por Arthur Veríssimo
Trip #131

Durante 40 anos ele reinou soberano na tv brasileira. Abelardo Barbosa, o Chacrinha, lançou cantores, criou bordões e inventou as chacretes, deusas absolutas dos anos 70 e 80.

“Na TV nada se cria, tudo se copia.” Essa era uma das muitas pérolas criadas por Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que durante 40 anos dominou a cena da TV brasileira. Entre tantas coisas, ele foi responsável pelo lançamento de Roberto Carlos, Celly Campello, Wanderley Cardoso, Elis Regina, Erasmo Carlos, Jerry Adriani, Jair Rodrigues, Wanderléia, Waldick Soriano e Elba Ramalho. E tirou da cartola bordões do tipo: “Como vai, vai bem? Veio a pé ou veio de trem?”, “Quem não se comunica se trumbica”, “Vocês querem bacalhau?”, “Alô, alô, seu Inácio, faça o que eu digo, mas não o que eu faço”, “Não sou psicanalista nem analista. Sou vigarista”.

Lá se vão 16 anos do dia em que ele partiu, em 30 de junho de 1988. Como herança, o Velho Guerreiro, como era conhecido, deixou um baú de histórias. Como apresentador, era enérgico. Não admitia que nenhum artista recusasse convite para cantar em seu programa. O cantor Ritchie, por exemplo, disse não e ficou cinco anos na geladeira, sem poder cantar no Cassino do Chacrinha.

Tropicalistas
No palco, turbinou e divulgou os tropicalistas, realizando em seu programa a Festa da Banana, em 1968. Nesse dia, Chacrinha se fantasiou de banana e recebeu Caetano, Gal e Gil, que hipnotizaram e seduziram todo o Brasil. Agradecido, Gilberto Gil homenageou Chacrinha no ano seguinte com a música “Aquele Abraço”, de refrão inesquecível: “O Rio de Janeiro continua lindo...”.


Ao entrar na TV Globo, vindo da TV Rio, em 1968, já era um fenômeno de audiência. O primeiro presente na nova emissora foi uma imensa buzina dourada, dada por Walter Clark. A partir daí, nunca deixou de usá-la pendurada no pescoço. O que Chacrinha não sabia é que sua contratação fazia parte de uma estratégia de programação cujo objetivo era fazer da Globo uma emissora de alcance nacional. Walter Clark e José Bonifácio Sobrinho, o Boni, queriam que o Velho Guerreiro acelerasse esse processo, aproveitando o avanço da eletrificação de todo o território nacional feita pela Eletrobrás. Boni e Clark conseguiram essa proeza tendo Chacrinha como âncora.

Chacretes
Leleco Barbosa, filho de Chacrinha, lembra bem de como o pai inventou as lendárias chacretes. Segundo ele, para agradar a audiência masculina, Chacrinha decidiu encher o palco com beldades. “Pelos programas do Chacrinha passaram mais de 500 meninas. Havia muita rotatividade e a média era de 20 chacretes por semana”, lembra Leleco. E quem não se recorda das deliciosas Índia Poti, Vera Furacão, Esther Bem-Me-Quer, Gracinha Copacabana, Cleópatra, Regina Polivalente, Sarita Catatau, Rita Cadillac e tantas outras?

A TRIP encampou o desafio e localizou algumas dessas deusas dos anos 70 e 80. Nas próximas páginas, resgatamos um time dessas beldades, que continuam lindas e vitaminadas. Em uma tarde ensolarada no Rio de Janeiro, aproveitamos para uma falantina desenfreada e um ensaio fotográfico. Acompanhe os melhores momentos desse despudorado enlace verbal.

Quem é você?
Regina Eu sou a Regina Polivalente!

E você?
Esther Esther Bem-Me-Quer.

E em qual período vocês foram chacretes?
Regina Nós somos da última geração. Eu sou dos últimos cinco anos. De 82 a 87.

Você também, Esther?
Esther Sou do mesmo período da Regina.

Como era o Chacrinha com vocês?
Regina Era como um pai. Ele preservava nossa imagem, se preocupava com pequenos detalhes, como o batom. Ele dizia que eu tinha que pintar a boca como a Elke Maravilha!


