Bem-vindo ao 1o. condomínio GLS do Brasil

por Kátia Lessa
Trip #173

Conheça o Aldeia Saint Sebastien, um empreendimento pioneiro que levanta polêmica e um lugar de pura diversidade

Na cidade que ficou famosa por abrigar a maior comunidade hippie do país nos anos 60, um empreendimento pioneiro levanta polêmica. Conheça o aldeia Sebastien, um lugar de pura diversidade

O folheto de venda escancara: “Conheça o metro quadrado menos quadrado da Bahia. Um condomínio para você aproveitar a vida com mais liberdade”. A imagem logo ao lado da frase é a de uma garota – corpo bronzeado e em forma – que ostenta tatuado na barriga o desenho de uma bela morena com os dizeres: “Meu amor”. Para quem preferir, há também uma segunda opção de panfleto, a masculina, na qual um homem sarado, bronzeado e vestindo sunga exibe, marcado na pele, o rosto de seu companheiro e a mesma declaração. O site do empreendimento, que já contabiliza mais de 500 mil acessos em menos de seis meses, exibe a mesma linha de comunicação. E embora não exista nenhuma chamada explícita ao público GLS, como a bandeira colorida do orgulho gay, a mensagem estava clara, com a devida bênção afrancesada de São Sebastião – santo adotado como protetor dos homossexuais. Malas prontas, fomos conferir de perto o condomínio Aldeia Saint Sebastien.

AQUI TEM CASAL GAY, CASAL DE LÉSBICA E HÉTERO COM FILHOS. TODO MUNDO SE RESPEITA E CONVIVE BEM

O endereço foi escolhido a dedo. Arembepe, que fica a 30 min de Salvador, ficou famosa no fim dos anos 60 quando virou cenário para a primeira aldeia hippie do Brasil. Por lá, no auge do desbunde “paz, amor, sexo, drogas e rock’n’roll”, passaram Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Baby do Brasil e até Janis Joplin. O local continua bem preservado, mas pouco sobrou daquele tempo. As cabanas ainda existem, porém hoje a aldeia está mais para uma pequena feira de artesanato, com vendedores ávidos por trocados, do que qualquer outra coisa. Os violões estacionaram em Raul Seixas, e Janis virou nome de camping turístico. Mesmo assim, a cidade mantém o espírito e a fama de “cabeça aberta”, que tolera a diversidade cultural e sexual, um filão do mercado imobiliário brasileiro que, antes do Saint Sebastien, nunca havia sido explorado. Em Sorocaba, interior de São Paulo, houve uma tentativa de criar um condomínio voltado a esse público, mas a idéia nem saiu do papel. Procurada pela reportagem, a Agra Loteadora apenas respondeu que esse espaço será reposicionado no mercado. Nos Estados Unidos, esse tipo de negócio movimenta a bagatela de US$ 10 bilhões.

MERCADO ATRAENTE
O diretor da Plena Empreendimentos, construtora do Saint Sebastien, Mario Piva, 55 anos, e a dona da imobiliária que leva seu nome, Josinha Pacheco, tem o discurso afinado: “Viajamos muito, freqüentamos feiras fora do país e notamos que essa era uma tendência mundial no mercado de construção. Um condomínio para pessoas que gostam de liberdade”, diz ele. “A ilha de Mykonos, na Grécia, o bairro Le Marais, em Paris, o bairro Greenwich Village, em Nova York, e cidades como Sites, a 30 km de Barcelona, serviram de inspiração. Nesta última, o metro quadrado é 30% mais caro do que a média do mercado, por ser voltado a consumidores liberais. É um público muito exigente, culto e de alto poder aquisitivo”, completa a empresária, que já começa a dar consultoria sobre o assunto. Josinha foi responsável por diversos projetos inovadores na Bahia. Abocanhou o mercado de alto luxo, foi a primeira a apostar em residenciais voltados à terceira idade, lofts e os famosos prédios com teleféricos na orla de Salvador. “Fiz muitos trabalhos dos quais me orgulho, mas esse foi especial. Sou uma simpatizante da causa e fico emocionada de poder oferecer aos consumidores um local que celebra o amor. E amor pode ser entre ele e ele , ele e ela e ela e ela”, dispara orgulhosa.

