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BEIJOS NO MARACANÃ

Zoológico humano é o espetáculo do jogo de futebol

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Até domingo, a mais completa imagem do Maracanã gravada em meu hard disk vinha dos tempos do saudoso cinema velho do Guarujá. Era lá que, sentado em poltronas de curvin úmidas de maresia, assistia vidrado às imagens do excelente Canal 100, com locução de Cid Moreira. Acho que foi este cinejornal que inventou a câmera que corria junto do campo, captando as jogadas em película de cinema, exibidas em slow motion ao som de ‘… que bonito é, a torcida delirando…’.

Domingão, meio sem querer, debaixo daquela chuva mais chata e persistente que Luxemburgo em seus piores dias, aproveitei a preguiça que se abateu sobre os cariocas e, cheio de coragem, fui ao Maraca. A primeira surpresa foi o trânsito.

Certamente, graças à chuva que espantou a galera e talvez em parte devido ao tamanho reduzido do futebol de nossa seleção e de seu adversário, chegar ao estádio foi tão rápido quanto fácil.

A segunda surpresa foi o tamanho do estádio Mário Filho. Provavelmente por causa do ângulo das câmeras do Canal 100, sempre apontadas de baixo para cima, imaginava uma construção muito mais imponente. O estádio me impressionou muito mais pela história incrustada nas cores, nos materiais e na arquitetura do que propriamente pelo tamanho. Me pareceu, inclusive, acolhedor. Tem uma enorme vantagem sobre os estádios paulistanos: é muito fácil entrar e sair, chega-se rápido às cadeiras, há elevadores e escadas. O fluxo corre bem.

Nas cadeiras e arquibancadas, fica difícil prestar atenção no campo. É que o zoológico humano, que já faz o espetáculo em qualquer jogo de futebol que se preza, é elevado à décima potência. Zeladores, borracheiros, traficantes, engenheiros civis, marreteiros, enfermeiros, mecânicos, ladrões, Guga (o tenista), atores da Globo, todos freneticamente beijados pelo não menos inacreditável Beijoqueiro, envergando uma camiseta preta com a propaganda de Agnaldo Timóteo para vereador.

As frases ouvidas aos fragmentos são de uma riqueza que faz compreender de onde vinha boa parte da inspiração de Nelson Rodrigues. Teses completas sobre o ângulo de descida de uma bola chutada em parábola, palavrões mais cabeludos que Marcelo D2 em seus bons tempos sem pente, alternados com as mais ingênuas interjeições do tipo ‘vai, perna de pau…’.

O que mais me chamou a atenção foi, aliás, a excepcionalmente volúvel torcida brasileira. A uma certa altura, por exemplo, o estádio inteiro clamava pela entrada de Athirson, que, à beira do campo aguardando a vez, acenava para a galera na condição de ídolo supremo. Uma vez dentro do campo, uma furada na grande área foi suficiente para que o coral de 30 mil vozes mudasse a partitura para ‘… Athirson, viado…’. Sobre futebol? Não vi nada que valesse a pena relatar.

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