E você, Esther?
Esther A gente tinha que ter a maior disciplina. Ele cansava de dizer pra gente: “Você tá magra! Vai tomar Sustagem!”. Ele se preocupava com nossa saúde, se a gente estava dormindo bem, se ficávamos até tarde na rua...

E ele ficava em cima de vocês com essa história de balada? Ele botava pra correr os namorados?
Regina Nós tínhamos vida pessoal. Mas, na hora do trabalho, namorado não podia acompanhar a gente. Ele não gostava nem que o pai fosse buscar na porta. É que nossos fãs não sabiam quem era pai, namorado, tio ou irmão, entendeu? Imagina só, um dia busca o pai, outro o namorado, outro dia busca o primo... Vão começar a achar que cada dia estamos saindo com um homem diferente, né?
Esther Ainda mais porque a gente tinha fama, né? As pessoas diziam: “Ah, as chacretes saem com todo mundo”. Se tomando cuidado as pessoas já falavam, imagina se toda hora vem alguém diferente buscar na porta da TV!

Esther, você não começou como chacrete. Diz a lenda que tem uma história da camiseta... Conta pra nós.
Esther
Na verdade eu sou jornalista, apresentadora. Eu fazia o programa O Povo na TV, do Silvio Santos, com Wagner Montes e Sérgio Mallandro. Depois de cinco anos, o programa acabou. Aí, o Leleco [filho de Chacrinha e diretor do programa] me convidou para fazer o sorteio da Aspa...

Aspa?
Esther Aspa era uma caderneta de poupança. E fazia o sorteio durante o programa do Chacrinha. Virei a “Garota Aspa”. Mas aí a Aspa faliu, e o Leleco me chamou para fazer o sorteio da camiseta do Chacrinha.

Você vestia uma camiseta molhada?
Esther Não! Ficava de collant e botava a camiseta por cima. Só que um dia o Chacrinha me viu dançando atrás da coxia. Ele gostou tanto que falou pro Leleco: “Ela vai ser chacrete”. Eu aceitei. Foi uma honra.

Como era essa obsessão do Chacrinha pelo ibope?
Regina Olha, vou ser sincera. As chacretes eram parte do elenco. Não estávamos por dentro de nada do que acontecia por trás.

Vocês recebiam muita cantada bizarra?
Regina Quando era chacrete eu recebi muita cantada sim. Mas recebo até hoje...

Vocês são lindonas! Pô, dá licença... Não tô... [sem jeito].
Regina
É que eu nunca recebi nenhuma cantada promíscua, bizarra ou estranha.

É que teve um caso famoso de uma chacrete que ganhou uma vaca, e o Chacrinha quis levar essa vaca pro palco...
Regina
Eu realmente me encontrei com um cara que era fazendeiro, que me proporcionaria tudo. Mas eu não queria nem saber! Nem de onde era, nem quem era! Mas tinha mesmo umas loucuras assim...

E você, Esther?
Esther Tinha umas coisas de ir pra fazenda, passar o fim de semana com fazendeiro, ganhar vaca, ganhar boi...

Você ganhou alguma vaca?
Esther Eu não! Mas ofereciam...

E cabrito?
Esther Não... onde é que eu ia botar um cabrito [risos]?
Regina Recebi cantadas, mas ninguém nunca me ofereceu boi, vaca, cabrito, carro, bicicleta, patinete, nada!

E jóias?
Regina Nunca... nunca ninguém me ofereceu nada!

Mas agora têm recebido um monte, né? Do jeito que vocês são lindonas...
Regina Sinceramente, hoje eu recebo!


E você, Esther?
Esther Até hoje param a gente na rua e perguntam: “Você não é chacrete?”. Eu sempre digo que não, que era a minha irmã... [Risos.]

Vamos falar dos ensaios. Vocês tinham uma coreógrafa?
Regina Nós tínhamos uma coreógrafa, a Fátima Boa Viagem, que era uma ex-chacrete. Ensaiávamos aos sábados e durante alguns dias da semana. Com os ensaios e as gravações você vai aprendendo, vai pegando o jeito. Eu sempre tive muita facilidade. Sou formada em educação física, danço, corro, nado, faço ginástica, musculação, jogo vôlei, basquete... Por isso sou a “Polivalente”. Eu aprendi muito rápido as coreografias.