DISCRETO CHARME
A rua onde fica a entrada do condomínio ainda é de terra e o portão cheira a tinta. São 68 apartamentos ocupando os 9.000 m2 de terreno entregues em outubro. A maioria dos proprietários ainda nem estreou a piscina ou o ofurô. Os apartamentos, de um, dois ou três dormitórios, são pequenos, planejados para um casal sem filhos, mas a vista para o mar, bem diante de uma barreira de corais que forma uma piscina natural, deixa os aposentos maiores e faz o preço, que gira entre R$ 100 mil e R$ 200 mil, parecer justo. No gramado impecável em frente a um dos apartamentos, encontramos Claudio Teixeira, 46 anos, síndico e único morador do pequeno paraíso baiano. Homossexual assumido, mora com o parceiro no Saint Sebastien há um mês. “A maioria das pessoas que compraram casa aqui usa como um espaço de veraneio. Mas a cidade é tão próxima de Salvador, que preferi viver em meio à natureza, acordar com o barulho de mar. Não teve a ver com o fato de o local ter sido focado no público GLS”, explica. Nada ali dentro difere de qualquer outro condomínio de praia. “Ele foi pensado para atender pessoas de bom gosto, que gostam de tranqüilidade, natureza e ambiente agradável. No lugar de parquinho para crianças, temos um espaço para hometheater e uma sala gourmet. As diferenças acabam aí”, conta Marisa Moutinho, 41 anos, corretora da Josinha Pacheco. “São pouquíssimas as pessoas que nos procuram unicamente pelo fato de o local ter esse posicionamento. Atendi apenas uma mulher, que fez mil perguntas, mil rodeios, e quando eu confirmei o fato de o lugar ser aberto ao público GLS ela gritava de felicidade do outro lado da linha”, continua Marisa. “Ao contrário do que possa parecer, aqui você nunca vai ver dois homens ou duas mulheres se agarrando na piscina. Tenho minha parceira, mas fazemos questão de um comportamento discreto. E acho que os outros moradores também”, conta Paula da Silva (nome falso), 50 anos, advogada. Mas as piadas divertidas são inevitáveis. “Quando contei que havia comprado um apartamento nesse village em Arembepe, o pessoal do escritório começou a brincar que ia ser a gaiola das loucas! Acredita?”, completa Paula entre gargalhadas.

AQUI VOCÊ NUNCA VAI VER DOIS HOMENS OU DUAS MULHERES SE AGARRANDO NA PISCINA

A visita corria tranqüilamente, sob o sol nervoso, quando por causa de uma dica debochada de um dos residentes – heterossexual – resolvemos conhecer o apartamento decorado. “Entra lá! Vai ver nosso negão bonito abraçado com o namorado!”, brincava de dentro da piscina. O ambiente, clean e aconchegante, ostentava a imagem de um casal de homens estampada na porta que dividia o quarto e a sala. No porta-retratos da mesa de centro, uma fotografia romântica, de namorados ao pôr-do-sol. “Acha que alguém liga pra isso aí? Liga nada. O povo quer é a vida boa da praia. Aqui tem casal gay, casal de lésbica e hétero com filhos. Todo mundo se respeita e convive bem”, continua enquanto degusta um queijo temperado feito pela namorada e uma “rósca”, como chamam a caipirinha de vodca.

PAZ E AMOR
Brincadeiras à parte, o assunto levanta uma questão delicada, que, segundo Josinha, foi tratada com extremo cuidado. “Não queria de forma alguma que o Saint Sebastien virasse um gueto. 20% de nossos clientes são gringos, a maioria espanhola, e 50% dos compradores são heterossexuais simpatizantes. Claro que ainda existe preconceito, mas isso mostra que as pessoas são muito mais tolerantes do que imaginávamos. Mesmo não estando 100% vendido, é um negócio vitorioso”, conta. “No início de nosso planejamento, fiz questão de consultar o GGB [Grupo Gay da Bahia], e eles nos deram total apoio para realizar o empreendimento.” “Esse condomínio é um lugar para pessoas livres de preconceito. Por enquanto, está tudo muito respeitoso, pessoas lindas. O dia que virar bagunça eu vendo e pronto. Tenho certeza de que como negócio foi um bom investimento. Mas é claro que nem tudo são flores... Já ouvi amigos comentarem que preferem não freqüentar o condomínio por terem medo de que seus filhos pequenos vejam dois homens se beijando”, revela Maria Úrsula de Araújo, casada.

“Comprei o apartamento na planta, e o fato de ser gay e de o local ser simpatizante do movimento foi um atrativo, mas foi também o último quesito que me levou a fechar o negócio. O que me conquistou foi o projeto e a localização. Arembepe é um lugar completamente diferente dos outros, onde posso andar de mãos dadas com meu parceiro. Me sinto muito confortável na cidade, dentro ou fora do condomínio”, conclui o funcionário público Geniberto Araújo. E, como disse o hippie sentado na praça, em plena madrugada, entre uma cachaça e outra: “Não tem nada não, dona... O mundo é isso aí mesmo. Essa história de gay e não-gay já é coisa velha. Aqui em Arembepe é tudo paz e amor...”.

Agradecimentos: Hotel Vivendas do Coqueiral – Arembepe-BA www.vivendasdocoqueiral.com.br

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