por Décio Galina
Trip #151

Em Belém do Pará, ao lado da maior festa católica do planeta, o Círio de Nazaré, rola também a maior balada gay do norte do país: as Filhas da Chiquita

– Encaixa, Paulista, encaixa! Não deixa o ombro escapar do ombro da frente!

Teoricamente a procissão nem começou – e já não agüento mais.

– Se passar mal, encosta a cabeça no ombro da frente, respira fundo, que o corpo vai sozinho!

Há tempos que já não tenho controle de boa parte dos meus membros. Sou peça de uma engrenagem compacta, encharcada de suor, pata de uma centopéia furiosa, roda de uma locomotiva humana. Todos gritam ao redor. Grunhem esmagados. E ninguém desgruda da corda.

– Segura firme! Não fica longe dela... Encaixa, Paulista, encaixa!

Acostumado a multidões e tumultos em geral, começo a estranhar o quão sufocado me sinto. As costelas vão estourar como uma caixa de isopor, é só uma questão de tempo. A mulher que agarra a corda do outro lado dá sinais de que vai apagar a qualquer momento.

– Calma, minha senhora, calma...

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Não adianta. Apagou.

– Maca! Maca!

Em poucos segundos, pinga do céu uma maca e, te juro por Deus que não sei como, a desfalecida se ejeta da massa e deita no pano verde como se estivesse tudo ensaiado. Um show de fé.

– Vi-va! Vi-va! Vi-va! Viva Nossa Senhora de Nazaré!

7h30 da manhã, bulevar Castilhos França, Belém. Aos trancos e barrancos, a corda que trespassa a procissão do Círio de Nazaré chicoteia em câmera lenta e arrasta o povo fiel. São mais de 2 milhões de pessoas – e só 7 mil agarram na corda. Berros, choro, o peito prestes a explodir, as pernas automáticas, cenas em close-up, caras de dor, de esforço extremo, todos os pés descalços, todos nos mesmo passo, tudo cozinhando sob o sol paraense. A cabeça em ebulição. As idéias confusas. Por que não largo da corda agora mesmo e chega logo desse sofrimento?

– Pu-xa! Pu-xa! Pu-xa! Agora embalou! Vamos lá, pessoal, puxa, pu-xa, pu-xa! Um, dois, três, caminha! Um, dois, três, caminha!

As ordens e palavras de incentivo jorram do megafone empunhado pelo professor de matemática Alberto Miranda, que faz 45 anos justo no segundo domingo de outubro, dia 8, ápice do Círio, a maior procissão católica do planeta. Alberto é do time de centenas  de organizadores da festa que tentam domar a corda. Ela tem 350 metros de comprimento, pesa cerca de 700 quilos, é feita de sisal torcido e está atrelada à berlinda que protege a imagem de 28 centímetros de Nossa Senhora de Nazaré. O primeiro Círio aconteceu há mais de 200 anos, em 1793. A corda, no entanto, se incorpora à celebração por acaso em 1855: os bois que levavam a santa atolaram num lamaçal e só foram resgatados depois que a direção da festa providenciou, às pressas, uma grande corda.

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Hoje, é na bendita que os fiéis pagam suas promessas e ficam quites com a santa. Em 2006, os cinco quilômetros de procissão entre a Catedral de Belém e a Basílica de Nazaré foram vencidos em sete horas – deu tudo certo. Ao final do martírio, os fiéis sacam facas da cintura e dilaceram a corda – os pedaços são disputados

fervorosamente pela turba. Cena parecida só mesmo na arquibancada de estádios, quando o craque joga a camiseta e é um deus-nos-acuda entre os torcedores para ver quem fica com o trapo suado. Uma das principais catarses da nação, o Círio de Nazaré é um dos capítulos do 1000 Lugares para Conhecer antes de Morrer , de Patricia Schultz. No Blue List – 618 Things to Do & Places to Go 06-07, da Lonely Planet, o Círio aparece em terceiro lugar na lista de cinco tópicos do capítulo “Festivals & Events” do Brasil – atrás apenas de outros dois programas emblemáticos: Carnaval e assistir a uma partida de futebol.

O SILÊNCIO DE STEFANI

Peregrino de primeira viagem, imbuído do ideal de agarrar a corda e segurar o quanto pudesse, dei as caras no bulevar Castilhos França – a rua do Mercado Ver-o-Peso – às 3h da madrugada. Saí descalço do hotel Regente e achei melhor ir a pé para as solas se acostumarem ao esfolamento marcado dali a poucas horas.

