Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Caro Paulo,
Você teve tempo de dar uma olhada no Tupã Tenondé: A Criação do Universo, da Terra e do Homem Segundo a Tradição Oral Guarani? Leia. Só em contato com a beleza desse texto vai entender por que ando tão excitado com as recentes descobertas sobre minha ancestralidade.
Sim, vivi 53 anos me sabendo bisneto de índio sem nunca ter me preocupado em saber de que nação indígena vinha. Sim, sou bisneto de Chiquinha, indiazinha linda por quem Ismael Herrberg se apaixonou, em Laguna (SC), fim do séc. XIX. Só agora, depois de conhecer a riqueza da tradição guarani, é que me perguntei: será que pertenço a tudo isso? Será que minha história pessoal tem origem tão linda e profunda?
Até então, nossa família só se preocupou com a ancestralidade européia, que, por melhor que fosse, só me dizia que eu era imigrante. Nunca me interessei por meu lado índio pois não tinha nenhuma expectativa de achar algo de que pudesse me orgulhar. Além do quê, índio legal era o americano. Até tenho apoiado movimentos de proteção aos nossos índios, porque acho que isso é justo com ELES. Nunca -repito sem medo de ser julgado ignorante e preconceituoso -, nunca tive expectativa de me orgulhar de ser bisneto de índio. Para mim, esse fato era, no máximo, exótico e divertido pour épater les bourgeoises.
Guima quer apito
Depois que tropecei nesse livro, procurei saber de onde vinha Vó Chiquinha. E me descobri um guarani. Não sou apenas índio. SOU UM GUARANI! Nessa hora, me dei conta de quanto é preconceituoso, empobrecedor e ignorante este denominativo genérico ‘índio’ – assim como ‘branco’ ou ‘negro’. Descobrir que sou um guarani, talvez da tribo kaiowá ou mbyá, está sendo transformador. Como se de repente o sol nascesse do lado oposto ao que sempre nasceu e mostrasse um lugar, uma gente, uma história no escuro. Ou, como dizem em tupã tenondé, ‘jasy ra’y ojavahéi hina’ (‘a lua nova renova a nossa face’).
Paulo, ainda não falo do Brasil nem da questão histórica ou antropológica do povo brasileiro. Falo de mim, um cara que fez te-rapia a vida inteira, um fuçador de caminhos de autoconhecimento do mais tradicional ao mais experimental, um comprometido com questões sociais; e nunca nem terapeuta nem guru ou mestre ou líder me deram o toque de que havia uma história abandonada e desprezada que podia ter ajudado a me dizer quem eu sou para eu poder cumprir meu destino com mais competência e satisfação.
Tradição não é folclore
Registre isso: existe um ser brasileiro com uma tradição que não deve nada a nenhuma outra grande tradição do Ocidente ou do Oriente. Leia o Tupã Tenondé para você não achar que eu enlouqueci.
Agora sim, falando do Brasil: se eu, com a vida privilegiada e bem informada que tenho, cochilei desse jeito em relação à minha identidade e auto-estima, imagine a chance que o povo tem de se orgulhar de sua origem? Fica aí a sugestão: a tradição da nossa cultura indígena. Você acha que alguém vai confundir tradição com folclore e artesanato? Acho que não. Todos sabem que tradição se refere a conhecimento, significado e propósito da aventura humana, aspectos que a truculência e a ganância dos invasores não permitiram que fossem valorizados na cultura indígena local da época.
Sei pouco sobre a recuperação dessa tradição. Mas vejo dois índios, Kaká Werá e Daniel Munduruku, com uma produção muito fértil. De repente, vale umas Páginas Negras com eles. Seria um jeito de dizer publicamente o quanto sou grato por seu trabalho.
Receba o abraço do nativo local,
Ricardo.
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