Aventura revista
Conversando com o presidente de uma das grandes companhias estrangeiras de automóveis instaladas no País, descobri que sua carreira decolou numa banca/livraria do aeroporto
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Bancas e livrarias são templos.
Dia desses, mencionei por aqui, entre os maiores prazeres que a cidade oferece, uma ‘geral’ na Livraria Cultura. Tenho de fazer justiça às ‘bancas/livrarias’ dos aeroportos. Hoje, na verdade, elas abriram suas asas sobre outros pontos da cidade, mas há poucas tão interessantes como a LaSelva. Quem passa pelo saguão maior do ainda delicioso (apesar do megamovimento) Congonhas sente a força do ímã irresistível e colorido do estabelecimento. As lojas dos aeroportos não se conformam em ser fast-foods da leitura. Ainda é possível encontrar em suas prateleiras obras de literatura não-descartável, peças grandes e pesadas que não cabem em bagagens de mão etc. Mas é claro que o foco principal recai sobre as obras que podem ser devoradas em prazo curto, seja em minutos na fila de embarque, ou naquela semana em que vai se conseguir um mínimo de desligamento da rotina e a companhia de um livro será um luxo novamente permitido. De coletâneas de crônicas curtas de Saramago aos conselhos de Lair Ribeiro para vencer o vestibular, passando pelas dezenas de pequenos volumes com os ensinamentos do recém ‘hypado’ Dalai Lama, há acepipes para todos os talheres.
Dia desses, conversando com o presidente de uma das grandes companhias estrangeiras de automóveis instaladas no País, descobri que sua carreira decolou no aeroporto. Não num Electra, mas na velha e boa LaSelva. Nos anos 70, aquela livraria e revistaria era o que tínhamos de mais próximo da Internet. Pelas revistas e livros que chegavam via aérea, tinha-se ao alcance dos braços a boa informação sobre assuntos nos quais ainda engatinhávamos àquela altura. O hoje executivo era então um esforçadíssimo projetista e construtor semi-amador de automóveis, e, com muito custo, havia concluído com sucesso a produção de meia dúzia de modelos em fibra de vidro, a partir de chassis de carros ‘made in Brazil’. Eram, se podemos chamar assim, os avós das ‘Vans’, ‘SUVs’ e ‘Station wagons’, que hoje rodam livres e dominam estradas, ruas e mercados em gamas intermináveis de modelos.
Carta branca
Na época, com as importações travadas pela política supostamente protecionista dos governos autoritários, as alternativas eram sonhar vendo fotos nas revistas ou mergulhar em aventuras com tornos, maçaricos e baldes de resina e fibra de vidro. Assim, aliás, nasceram peças incríveis da indústria automobilística nacional. Puma (normal e GT), Uirapuru, Gurgel, a perua Maverick, o minicarro Dacon, as caminhonetes e Vans SR são apenas alguns exemplos da paixão e da inventividade brasileira que fizeram história e até hoje juntam fãs em clubes e associações que veneram essas pequenas relíquias.
Vendo que suas possibilidades de crescimento no Brasil haviam ‘batido no teto’, meu interlocutor resolveu encher-se de coragem. Foi até a LaSelva do aeroporto com papel e caneta. Anotou, apoiado na prateleira, os endereços de três das maiores companhias mundiais de automóveis. Voltou para casa e pôs-se a escrever cartas para cada uma delas. Grampeou no alto da primeira página datilografada em inglês caprichado fotos dos carros que produzira, descrevendo os limitadíssimos recursos de que dispunha para fazê-los.
Muito antes de sonharmos com os ‘start-ups’, ‘business plans’ e ‘seed moneys’ da ‘nova economia’, nosso personagem recebeu pelo correio respostas de duas companhias, extremamente motivadas por sua experiência brasileira.
Fechou contrato com uma delas e hoje, um punhado de anos depois, não só importa, mas especialmente fabrica automóveis no Brasil, girando quantidade de empregos e números que nem o mais crédulo vendedor de livros de ficção da LaSelva seria capaz de projetar ao ver o garotão que anotava endereços apoiado na prateleira.
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