Por Redação
em 21 de setembro de 2005
É inacreditável a pujança do mercado imobiliário paulistano. Prédios crescem e aparecem, como cogumelos depois da chuva.
Ao redor da minha casa, nasceram seis enormes, em cerca de um ano. A verticalização da cidade, apesar de inevitável, tem de ser organizada com urgência. O tal Plano Diretor aliás, se não deixar as arenas de vaidades e disputas políticas, pode significar a morte da cidade, que, num processo de falência gradual, se transformaria num cadáver vertical e putrefato.
Não sou contra a construção civil, muito menos advogo a favor de que São Paulo seja congelada no tempo e se transforme num museu arquitetônico a céu aberto, mas acabar com a vida de bairros e transformar todas as regiões da cidade em paliteiro de prédios pode atirar a todos os que vivem por aqui num caos definitivo. Outro dia, fui a Moema, bairro que não visito toda hora. Costumava ir muito para lá, cerca de dez ou doze anos atrás, por motivos profissionais, mas espacei radicalmente minhas visitas à região, nos últimos cinco.
É inacreditável o quanto Moema foi desfigurado e perdeu sua identidade. Lembra a Vila Olímpia, arrasada pela invasão de imóveis que não comportava. Isso sem falar na infra-estrutura, nas ruazinhas, projetada para casinhas de classe média, com três ou quatro habitantes e substituídas por gigantes ‘neoclássicos’ contendo centenas de almas, seus carros, empregados, dejetos, lixo, linhas de telefone, ruídos, cabos, pizzas delivery e todos os etcéteras que sua imaginação permitir.
Quem vai querer?
Repito, sou a favor do progresso, se não por outras razões, porque é inevitável, do aproveitamento racional e moderno do solo da cidade, acredito que prédios de apartamentos são uma boa opção para que mais gente possa se beneficiar de viver perto do que há de bom numa cidade, mas defendo a idéia de que se não racionalizarmos esse crescimento, em breve, ninguém em sã consciência vai querer viver nesses apartamentos, em ruas às quais não se consegue chegar, graças ao trânsito intransponível, hiperpoluídas pelo lixo gerado, pelo visual amontoado, pela disputa de espaço e poder, e nas quais não seja mais possível encontrar o tipo de convivência real entre pessoas, e a tal cidadania, que é o que costuma atrair as pessoas às grandes cidades. Quem não acreditar nessa tese, pode dar uma passada na Barão de Limeira ou na Avenida São Luiz, em outros tempos, endereços disputadíssimos, hoje entregues a cidadãos mais tolerantes ou excêntricos, que não se incomodam com a dificuldade de acesso, barulho, poluição, insegurança, etc…Outros exemplos poderiam ser mencionados ad infinitum… Giovanni Gronchi, imediações da Berne, Nove de Julho, Av. Santo Amaro…
É claro que é possível urbanizar e tornar decente a vida na periferia ou recuperar o centro de São Paulo, e há muita gente séria empenhada nisso, mas será bem mais difícil devolver dignidade a essas áreas da cidade, do que manter a que ainda consegue subsistir em alguns redutos urbanos da sofrida e cada vez mais espremida classe média (baixa) trabalhadora paulistana.
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