Até a porta de vidro do hotel se abrir automaticamente tudo ia bem – com seis ou sete passos na calçada, porém, meu pé já foi perfurado por sei lá o quê. É expressamente proibido pegar na corda – ou até tentar pegar nela – de tênis, sapato, sandália, o que for: policiais que escoltam o cortejo fazem a inspeção. Antes

mesmo de o ícone ser desenrolado no local de partida, os pagadores de promessa já se deitam no asfalto, lado a lado, marcando posição para se pendurarem na corda logo de saída.

– Paulista, o importante é você se encaixar sempre no meio de duas pessoas do seu tamanho. Porque se tiver alguém muito mais baixo, na frente ou atrás, a cabeça fica esmagando a barriga ou o meio das costas.

Achei o conselho exagerado, até sentir na pele, horas mais tarde, a dor provocada por uma senhora baixinha perfurando minha coluna com o queixo... Estou cercado por uma turma experiente no evento: todos têm pelos menos seis Círios no currículo e dão risada quando digo que sou estreante. Pagam promessas por diferentes graças alcançadas: o irmão que tem problema na perna, mas conseguiu entrar na Aeronáutica; os pais que brigavam muito e agora são felizes vivendo um longe do outro; ou simplesmente uma dor lombar que sarou de repente, inexplicavelmente. Verdadeiros milagres.

Estirado no meio da rua, hipnotizado pelo ronco do vizinho e pelo passeio da lua cheia no céu, recordo a manhã do dia anterior, sábado, quando acompanhei a romaria fluvial: a santa navega de Icoaraci ao cais do porto de Belém pelas águas da baía do Guajará. Peguei carona no barco de pesca Pescara I, que acabara de desembarcar 15 toneladas de peixe no Mercado Ver-o-Peso depois de 20 dias de trabalho na boca do Amazonas. Feito o serviço, a embarcação sob o comando do paraense Carlos Alberto

Cardoso Figueredo, de 39 anos, cai na rede de centenas de barcos e navios que recepcionam a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré na orla de Belém. A tripulação mescla longos silêncios com a queima de rojões e algumas saudações à santa. A cicatriz no ombro esquerdo de Maria do Carmo Freitas, de 30 anos, mulher do pescador Benedito Cardoso, esconde uma noite trágica fincada para sempre na memória.

– Já faz uns três anos que seis bandidos entraram atirando no barco. Eu estava na rede, levantei a cabeça para ver o que acontecia e uma bala me acertou em cheio no ombro, quase pega o coração. Minha avó e minha tia também foram atingidas. Eles desmontaram peça por peça do motor e fugiram. Lembro da minha filha me vendo toda ensangüentada, pedindo por socorro. Fiquei apavorada. Não morri porque Deus não deixou. Stefani, a filha, hoje com sete anos, ouve toda a história e não abre a boca. Parece congelada pelo horror da lembrança. Maria do Carmo tem fé no futuro.

– Stefani gosta de barco... Vai seguir o Círio para o resto da vida.

BALADA DE FÉ

O sábado que começou no rio terminou no mar de velas da Trasladação – procissão que antecede o Círio e que leva a imagem do colégio Gentil Bittencourt até a Sé. A Trasladação também tem corda atrelada à berlinda, mas, por acontecer à noite e ter menos gente, é considerada bem mais sossegada que a do Círio, no domingo. É uma corda freqüentada por jovens que agradecem o ingresso na faculdade ou o sucesso num concurso. Milagres light. Balada forte. Balada de fé.

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– Fui pisoteada, pensei que não iria agüentar, mas consegui ficar uns cinco minutos na corda. Preciso ficar muito mais. Preciso. Michelle Matos, estudante de 19 anos, chora com as mãos no rosto e anda trôpega. A amiga Claudete Chacon, de 20 anos, também se debulha em lágrimas.

– Está fora de cogitação explicar o que é pegar na corda.

Ao término da Trasladação, a praça da República troca de fantasia: saem de cena o terço, a vela e a oração e surgem perucas coloridas, beijos calorosos, música eletrônica misturada com carimbó – e, que nos perdoe Tim Maia, aqui vale tudo, inclusive dançar homem com homem. O clima do pedaço vira de pontacabeça e, subitamente, se celebra a maior farra. É a festa das Filhas da Chiquita, coordenada pelo artista multimídia paraense Eloi Iglesias – balbúrdia profana e bem-humorada que distribui prêmios como o Viado de Ouro, o Viado Tombado, a Rainha do Círio e os Amigos da Chiquita a personalidades de Belém. O nome Filhas da Chiquita vem de um bloco gay de Carnaval da cidade. O auê em plena programação religiosa está na 28ª edição e este ano aglomerou 45 mil pessoas só na região em frente ao palco, na praça de República.

