por Luciano Huck
Trip #186

Luciano Huck desceu a maior onda de sua vida depois de apresentar Naamã a Kelly Slater

Luciano Huck conta a sua revelação havaiana depois de apresentar Naamã a Kelly Slater e, de quebra, descer a maior onda de sua vida – sob a tutela de Carlos Burle e Maya Gabeira

Um nasceu no morro do Cantagalo no Rio de Janeiro, há 14 anos, e até hoje não tinha conquistado nem uma geladeira para ter em casa. O outro nasceu em Cocoa Beach, na Flórida (EUA), há 37 anos, e já conquistou tudo o que quis. As realidades são distantes, mas unidas por uma paixão: o surf.

Um batizado de Naamã, nome bíblico que significa “criança meiga”. O outro, Robert Kelly Slater, que significa “aquele que brilha na glória e fama”. Os significados não poderiam ser mais adequados.

Agora, onde eu entro nesta história? Fui o agente transformado. Promovi o encontro de Naamã com Kelly Slater nas águas do Havaí. Achei que estava transformando algo, mas na verdade o transformado fui eu. Mas isso eu explico depois.

Naamã é um dos milhares de garotos que moram no complexo de favelas do Cantagalo/Pavão-Pavãozinho e sonham com um futuro melhor. Pai artesão, mãe dedicada – mas muito doente –, irmãs que se tornaram mães na adolescência e irmão morto pela polícia. Kit completo.

Conheci o garoto através de um belo documentário chamado Rio breaks, que conta a história de dois meninos surfistas do Arpoador. Fiquei encantado com a história deles. E, em um dado momento do doc, um deles diz que seu sonho era conhecer o Kelly Slater e surfar as ondas do Havaí.

Sentado na sofá de casa me perguntei: por que não?

Saí à caça dos garotos. Um deles, não encontramos. Tudo indicava que já havia sido “recrutado” pelo poder paralelo. O outro estaria indo para o mesmo caminho, mas, quem sabe.

O maior problema era como convencer o nonacampeão mundial de surf Kelly Slater a surfar com um menino de uma favela do Rio de Janeiro para um programa de televisão brasileiro. E no Havaí.

É nessas horas que acredito em destino. Uma semana com essa ideia na cabeça e me liga meu amigo e também amigo de longa data desta publicação, o fotógrafo Vavá Ribeiro – também amigo pessoal de Kelly Slater – para dizer que ele, Vavá, depois de uma longa temporada fora, estava voltando ao Brasil. Contei a ideia. Em 48 horas tinha o sinal verde de Slater. Não acreditei.

Três meses depois…
Naamã nunca tinha entrado em um avião, dormido em um hotel, jantado em um restaurante, tomado café da manhã em um bufê, falado inglês… enfim, estava testemunhando uma enxurrada de novas experiências do nosso garoto. E, a cada cinco minutos que passava, gostava mais dele. Seus olhos não cabiam dentro do seu rosto. Viajamos horas a fio até chegar ao Havaí. Quando viu as ondas quebrando pela primeira vez, chapou. “Toda onda aqui faz bafão!!!!! No Rio, só dá bafão raramente!!!” Bafão é aquele spray que sopra de dentro da onda quando ela se fecha, tamanha a pressão da água. Só para ilustrar, chegamos ao Havaí durante um swell com ondas de 12 pés (algo em torno de 4 metros) em Pipeline.



O dia seguinte…
Kelly Slater chegou cedo. Simpático. Gente fina. E disposto. E sua disposição aumentou muitíssimo depois que assistiu a um vídeo que editamos mostrando a casa e a realidade do seu pequeno fã brasuca. O encontro dos dois foi inesquecível. Aquele menino ainda meio marrento, cheio de gírias do morro e de trejeitos de adulto, virou criança de verdade, como deveria ser. Se atracou em um longo e demorado abraço no pescoço de Slater, que, com os olhos cheios d’água, retribuiu à altura.

A partir daí, foi dedicação exclusiva: o Michael Jordan dos mares, o Pelé das ondas, o Ayrton Senna dos cut backs estava lá, entregue a um menino.

Passou mais de quatro horas no mar com Naamã. Ajudou. Ensinou. E acho que também aprendeu. Tanto que fez questão de almoçar com a nossa equipe e, à noite, já fora de qualquer obrigação profissional, voltou para jantar com Naamã.

Kelly Slater ganhou mais um fã: eu.

E Naamã? Bom, Naamã teve de voltar para o Rio. Voltar para a dura realidade. Mas acho que entendeu que o surf não é só um hobby, mas sim um jeito de levar e de construir a vida. Entendeu que, para chegar lá, tem que estudar, batalhar, trabalhar e levar as poucas oportunidades que a vida oferece a sério. E, no caso dele, as oportunidades vão aparecer, deixa comigo.

Por falar em oportunidades na vida…

Depois de 38 anos de vida e 15 de televisão, achei que já tinha tido quase todas as que desejei ter, mas nesta viagem descobri que faltava uma, e que, graças à dupla Carlos Burle e Maya Gabeira, não falta mais: surfar uma grande onda no Havaí.

Jamais imaginei que seria capaz. Tenho duas frustrações na vida: não saber tocar bem um instrumento nem surfar.

Acordei às quatro da manhã em Turtle Bay, North Shore havaiano e ainda era noite, mas essa era a rotina diária de Burle e Maya. O dia prometia, o swell continuava a bombar, um pouco mais leve, e a meteorologia prometia sol.

No porto nos esperava um dream team local, além da própria Maya e Burle, estavam: Mark Healey, surfista profissional, salva-vidas e mergulhador; Noah Jonhson, vencedor do Eddie Aikau; e Abe Lerner, salva-vidas número 1 do North Shore. Todos reunidos para dar segurança à nossa equipe durante a filmagem de Burle e Maya em ação no tow-in nas ondas de Hammer Head.

No pico estavam quebrando ondas de 7 a 8 pés. Para eles, “um passeio”. Para mim, monstros furiosos que quebravam ao lado do jet ski onde eu estava. Não passava pela minha cabeça nem a ideia de colocar o pé na água. Até que Burle mandou: “Quer pegar uma onda, Luciano?”.

Achei que ele estava delirando com o sol quente sobre a sua cabeça ou que ali estava algum outro Luciano que eu não conhecia. Mas a pergunta era para mim mesmo.

Disse que era impossível. Que a maior onda que tinha tentado surfar deveria ter 30 cm. Que a minha experiência com pranchas se resumia ao snowboard e ao wakeboard.

Depois de ouvir que ali estavam os melhores salva-vidas do Havaí, e que ele, Burle, garantia que “morrer ali eu não iria” – tomaria no máximo belo caldo –, fui convencido. Puxado pelo jet ski de Burle, fui colocado em uma onda maior do que eu. Surfei. Sem cair. Para mim, uma parede gigante de água.

Obrigado, Burle. Obrigado, Havaí. Vivi uma experiência única. Eu e Naamã. E, por que não dizer, Kelly Slater também.

Agradecimento Prodigo Films www.prodigo.com.br

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