Vocês eram dedicadas aos ensaios?
Esther Tínhamos que ser. O Chacrinha até mandava a Fátima Boa Viagem na minha casa pra ensaiar comigo. A gente ensaiava segunda, terça e, antes de gravar, no sábado, ensaiávamos também.

Vocês tinham uma vida muito ativa, com os programas na TV e os shows pelo Brasil. Como era a agenda de vocês?
Regina As pessoas contratavam o Chacrinha pra fazer um show, com atração ou sem atração. Sem atração, éramos só nós. Com atração iam alguns cantores, e era um miniprograma. Mas havia um revezamento entre as chacretes. Quem fosse num show, no seguinte já não ia.
Esther Mas se um contratante exigisse “Eu quero a Regina” ela tinha que ir.

Quantas eram as chacretes?
Regina Uma média de 15 a 20.

Ele olhava tudo, né?
Esther Se ele te visse parada, mandava descer e ir embora!
Regina Era muito centralizador...
Esther Ele gritava “Leleco, vem aqui!”. Quando Leleco descia, ele dizia: “Manda embora fulana, fulana, fulana...”. “Mas o que foi, papai?” “Estão paradas, não estão dançando!” Como é que ele via? Ele sabia de tudo de costas...
Regina É, numa gravação ele chegou a suspender sete chacretes. A metade!

E qual é a fonte da juventude das chacretes?
Regina Eu digo a todos que mamãe colocou formol na minha primeira mamadeira. Sou quarentona com corpinho de 18 e carinha de 30! [Risos.]

Você, Esther?
Esther Eu só faço o que gosto. Não me preocupo com idade, com velhice. Não tenho preocupação de botar silicone, botox. Tenho 48 anos, meu filho está com 29, casado, e em breve vou ser vovó. Meu namorado tem 32 anos e já tô há 15 com ele. Ele é surfista, lindo e maravilhoso! Acho que conservo a beleza porque faço o que eu gosto, não tenho mágoa no meu coração, sou uma pessoa feliz.

Esther, como é essa história de ter um namorado muito mais novo?
Esther Quando começamos, eu tinha 33 e ele 17. Estamos há 15 anos juntos.

E você, Regina? Se casou?
Regina Sou solteira, mas namoro há dois anos uma pessoa mais nova. Ele tem 34 anos. Ele é tudo de bom. Antes eu já me casei, me separei, morei no Japão, mas nunca tive filhos.

Qual foi seu momento inesquecível com o Chacrinha?
Esther Eu me chamava Estela. Estava num show, esperando pra entrar, e ele gritou: “Vamos receber a lindíssima Esther Bem-Me-Quer!”. Eu pensei: “Será que sou eu?”. Depois, perguntei a ele o porquê de Esther Bem-Me-Quer. Ele respondeu: “Porque você cuida de mim”. Achei lindo!

E você, Regina? Eu vi uma foto tua enganchada com o Evandro Mesquita... Você teve um love com ele?
Regina Não, ele é meu amigo até hoje. Adoro ele!

Mas vocês são lindonas! E ele também é boa-pinta...
Regina Mas éramos uma família...

Sim, eu sei! Mas as famílias se interagem!
Regina Mas a gente é amigo! Ele é meu amigo até hoje!

Vocês têm noção da importância que tiveram pro movimento de libertação feminina?
Regina Nós fomos as primeiras mulheres a ser símbolo sexual na TV. Hoje, elas dançam com pouca roupa, saem na Playboy. Nós nem isso podíamos fazer! Uma vez fui suspensa porque meu sutiã saiu na avenida e fiquei com o peitinho de fora!

Pagou o peitinho...
Regina Paguei uma suspensão de três meses. Nós não podíamos nada. Fomos precursoras! Com a Gretchen, abrimos espaço. As pessoas diziam que o programa do Chacrinha era brega, promíscuo. E não era nada disso. Nós fomos precursoras e tudo o que vem no início assusta! Mas abrimos caminho pra muita gente!

Como vocês vêem os programas de auditório do Brasil? O Chacrinha deixou algum herdeiro?
Esther Acho que o Luciano Huck tem o dom de fazer com que suas bailarinas sejam conhecidas. Ele fez a Tiazinha, a Feiticeira e está fazendo outras dançarinas.

