Caco Ciocler lança filme "Partida" e fala do papel da elite

por Carol Ito

O ator e diretor reflete sobre a polarização política e faz um balanço da iniciativa que criou para estimular que empresários doem 1% de seu lucro ao combate à pandemia

Em tempos tão polarizados, como seria colocar pessoas com posicionamentos políticos opostos dentro de um ônibus para fazer uma viagem de vários dias? Esse foi o experimento de Caco Ciocler como diretor do longa Partida, que estreia nesta quinta-feira (18) em plataformas de streaming. "A minha ideia era falar de política a partir das relações humanas dentro daquele ônibus, como uma forma de intermediar, de regrar essas relações. Acho que a gente se distanciou da política nesse sentido", conta ele. 

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No filme, que passeia entre o documentário e a ficção, uma trupe viaja em direção ao Uruguai, no final de 2018, com o objetivo de passar a virada do ano ao lado do ex-presidente Pepe Mujica, que costuma receber pessoas desconhecidas em sua chácara próxima a Montevidéu. A protagonista é a atriz Georgette Fadel, que se diz comunista e trabalha em torno da ideia de se candidatar à presidência do Brasil, em 2022. Entre os viajantes também estão outros atores, o próprio Caco, operadores de equipamentos de filmagem e Léo, o suposto antagonista, que na vida real é um empresário "de família rica e que provavelmente votou no Bolsonaro", define o diretor. 

“A gente precisa parar de falar de caridade e falar de justiça social”
Caco Ciocler, ator e diretor

Partida é o segundo documentário longa-metragem dirigido por Caco, que, atualmente, está no ar na reprise da novela Novo Mundo, da Globo, e na segunda temporada da série Unidade Básica, do canal Universal. O ator e diretor de 48 anos também é o nome por trás da Lista Fortes Brasil, iniciativa que criou no começo da pandemia para estimular que empresas doem 1% do lucro líquido para ações que buscam amenizar os efeitos da Covid-19. "Parte do empresariado se mobilizou bastante no início, embora eu sinta que, neste momento, a coisa deu uma esfriada. Eu lamento que isso tenha sido uma onda", avalia. 

No papo com a Trip, ele conta como foi o processo de criação de Partida, como está sendo viver em quarentena, fala sobre o papel da elite brasileira neste momento de crise e da urgência da utopia: "Quem vai projetar o mundo pós-pandêmico somos nós", diz.

Trip. Como rolou a ideia do filme Partida

Caco Ciocler. Essa lenda de que o Mujica morava num sítio e recebia as pessoas por lá sempre me povoou. Em 2018, ano de eleição, com o país dividido, aquela tensão desgraçada, eu estava ensaiando uma peça com a Georgette, que lançou a ideia de se candidatar à presidência em 2022, algo que parecia estar entre a ficção e a realidade. Na hora, eu juntei uma coisa com a outra e falei para ela: "vamos fazer essa viagem atrás do Mujica e filmar". Para isso, precisaríamos de alguém para fazer o som, a câmera, e outras pessoas mostraram interesse em participar. O filme foi sendo montado de acordo com essa equipe que foi se formando. Todas as negociações foram feitas por WhatsApp, foram quase mil horas de áudio e alguns deles estão no filme. A gente não sabia absolutamente nada do que iria acontecer, se ia dar certo, se ia virar um filme ou não. 

E como apareceu o empresário Léo, que, a princípio, é o personagem mais antagônico dessa equipe? A gente tinha um time legal, mas pensávamos meio parecido. Fiquei com medo de ficar uma coisa muito homogênea e comecei a sentir necessidade de uma voz destoante. Comecei a me perguntar: "Quem vai ser o maluco, mais de direita, a topar entrar num ônibus com uma comunista para encontrar o Mujica?". Um amigo meu sugeriu o Léo, que é um cara que eu não via há muito tempo, que fez teatro amador comigo quando eu era adolescente. É um empresário de família rica e que provavelmente votou no Bolsonaro. A minha ideia com o filme era falar de política a partir das relações humanas dentro daquele ônibus, como uma forma de intermediar, de regrar essas relações. Acho que a gente se distanciou da política nesse sentido.

Como o filme dialoga com o que estamos vivendo hoje? Agora, com a pandemia, veio essa noção de que, simbolicamente, estamos todos no mesmo ônibus, a gente precisa entrar em algum entendimento. No filme, não existe uma conciliação intelectual entre a Georgette e o Léo, mas ela consegue desenvolver uma ligação afetiva com ele e uma compreensão de que, mal ou bem, eles tinham um destino comum. Para mim, o resgate da importância da utopia é o assunto do filme. E não é só sobre projeção de utopias, mas também sobre lutar pela materialização delas. Quem vai projetar o mundo pós-pandêmico somos nós. 

