Auto-análise
Quem sou eu? O tempo me risca de rugas, pintando a alma de uma cor levemente acinzentada
em 5 de janeiro de 2010
EU
Quem sou eu, afinal de contas? O tempo me risca de rugas, pintando a alma de uma cor levemente acinzentada. Quase prata. De dentro dos meus cinqüenta anos observo-me e me espanto com a calma com que me encaro.
Sou a somatória de todos os meus momentos bons e ruins. Andares sobrepostos de mim mesmo. Não pense que somente agredi ou promovi violências. Sim, eu as cometi. E me envergonho disso. Profundamente. Não justifico ou racionalizo. A vida, apesar de todos os meus erros, fluiu. Eu estava vivo, cheio de possibilidades. Precisei viver, mesmo preso e condenado. Procurei alargar o espaço que eu mesmo estreitei, da melhor maneira que entendia.
Muitas vezes me senti sem esperanças ou chances. Eu já era, parecia. Mas não. Ainda estava vivo. Cada vez mais vivo, à medida em que fui aprendendo. Naturalmente, fui realizando uma releitura do mundo. Os livros sempre me salvaram, até de mim mesmo. Amei e na curva do rosto da mulher amada, aprendi valores antigos e calmos, como a virada da noite ao morrer no dia.
Esforcei-me pôr aproveitar meu tempo. Li e estudei o quanto pude. Escapei do destino cruel que dormia ao longo de meus passos. Construí um sonho e esforcei-me por realizá-lo.
Das ilusões da realidade, construí a realidade de uma ilusão. Muitas vezes minha espada se fez pesada sob meus braços cansados. A consciência mordia como cão raivoso. Mas meu sonho era tão grande que se alongava para além das grades e muralhas. Engoli sombras para produzir luzes.
Nada tenho a dizer contra a vida que tive. Foram muito mais de trinta anos de prisão, se computar o tempo preso quando menor de idade. Não há revolta em mim. Há amor. Há esperança de construir felicidade. Um otimismo temperado pela certeza de que não desperdicei e tentei usar até sangrar. Claro que sofri a dor rolando a esmo, seca e dura. Sem dó. E mesmo assim sempre soube que tudo dependia somente de mim mesmo. E que eu me tornaria naquilo que quisesse ser. A vontade sempre me pareceu soberana.
Sei que, apesar de mim mesmo, há alguma coisa que me coloca para frente. Foram tantas as vezes que protagonizei tragédias e situações piores que a morte e delas escapei, que não pode ser acaso. Minhas dores se transformaram em adornos: não me deturpei, não me corrompi. Sou desses que se importam, e não mais apenas sobrevivente. Construí uma moral muito pessoal. Aprendi a amar na medida em que me senti amado. Amado pela natureza e pela vida.
Respondo agora a pergunta inicial: Sou a própria voracidade de viver, este ser que não cabe em si e se expande.
Luiz Mendes em 04 12003
Revisado em 05/01/2010.
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