Burning down the house
É punk, mas o CBGB, lendária casa noturna nova-iorquina, fechou suas portas. Trip se mandou para lá para ouvir os últimos acordes do lugar
Por Redação
em 9 de novembro de 2006
Por Thiago Lotufo, de Nova York Fotos Maya Hayuk
– Isso aqui é um funeral? – pergunta um repórter no meio da multidão de outros repórteres.
Vaia.
“Essa é uma pergunta muito imbecil”, fuzila Patti Smith.
Delírio.
Patti Smith está no palco, acompanhada de Lenny Kaye (guitarra), Jay Dee Daugherty (bateria) e Tony Shanahan (baixo). Dia 15 de outubro: último show do CBGB, lendária casa nova-iorquina do punk-rock, ícone de liberdade e criatividade da turma do faça você mesmo. Ou nas palavras de sua clientela: “um pequeno e imundo buraco escuro inundado de cerveja”.
Pois bem. A fila dos que querem entrar no número 315 da Bowery Street, no Lower East Side, dobra a esquina. Ingressos sold out há tempos. E o clubinho não comporta muito mais que 300 pessoas. São 32 anos e dez meses de história que ficam para trás depois do último acorde daquele domingo. Três horas e meia de show. Tudo porque o aluguel subiu mais que elevador em arranha-céu da big apple. Tudo por causa da especulação imobiliária, que transformou em lofts modernosos a antiga zona industrial abandonada, povoada por junkies e delinqüentes. Mas é verdade também que nos últimos dez anos apenas três ou quatro bons shows passaram por ali.
E a ironia: a carta de despejo foi entregue pela Bowery Residents Comitte (BRC), uma ONG que dá abrigo e assistência aos homeless. Sim. O CBGB começou e ficava embaixo de um albergue. A diferença é que, na década de 70, em meio a alcoólatras, drogados, deficientes físicos e mentalmente instáveis a quem o lugar oferecia teto havia também os veteranos da guerra do Vietnã.
Agora a pergunta pode muito bem ser: Quem vai olhar pelos CBGBless? “Os jovens vão encontrar seus próprios lugares”, afirma Patti Smith. “O CBGB é um estado de espírito. As pessoas e a energia coletiva é que fizeram este local.”
Pessoas que formavam grupos. Bandas de rock. Punk. Televison, Blondie, Talkin Heads, The Dictators, Dead Boys, Ramones, Iggy Pop e, claro, a própria Patti Smith, que pisou pela primeira vez o chão sujo dali em 1974. No ano seguinte, ela faria uma histórica temporada de sete semanas que lhe renderia um acordo com a Arista para gravar Horses, seu primeiro disco – durante um bom tempo, era comum atravessar as portas do CBGB anonimamente e sair com um contrato no bolso de trás da calça jeans surrada.
Calcula-se que mais de 30 mil bandas tocaram no palco da casa. Grosso modo. Três bandas por noite, 365 dias por ano por quase 33 anos. Isso sem considerar – como escreveu Lenny Kaye no jornal Village Voice – os grupos que simplesmente não apareciam para se apresentar porque brigavam na Van no meio do caminho. “O baterista abandonava o grupo porque o guitarrista havia espancado sua namorada ou eles estavam bêbados demais para encontrar a porra do lugar”, afirma Kaye.
O CB foi inaugurado em dezembro de 1973 como uma casa de shows para músicos de country, bluegrass e blues – daí as iniciais C, BG e B. Hilly Kristal, no entanto, dono do local, achou o nome tão insosso que resolveu adicionar as iniciais OMFUG – Other Music For Uplifting Gormandizer, algo como Outra Música para Glutões Edificantes (seja lá o que isso quer dizer). Entre os primeiros que tocaram ali figuravam nomes como The Com Fullum Band, Elly Greenberg e The Wretched Refuse String Band.
As coisas tomaram outro rumo em 1974, quando três rapazes ensebados apareceram na porta do CBGB e encontraram Hilly em cima de uma escada consertando o toldo da entrada. O trio – Tom Verlaine, Richard Hell e Richard Lloyd – formava uma banda chamada Television. Poucos dias depois lá estavam eles no palco. Aos domingos, por quase um mês, entrada a 1 dólar. “Eles eram horríveis, estridentes, uma confusão sonora de arrebentar os ouvidos”, recorda Hilly. “Disse que não os deixaria tocar mais no meu clube.” Nem uma dúzia de amigos apareceu para prestigiar os rapazes em início de carreira. Patti Smith foi. “Meu show favorito aqui foi o do Television, na Páscoa de 1974”, conta ela. “Apenas nove pessoas na platéia.” Burroughs, Ginsberg e Andy Warhol, por exemplo, costumavam aparecer por lá ao longo dos anos.

O agente do trio, porém, propôs a Hilly um show duplo: Television com uns garotos do Queens chamados Ramones que, garantia o agente, representavam uma enorme cena emergente. Outro fracasso. Os 20 minutos (eles só sabiam tocar oito músicas) de apresentação dos Ramones conseguiram ser ainda pior que os primeiros shows do Televison. “Eles eram a banda mais desencontrada que eu já havia escutado. Tocavam e paravam, o equipamento quebrava e durante o show brigavam um com o outro”, diz o proprietário. Curiosamente, os dois grupos acabaram tocando mais de 100 vezes cada um ao longo da história do clube.
Com o despejo, Hilly, 74 anos, planeja levar o CBGB para Las Vegas. Não há nada acertado ainda, mas a idéia é transportar tudo que ele puder da área de cerca de 50 metros de comprimento por 8 metros de largura do original: palco, luzes, neons, piso, bar, mesa de som e até o banheiro podreira – marca registrada do lugar. Difícil vai ser arrancar das paredes as camadas e mais camadas de cartazes e pichações, as crostas de sujeira e o cheiro fétido de cerveja acumulada por três décadas. Difícil também vai ser imprimir a aura do CBGB para onde quer que ele vá. Em Nova York (provavelmente na Broadway), deve ficar apenas a lojinha que vende as turísticas camisetas com a lendária sigla estampada.
– Por que não transportar o CBGB para São Paulo, Hilly? – pergunta a reportagem da Trip. “É, nunca estive no Brasil, mas amigos me disseram que São Paulo é o lugar. O único problema são as novelas, que as pessoas ficam assistindo e deixam de ir ao seu clube”, respondeu ele. Oh, well.
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