por Henrique Goldman
Trip #233

Querido manifestante que pensa em sair às ruas durante a Copa do Mundo

O Brasil seria capaz de organizar uma Copa menos manchada pela corrupção e pela incompetência? Choramos ao ouvir nosso Hino Nacional porque, no fundo, sabemos que não é hora de reconhecer isso

Querido manifestante que pensa em sair às ruas durante a Copa do Mundo,

Antes de mais nada, quero dizer que você tem toda a razão e todo o direito de manifestar sua raiva e indignação contra as mazelas do governo, contra a corrupção e a incompetência – ambas generalizadas – dos nossos políticos, da Fifa, da Nike, da CBF e de tantas outras nojentas instituições e corporações que controlam a indústria do futebol. Entendo também que você considere a Copa do Mundo a praça pública ideal para lavar infinitas roupas sujas, estragando a festa dos corruptos ao expor para o mundo nosso descalabro moral, ambiental, político e cultural. Como podemos celebrar, esbanjar tanto em futebol, enquanto nossos hospitais, escolas e transporte público estão caindo aos pedaços?

Uma pequena digressão, caro manifestante: recentemente entrevistei o antropólogo Roberto DaMatta, um pensador de 74 anos que tem como missão de vida entender a nós, brasileiros. Ao conversar sobre a Copa do Mundo, eu disse ao professor DaMatta que, desde criança, sinto uma emoção profunda cada vez que vejo os jogadores da seleção brasileira cantando o hino nacional. Me esforcei para confessar para o intelectual que muitas vezes essa emoção inexplicável e piegas – que vem do meu mais profundo âmago – me faz chorar.

O sábio professor olhou para mim com doçura e disse que eu não precisava me envergonhar, pois ele também sentia essa mesma comoção. “Nos emocionamos porque achamos que, como povo e país, não valemos nada”, ele disse. E continuou: “No fundo, nos vemos como um país atrasado e insignificante. Nossa autoestima é muito baixa. Não gostamos de nós mesmos. Mas eis que, no futebol, encontramos uma possibilidade única de redenção. Nesse quesito, nossa grandeza é reconhecida. O mundo se ajoelha diante de nós. Não somos uma escória e, redimidos, choramos”.

PERDÃO E REZA

As palavras do professor são muito verdadeiras, não é mesmo, caro manifestante? Por isso, pergunto: você acha mesmo que nossas escolas e hospitais seriam muito melhores se não tivéssemos uma Copa do Mundo em casa? Você tem certeza de que o Brasil seria capaz de organizar uma Copa menos manchada pela corrupção e pela incompetência? Choramos, eu e milhões de brasileiros, ao ouvir nosso hino porque, no fundo, sabemos que não. A torcida só canta “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” porque no fundo ela odeia o Brasil e a si mesma. É hora de nos reconhecermos e nos perdoarmos.

Peço então que você, querido irmão manifestante, antes de se manifestar contra a Copa, considere a fundamental importância mitológica do nosso time com a bola no campo. Lembre-se de que em toda a história fomos infinitamente mais bem representados pelos nossos jogadores do que por nossos políticos. Isso já era verdade durante os anos sombrios da ditadura militar.

Vamos juntos rezar pelos nossos heróis. Que eles nos honrem em campo. Que, mais do que jogadores, eles saibam ser também anjos. E que com sua mágica redentora eles nos salvem dessa tristeza e dessa raiva que, caso contrário, nos levarão para um abismo.

*HENRIQUE GOLDMAN, 51, cineasta paulistano radicado em Londres, é diretor do filme Jean Charles.

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