CARLOS O AMANTE
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Semana passada comemoramos o dia dos namorados. Motéis, floriculturas e principalmente restaurantes faturaram como nunca. Fábricas de jeans lotaram as ruas de cartazes com jovens, todos magros e cabeludos, se beijando.
A engrenagem girou vigorosa e as caixas registradoras viraram a meia-noite recheadas. Não há nada de mal no dia dos namorados. Ao contrário, é ótimo ver o comércio receber dose extra de capital, que acabe invariavelmente revertendo em coisas positivas. A única reflexão que talvez caiba é a propriedade ou não da alegria com data marcada. Pessoalmente, por mais que tenha eventualmente dificuldades de tornar-me alegre necessariamente às 23:30h do dia 31 de dezembro, acho estas convenções simpáticas e convenientes, principalmente porque, nos obrigam a quebrar uma rotina cada vez mais idiotizante e a pensar um pouco em nós mesmos e nas relações que nos cercam.
Já disse aqui mesmo neste espaço, que um dos aspectos que conferem vantagens em termos de qualidade de vida aos esportistas é que quando treinam, competem ou praticam seus esportes, estes homens e mulheres se obrigam a conversar e conviver com seus interiores, sentindo por alguns segundos, minutos ou em alguns casos, várias horas, toda dimensão de suas existencias físicas e espirituais.
No dia dos namorados, na verdade na véspera, vi um texto definitivo de Carlos Heitor Cony sobre o amor. Até aí, nada de notável, a qualidade do texto e o nível de sensibilidade deste escritor são conhecidos desde antes de eu nascer. Em meu cérebro porém, vítima da comunicação de massa, há uma mensagem gravada no hard disc ensinuando que paixão e amor são privilégios de adolescentes e jovens, igualzinho ao outdoor. Cony, que salvo engano está em algum ponto entre a sétima e a oitava década de uma frutífera existencia mostrou a mim e a outros ingênuos que para amar basta estar vivo. Talvez nem isso seja necessário. Sugiro Carlos Heitor Cony para a próxima campanha da Forum para o dia dos namorados.
Não deveria surpreender a ninguém, o fato de que um sujeito de sensibilidade do tamanho da Oceania, falasse com intimidade sobre o amor. Inadvertidamente porém, esperava ouvir de um homem maduro, relato sóbrio sobre a segunda e mais duradoura etapa do amor, o amor consolidado pelo tempo, o amor de convivência, da confiança, do respeito, da profundidade do silêncio, do calor da companhia.
Cony ao contrário disparou labaredas, falava de paixão, como alguém que está vivendo uma. Suas mãos deveriam estar frias enquanto seguravam a caneta ou dedilhavam o teclado. Seu pensamento, toda química de seu cérebro deveriam estar tomados pela anfetamina natural que o corpo produz em estado de paixão. Deve ter tido inapetência total, ficando sem comer por dias e dias, deve ter visto colegas de trabalho, porteiros de prédios ou motoristas de taxi falando com ele sem que entendesse ou sequer ouvisse uma palavra. Devia estar vendo ‘frames’, imagens fragmentadas da mulher amada por todo campo de visão, devia estar sentindo medo de lembranças ou da sensação (por mais remota que fosse) de possível perda deste sentimento, devia estar sentindo uma espécie de dor, um desconforto confortável na altura do peito, um pouco acima da boca do estômago. Devia estar com os olhos brilhando mais que o normal. Cony é vivo.
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