Como falar de utopia em tempos tão tensos? A questão seria como não falar de utopia. Os mesmos cientistas que eram desacreditados quando alertavam que viveríamos uma pandemia são os que dizem que, se a gente não mudar nosso estilo de vida, a existência humana não vai mais ser viável daqui cem anos. Então, para onde vamos? Para onde quisermos, é puxar para a gente essa responsabilidade. Ainda que os motoristas do ônibus, no caso, os governos, sejam os que apertam o acelerador ou o freio, nós é que dizemos para onde vai o ônibus. 

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É comum ouvir que a elite nunca vai abrir mão de seus privilégios, mas você decidiu criar a Lista Fortes Brasil, em março, incentivando empresários a doarem parte do lucro líquido. Isso era uma utopia para você? Acho que a ordem da equação é outra. Não comecei pensando nas doações dos empresários, mas em como as pessoas iriam sobreviver, se sustentar com o isolamento. Comecei a publicar pequenos vídeos dando ideias de como garçons e cabeleireiros, por exemplo, poderiam se manter, num nível micro de ação. Daí veio a ideia da Lista Fortes Brasil, que, apesar de contar com o dinheiro de grandes empresas, divulga várias ações inteligentes e efetivas. A força da iniciativa está nisso, até porque as empresas que aceitaram doar o lucro líquido foram pouquíssimas. 

Dá para fazer um balanço sobre os resultados na Lista Fortes Brasil nesses últimos meses? Ela veio num momento em que não se falava ainda de empresas doando, foi precursora desse movimento. Foi uma onda que pegou. Parte do empresariado se mobilizou bastante no início, embora eu sinta que, neste momento, a coisa deu uma esfriada. Eu lamento que isso tenha sido uma onda.

E você pensa em seguir com a iniciativa mesmo depois da pandemia? A lista Fortes Brasil foi uma provocação no sentido de mostrar que o 1% do lucro líquido é resultado do trabalho do empresariado, sim, mas também dos trabalhadores e consumidores. É um conceito um pouco mais complexo, porque mexe numa questão fundamental que é o lucro. Acho que temos a obrigação de continuar com o trabalho nessa tentativa de criar uma lista de referência para o consumidor das empresas que optam por destinar parte de seu lucro para um causa. É uma luta grande, mas a gente continua lutando. 

“Então, para onde vamos? Para onde quisermos, é puxar para a gente essa responsabilidade”
Caco Ciocler, ator e diretor

Qual o papel da elite numa crise como a que estamos vivendo? Tem um grupo de empresários que já entendeu uma coisa óbvia, que é: estamos todos no mesmo ônibus. Se a gente não redistribuir a renda de maneira mais efetiva e justa, todos nós pagaremos esse preço. Palavras como "doação" e "caridade", que parecem estar ligadas à ideia de favor, vão entrar cada vez mais em desuso, e vão ser trocadas por palavras como "inteligência" e "responsabilidade". Acho que a gente precisa parar de falar de caridade e falar de justiça social. 

Como você lida com o estresse no confinamento? Eu também estava muito ligado nas notícias, depois recuei, depois voltei, fico alternando os momentos de hiperconexão. O tempo tá muito louco, os dias tão passando muito rápido. Achei que eu fosse ler muito, ouvir todos os discos que eu tenho em casa, mas não consegui fazer nada. Passo quase o dia todo arrumando a casa e, quando acabo o café, já tenho que pensar no almoço e depois na janta. Arrumar a casa também é uma arrumação íntima. Além disso, no primeiro momento da pandemia, eu fiquei cuidando muito da Lista Fortes Brasil, que tomou uma proporção maior do que eu imaginava, e entrei no primeiro semestre da faculdade de biologia. As aulas estavam rolando online e acabei de fechar o semestre. 

Era um sonho antigo cursar biologia? É um sonho que começou a nascer de uns tempos pra cá, junto com o interesse que sempre tive pelo reino animal, principalmente por insetos, e pelo reino vegetal. Eu cansei um pouco do métier artístico, no sentido de tentar entender o ser humano pelo viés da interpretação, e comecei a ter vontade de entender biologicamente. 

Créditos

Imagem principal: Pandora Filmes

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