por Luiz Alberto Mendes

Chico Picadinho

 

Fui parar na Penitenciária do Estado em 1973 porque havia matado um outro preso na Casa de Detenção de São Paulo. Isso aconteceu há mais de 40 anos, o que torna os motivos irrelevantes. Fora desterrado para cumprir castigo e tirar pena. Na época já somavam mais de 100 anos de condenações. Estava enterrado vivo e completara apenas 20 anos de idade.

Depois de mais de um ano, fui liberado do regime de castigo (cela-forte) para o convívio comum da prisão. Foi então que o conheci; morávamos no mesmo andar do segundo pavilhão. Já ouvira falar dele nos noticiários. Era o homem do crime da mala. Fora flagrado com o cadaver de uma mulher todo picado, dentro de uma mala de viagem. Dai a alcunha: Chico Picadinho.Ele era relacionado a um grupo de companheiros que liam livros do meu pavilhão. Trabalhava no setor de Biotipologia da prisão e estava na luta para ser libertado, depois de 10 anos preso. Os psicólogos e psiquiatras do setor de Biotipologia gostavam dele. O sujeito possuia uma cultura invejável, era educado, fora chefe de equipes de vendas e falava com fluência. Os laudos técnicos acerca de sua perigosidade foram favoráveis à sua libertação.

Liberto, em pouco tempo reconquistou sua posição de chefe de equipe de vendas. Retornou à Penitenciária para vender livros e acabou por efetuar uma grande venda para a prisão. Estava cheio de moral,novamente era um sucesso. De repente ele foi flagrado, novamente, tentando dispensar uma mala com uma mulher picada dentro. Aquilo explodiu nos noticiários: como as autoridades podiam soltar um louco daqueles? O escândalo foi tamanho que o setor de Biotipologia da Penitenciária foi extinto e pessoas perderam seus empregos.

O Chico estava ali novamente conosco, como se nada houvesse acontecido e trazia livros para lermos. Ele foi minha fonte de livros por anos.Voltou a trabalhar junto à administração da prisão e ser o preso comportado e aprisionável de sempre.Foi nessa época que eu o conheci mais profundamente. Conversávamos diariamente no pátio de recreação. No fundo ele sabia que, mesmo gostando dele, eu estava curioso em saber o que acontecia com ele. Queria entender; puxa, o sujeito era igual a cada um de nós, mas tinha aquela loucura toda, como podia? Quem o conhecia tinha dificuldades para aceitar; ele sempre fora tão pacífico, tão humilde e inofensivo… Aos poucos fui ganhando sua confiança e ele foi abrindo até sem querer. Dizia que não retalhava as mulheres por sadismo. Antes as cortava, depois de mortas, para que elas coubessem dentro das malas e ele pudesse dispensar seus corpos sem problemas. Na hora, a pergunta que não se cala se fez presente: ah! Então você dispensou várias? Ele se calou, assim meio que ofendido. Mas, como não apareceram outras malas, continuei otimista com meu novo amigo.

Francisco me ajudou em uma época em que precisei deveras. Forneceu-me diálogo de alto nível e me ensinou muito sobre literatura. Ele lia, obsessivamente, um livro atrás do outro. Mas principalmente tudo que lhe caisse em mãos sobre psicologia e psiquiatria. Tenho certeza de que ele sabe muitas vezes mais do que qualquer profissional da área. Lia com a alma, em busca de se entender e quando fazia sentido, ficava louco para nos contar. Precisava de alguma platéia. Fazia Yoga e dizia que não era psicopata. Gostava de nós de verdade,dizia que nós sabíamos disso (não tinha tanta certeza assim) e um psicopata não gosta de ninguém. Possuía apenas a personalidade psicopática. Qual a diferença? Outra pergunta impossível de calar. Segundo ele, e explico a grosso modoporque ele nos dava uma aula das teorias de Freud, Jung, Skinner, Adler, Lacan e outros antes de entrar no assunto de fato; psicopata vivia sua doença em tempo integral. Era psicopata a todo instante e não tinha consciência de sua doença. Ele tinha surtos psicopáticos. Dependia de vários fatores, desde a quantidade de bebida que ingerisse e até com quem estivesse. Não sabia se acreditava nisso. Às vezes ele passava dias, semanas, sem conversar ou reconhecer nenhum de nós. Nem saia da cela e quando saia, ficava marchando pra cima e pra baixo no pátio, com os olhos esgazeados.

Sartre afirmava que ao nos aproximar do outro, ele nos transformava em objeto. Durante um bom tempo ele foi objeto de minha pesquisa.Eu o provocava para que ele falasse de suas doideiras. Sei que ele percebia e até gostava. Ficava me contando coisas completamente loucas para depois, quando me via de olhos arregalados, rir de mim dizendo que era mentira. Eu ficava na minha, sorrindo frouxo, mas não acreditava.Era muito vivo e presente para que fosse só mentira.

Certa vez, estávamos, eu e meu amigo Henrique Moreno na frente de uma sala e o Chico conversava com um outro maluco, nosso conhecido (muita pessoas perderam a razão na prisão), ao fundo da mesma sala. De repente Henrique pediu silêncio com o dedo na frente da boca. Ficamos escutando os malucos que,empolgados, conversando alto. E a conversa chegava ao extremo: o maluco dizia de como o prazer de enforcar a mulher na hora do orgasmo enriquecia o ato sexual. Chico ouvia embevecido, quase babando, com os olhos fixos e duros. Imaginei que naquele momento talvez ele estivesse tendo um surto. O maluco nem sabia o risco que corria dizendo aquelas besteiras. Eu e meu amigo assumimos atitude defensiva; não dava para dar as costas para eles naquele momento. E a conversa foi longe. Quando saímos da sala, Chico, que morava no mesmo pavilhão que eu, veio me falando: “_Legal aquele seu amigo, meio maluquinho, mas tem umas ideias muito interessantes…” Ele não percebeu que escutáramos parte da conversa. Dei-lhe uma olhada por baixo dos olhos e nem disse mais nada.

Francisco ainda esta preso. E isso há cerca de 40 anos, depois de haver sido recapturado no segundo delito. Cumpriu a pena máxima do país, mas esta nas mãos do setor de psiquiatria. A Medida de Tratamento que veio acrescida à sua pena pode mantê-lo preso até seus ultimos dias. Quando chega a hora de vencer a pena da Medida de Tratamento, os psiquiatras e psicólogos que compõem a equipe que o examina, não atestam que ele esta apto ao convívio social. A medida de tratamento começa tudo de novo.Somente ao cabo de mais 2 anos terá direito a novos exames com a equipe técnica, com certeza antecipada de ser novamente reprovado. Uma triste rotina que vai consumindo de tristeza sua vida. Assim como foi muito mais triste a história das duas mulheres por ele mortas e esquartejadas. Deve estar próximo aos 70 anos, provavelmente morrerá preso ou o soltem para morrer.

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Luiz Mendes

05/03/2015.

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