com os dentes e assim, com uma carga dramática extraordinária, completar o design da solução. As fêmeas humanas têm ajuda para isso, o que não diminui em nada a importância da primeira experiência de autonomia que temos quando respiramos por conta própria: viver dói.

Dói tanto que fizemos o umbigo cair no esquecimento para sempre e, quando se pergunta sobre sua utilidade, dizemos que não serve para nada. Será?

O umbigo pode ser a lembrança da desagradável expulsão do paraíso e da imperativa necessidade de viver por conta própria. Comer, cocô, beber, xixi, dormir, estudar, trabalhar, casar, fazer filho, cuidar dos filhos, trabalhar mais, cuidar da mãe e do pai envelhecidos, dormir, cocô, xixi, comer, ser o velho da vez e morrer.

Um projeto trabalhoso, frágil e complexo que só será suportável se encontrarmos algum sentido em todo esse esforço para se manter vivo e saudável para morrer bem (!).

A alternativa é se entorpecer com objetivos e conquistas banais cotidianas mesmo sabendo que não vai encontrar nessa vida o conforto e a segurança experimentados na barriga da mãe.

Enquanto isso, deixa o umbigo quieto. Não mexe com ele! Porque ali pode ter encrenca das bravas.

Tento seriamente evitar a alternativa do entorpecimento e acho que essa tentativa virou um estilo de vida que é o que temos para hoje. Não tenho respostas definitivas para a dor da vida, mas tudo que passa pela minha cabeça é de verdade.

E não guardo isso para mim, você sabe. Conversar aqui com você é um jeito de dividir essas umbigadas.

Aliás, como falamos no jantar, o vídeo Transição e otimismo já está indo ao ar. Lá faço uma aposta em dias melhores, mas não sem antes passar pela lição de casa de aprender a lidar com a vida como ela é, e não como um dia foi idealizada por uma vã filosofia. Veja lá e me diga se ali tem uma contribuição para dar algum sentido a essa cicatriz inútil na nossa barriga.

Abraço forte do amigo, 

Ricardo.

Créditos

Imagem principal: Gustav Klimt via Wikimedia Commons

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