por Redação
Trip #233

Luana Piovani, Thalma de Freitas, Rorion Gracie e outros convidados contam como se viram para encontrar uma vida mais excitante e menos brochante

 chegado o momento de acrescentarmos ao tempo e ao espaço mais uma dimensão fundamental à vida no Universo: o tesão. Fritz Perls, que era alemão e escrevia também em inglês, deu a essa dimensão o nome de awareness. Palavra de tradução difícil para o português e, à falta de outra melhor, escolheu-se conscientização. Mas, para compreender o que Fritz queria designar por awareness, é preciso utilizar vários outros conceitos, além do estado de aptidão mental responsável: o estar física e emocionalmente em prontidão, alerta, atento, disponível, sintonizado, sensibilizado, sensorializado, sensualizado a todos os estímulos internos e externos da vida cotidiana. Coisas que quase significam tesão no português falado no Brasil. Mas apenas quase, porque tesão é mais que isso.”

O trecho acima abre o primeiro capítulo de Sem tesão não há solução, livro que o psiquiatra Roberto Freire (1927-2008) lançou em 1987 e foi um dos maiores sucessos do mercado literário de então. Naquele ano, a palavra tesão era usada por poucos, uma gíria que não caía bem entre senhoras e senhores de respeito. Questões semânticas à parte, podemos dizer que, 30 anos depois, seguimos na mesma busca detectada por Freire: a busca por mais entusiasmo, motivação e prazer na vida. Por mais paixão.

Num dos momentos mais tensos, confusos e brochantes dos últimos tempos no Brasil, a pergunta que permeia esta edição – e principalmente as páginas deste caderno especial – é: Cadê o tesão? Onde encontrar válvulas de escape que tornem o cotidiano mais leve, criativo, gostoso, empolgante? Como encontrar o que dá liga e sentido à vida? O que, afinal, te dá tesão? A seguir, algumas tentativas de respostas.

O que te dá tesão na vida?

“Talvez seja surpreendente eu falar isso, mas excitação não tem muito a ver comigo. As pessoas fazem uma imagem errada de mim: eu sou muito do sossego. Tenho horror a adrenalina, eu gosto de segurança. Eu gosto do quentinho, das quatro paredes, da cama arrumada. E gosto de ritual. Adoro quando a gente organiza nossas ‘festinhas no céu’. A gente escolhe uma música, abre um vinho, acende uma vela, toma um banho, eu falo ‘você quer banho do quê? Temos de rosa e temos de verbena’. Isso eu adoro – mas tem menos de excitação e mais de ritual. Alguma coisa que me pilhe não necessariamente é boa pra mim. Respiração curta me aflige demais. Mas, se eu tiver que pensar sobre o que é minha grande droga, minha cocaína, eu diria joia. Eu amo joia! Joia cara, joia de Hollywood. Eu vejo aquilo e derreto, mexe comigo... Em relação a sexo, eu não tenho essa coisa quente de surpresa, lugares. Tenho horror a isso, à possibilidade de alguém me ver de quatro, pelada, transando. Quero ter certeza de que eu estou na minha intimidade, de que estou segura, de que sei onde estou, de que meu filho não vai abrir a porta e de que ninguém está me ouvindo.”

Luana Piovani37 anos, é atriz e acaba de atuar no longa Réveillon, de Fábio Mendonça

“Viajar para conhecer novos horizontes. Conhecer outros sons que ativam outros lugares do cérebro, sabores desconhecidos e as deliciosas camas de hotel. Fazer amor pela manhã e cochilar mais um bocadinho antes de uma orgia gastronômica no brunch, seguido de outro cochilo. Viajar é o tesão do amor pelo mundo! Recentemente me apaixonei pela dor muscular causada pela atividade física exaustiva do kickboxing, do muai thay e do pilates com peso. São dores opostas àquelas que o sedentarismo provoca. Em vez de mal-estar, dá o maior tesão. Principalmente depois do banho, quando a gente se olha no espelho e percebe o corpo rejuvenescendo a cada dia. Endorfina é o tesão do amor próprio!”

Thalma de Freitas, 39 anos, é atriz e cantora

Qual a luta mais excitante da sua história?

“Desde 1978, meu caminho foi marcado por centenas de lutas contra representantes de todos os estilos de artes marciais. Mas a luta contra o campeão de kickboxing Ralph Alegria, no começo dos anos 80, teve um significado especial: foi o primeiro vale-tudo transmitido ao vivo pela televisão americana. Ele havia passado muita vaselina no corpo para que eu não conseguisse agarrá-lo, mas, quando eu o derrubei, já caí montado. Dei-lhe dois socos, que o fizeram virar de costas. Mesmo com aquela vaselina toda, não houve como impedir o mata-leão. A luta durou 2 minutos.”

Rorion Gracie, 62 anos, é lutador de jiu-jítsu e filho mais velho de Hélio Gracie. Criou o UFC (Ultimate Fighting Championship) em 1993. É dono da Academia Gracie, na Califórnia

 

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