– Tem bicha que faz a Trasladação, volta pra casa, se monta, vem pra Filhas da Chiquita e ainda tem disposição para o Círio. É muita energia.

Eloi faz questão de sublinhar que a festa só começa quando a santa já passou pela avenida Presidente Vargas.

– Não é porque somos rejeitados pela Igreja que vamos desrespeitar a Trasladação e o Círio. Nossa festa contesta qualquer tipo de discriminação.

A idéia de Eloi surte efeitos práticos, como se nota em rápida conversa com o estudante Vitório, de 21 anos.

– Depois que a Chiquita começou a crescer, o preconceito contra homossexuais em Belém diminuiu bastante.

É uma pena, mas naquele momento não podia circular muito pelas histórias e personagens incríveis da Chiquita. A corda me aguardava. Tinha que chegar o quanto antes no bulevar Castilhos França para reservar meu espaço no asfalto.

BÊBADA DE GENTE

O retrospecto que faço das minhas últimas horas (romaria fluvial, Trasladação e Filhas da Chiquita) consome os momentos de repouso antes do pega-pra-capar do Círio e sua famosa e contundente corda. O asfalto começa a se tornar confortável quando pipocam os primeiros boatos da chegada da corda. Pronto. Acaba o sossego. Então, ela finalmente aparece e aí o samba é pra valer. De cara, percebe-se que a corda tem vida própria, cambaleia bêbada de gente, mais parece um cabo-de-guerra. O professor Alberto Miranda, aos brados no megafone, comanda centenas de fiéis como se fossem remadores numa galé.

– Não deixa a corda voltar! Quem estiver cansado, sai e passa o lugar para o companheiro!

Decido ficar. Não vou largar. Reparo que não sou só eu a gemer de desespero. O pior está por vir. O ponto mais crítico do Círio é quando a procissão deixa o bulevar Castilhos França e vira à direita, subindo a leve ladeira no início da avenida Presidente Vargas, manchada pelas sombras densas das mangueiras. Desgovernada, a corda muitas vezes desce, pressionando a massa humana de forma avassaladora. Aumentam os berros de suplício. Repetem-se os gritos de “maca!”. A multidão recebe orientação de levantar a corda, como se sustentasse uma tora para arrombar um portão. Urrando como bárbaros, os fiéis revertem a situação e a corda passa a andar para a frente de novo. É coisa de chorar de emoção. Resisto por um período indeterminado, talvez meia hora, um pouco mais, quem sabe. A cada segundo, estendo meu limite ao inimaginável. Quase morto, me desconecto da corda. O corpo escapole rapidamente, cuspido pela engrenagem implacável.

Saio tonto, assombrado. Que loucura é essa? Procuro água, ar, descanso, norte. A recuperação deve ser rápida. Vou voltar para a corda de qualquer jeito. Preciso.

Juntos chegaremos lá

Conheça as maiores aglomerações humanas reunidas em torno de um ideal religioso:

Kumbh Mela (Allahabad e Uttar Pradesh, Índia)

Reuniu 70 milhões de pessoas em 2001, num período de 43 dias – chegando a contabilizar 30 milhões num único dia de evento

Muro das Lamentações (Jerusalém, Israel)

5 milhões de judeus por ano 

Caminho da Fé (Santiago de Compostela, Espanha)

4 milhões por ano 

Santuário de Fátima (Fátima, Portugal)

4 milhões todos os anos 

Marcha para Jesus (São Paulo, Brasil)

Promovido pela Igreja Renascer em Cristo, o encontro reuniu 3 milhões de evangélicos em 2006 

Hajj, (Meca, Arábia Saudita)

A maior peregrinação para os muçulmanos, reuniu 2,6 milhões em 2006

Romaria Padre Cícero (Juazeiro do Norte, CE - Brasil)

Procissão reuniu 500 mil pessoas em 2005 (Globo) ou 1,4 milhão (USP)

Santuário de Santa Paulina (Nova Trento, SC - Brasil)

960 mil pessoas por ano

Basílica de Aparecida (Aparecida do Norte, SP - Brasil)

O Dia da Padroeira reuniu 160 mil pessoas (2006)

(Filipe Marcel)

Créditos

Agradecimentos: Hotel Regente (91) 3181-5003 www.hotelregente.com.br / Diretoria da Festa de Nazaré (91) 3222-4470

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