Então o cara é generoso?
Regina Qual apresentador apresenta uma bailarina pelo nome? Quem faz questão de que elas andem com as próprias pernas? Nenhum! Só o Luciano.

Qual a importância do Chacrinha na tua vida e na dos brasileiros?
Regina Pra mim, ele foi tudo! Se sou o que sou hoje, agradeço a ele. Um dia ele me disse: “Eu não sou eterno, estudem”. Então hoje sou formada, trabalho em um jornal [Jornal do Brasil] graças à garra que ele me ensinou a ter.

E você, Esther?
Esther Chacrinha foi a fase mais feliz da minha vida. Entrar no programa dele era como entrar no país das maravilhas, sabe? Eu curtia pra caramba, aprendia muito com ele.

BALANÇANDO A PANÇA
“Ir ao Chacrinha era uma farra mesmo, uma esbórnia geral. O programa era melhor que videoclipe. A gente encontrava com Lobão, Odair José e Sidney Magal nos bastidores. Uma vez, tocando ‘Pelado’, o Russo veio tirar minha camisa, de sarro. Eu fiquei de cueca ali, na TV. Desde então, tive que repetir a cena em todos os shows” 
Roger, cantor do Ultraje a Rigor

“No fim dos anos 70, fui receber o Troféu Velho Guerreiro de melhor publicitário. Alguns dos meus amigos, na época, metidos a chique, acharam um absurdo a minha alegria em ir ao programa. Mas eu, que era seu fã, fui e fui pra lá de feliz. No dia da premiação acompanhei toda a preparação. De repente, o Chacrinha olha pra mim e diz: ‘Viu como aqui é tudo organizado? Sabe por quê? Porque quando começa eu entro e desorganizo. Se não estiver organizado antes, não dá certo’. Adorei o raciocínio. Foi uma das maiores lições que recebi na minha vida, dada de presente por esse mestre da comunicação de massa”
Washington Olivetto, publicitário

“Participei do programa do Chacrinha quando tinha 4, 5 anos. Foi a primeira vez que estive na TV. Me lembro que eu era muito tímida e ele foi muito generoso, carinhoso. O Chacrinha foi o maior comunicador que já tivemos, ele atingia todas as classes sociais. Esta história de que ninguém é insubstituível não cabe definitivamente a ele”
Angélica, apresentadora 

“Comecei no programa dele nos anos 60 como um interpretador de sonhos. Misturava Freud com Allan Kardec. Mas logo depois fui ser jurado. Ele é o firmamento da grande procissão que é a arte de apresentar. É o Charles Chaplin do Brasil” Pedro de Lara, entidade 

“A gente foi o primeiro grupo dos anos 80 a se apresentar no Chacrinha. Ele adotou a gente, se amarrou. Todo sábado a gente estava lá. O Chacrinha abrigava todo mundo: brega, chique, popular, intelectual, madame, empregada. E, quando a gente deixava os bastidores e saía daquele túnel, sabia que tudo poderia acontecer: farinha, bacalhau, ovo, tudo. Era divertidíssimo”
Evandro Mesquita, ator e compositor

“Eu ficava encantada com o personagem palhaço que ele encarnava, era isso que o fazia ser amado tanto por adultos quanto por crianças”
Hebe Camargo, apresentadora

O AVESSO DO GUERREIRO
“Ele me confundia com as chacretes, com aquelas meninas que puxavam o saco dele. Mas eu era uma cantora e não estava lá para ser beliscada. Eu falava para o meu empresário na época: ‘Se esse barrigudo vier se esfregar em mim, dou um tapa na cara dele’. O sujeito era muito abusado”
Perla, cantora 

“Chacrinha foi o palhaço supremo desse circo que é o show business brasileiro. Seu programa era um saudável contraponto à caretice dos anos de ditadura militar. Mas tinha um outro lado: para ir lá, éramos ‘aconselhados’ pela gravadora a tocar de graça nos bailões que ele promovia na Baixada Fluminense. Lá, cruzávamos com Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Benito di Paula, Odair José e muitos outros artistas”
Tony Bellotto, dos Titãs

Créditos

Retratos Vicente de Paula

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