por Luiz Filipe Tavares

O mutante original fala com a Trip sobre novo disco e projeto de saraus que chega a SP

Ele não é só o Lóki original. Ele não é só o mais importante nome da história do rock nacional. Ele não é só o cara que mandou às favas o bom senso e (especialmente) o senso comum na MPB. Arnaldo Dias Baptista, o primeiro Mutante, é um artista completo. Mesmo durante o auge do Tropicalismo, nosso mais relevante movimento musical do século XX, ele era o mais adiantado compositor de sua geração, verdadeiramente ligado em toda a sonoridade que ecoava dos EUA e Europa para o resto do mundo.

Desde sua participação nas gravações do disco Ronnie Von nº 3, do nosso "pequeno príncipe" Ronnie Von, a visão musical de Arnaldo se sobressaia a tudo que já havia sido feito no rock nacional, unindo canções de apelo pop a experimentações e orquestrações complexas. Em 68, quando saiu o primeiro disco dos Mutantes, ele tornou-se a pedra filosofal da psicodelia brasileira ao lado de Rita Lee e de seu irmão Sérgio Dias. O quinteto, completo por Dinho Leme e Liminha, permaneceu junto até 1972, antes da saída de Rita e de uma grande mudança no direcionamento da banda.

Hoje, quase 30 anos depois, Arnaldo já passou pelo pior. Os problemas com drogas, o surto de depressão e as mais diversas dificuldades psicológicas que surgiram com o passar dos anos não foram esquecidos, mas já foram contornados a ponto do cantor e compositor conseguir voltar à atividade. Em 2011, ele já lançou "I Don't Care", seu primeiro single desde 2004, tem um disco quase pronto na manga e entrou de cabeça no universo virtual da internet, usando seus dons de cosmonauta explorador também no ciberespaço. Com isso, voltou a aproximar-se dos fãs que cultuam desde sempre a genialidade que ainda reside atrás daquele sorriso eternamente presente que estampa seu rosto.

O sorriso, aliás, pode ser "visto" até pelo telefone, só pelo tom de voz de Arnaldo. Sua expressividade, doçura e inteligência são palpáveis a centenas de kilômetros de distância, da mesma forma que eram palpáveis há 30 anos, nas gravações dos Mutantes. Seja enquanto comenta seu amor pela pintura até quando se emociona ao falar do seu novo projeto de saraus, não existem palavras para descrever o sentimento que esse monstro da música tupiniquim transmite enquanto dá uma risada sonora ao cantarolar entre os dentes o trecho que diz: "eu vou voltar pra Cantareira", de sua clássica "Será Que Eu Vou Virar Bolor?", de 1974.

Pela primeira vez, seu novo projeto Sarau O Benedito chega à cidade de São Paulo, com o mestre se apresentando apenas com um piano em dois shows no SESC Belenzinho, apresentações que desde já prometem ser memoráveis, para não dizer históricas. Os shows acontecem nos dias 8 e 9 de outubro, com ingressos custando entre R$8 e R$32. 

Conversamos por telefone com o verdadeiro Lóki para falar da nova fase, dos novos projetos, do novo disco e do velho Arnaldo, que agora recebe incentivo e apoio financeiro de seus fãs pelo site de crowdfunding Mini Mecenas, criado pela cantora e compositora Lulina. Os melhores momentos da conversa você lê logo abaixo.

Trip - Um sarau é a forma mais livre de se compartilhar arte com as pessoas. Como você vê o formato sarau e por que o escolheu como a melhor forma de se apresentar?
Arnaldo Baptista - Muitas vezes, eu como um pianista, tenho um lado que fica meio obscuro quando estou em shows como os dos Mutantes, com milhões de equipamentos e de opiniões diversas. E em um sarau, eu toco meu pianinho e canto. Fico lá de onde eu consigo entreter muito melhor do que um show do Paul McCartney que custa 20 mil cruzeiros e tem que ser visto pela tela, de longe. Assim eu posso fazer uma coisa mais íntima e poética, de onde eu possa talvez pintar e fazer várias coisas extras, como declamar poesias e etc...

Você já fez um desses saraus lá na Serra da Cantareira. Como foi essa experiência para você?
Foi muito interessante. Eu estava me aventurando em uma experiência de tocar sozinho, então aconteceu essa ideia. Pode parecer bobagem, mas a pessoa que organizou o sarau estava fazendo aniversário e ele faz anos no mesmo dia que eu. O dono da festa não sabia que eu ia. Aí quando o homem me anunciou dizendo: "com vocês, Sir. Arnaldo Dias Baptista", o aniversariante ficou louco, chorou e tudo. Havia um lago muito bonito, com um piano de cauda em um palco e uma caixa de som. Então ficou lindo, muito poético. Aí fui cantando as músicas que me vinham na cabeça, no momento, de acordo com o que eu sentia com o público. Então eu cantei "Lóki" e várias outras coisas que vieram como "Balada do Louco" e músicas clássicas. Foi interessante e me parece que todos gostaram. Até cantei aquela que diz "Eu vou voltar pra Cantareira" [risos]. Foi muito gostoso.

A Cantareira é um lugar místico pra você, que sempre esteve presente de uma forma ou de outra na sua música. Como transportar esse sentimento de tocar ali para o sarau no Sesc Belenzinho?
Eu tento sempre fazer um show que esteja de acordo com o ambiente em que eu estou tocando. Se eu estiver tocando em uma cidade com clima capira, eu vou tocar "Dois Mil e Um" e essas coisas mais caipiras (mais risos). No Belenzinho eu vou saber o que as pessoas estão sentindo ao meu respeito e vou tentar compartilhar com elas da melhor forma possível. Vamos ver qual vai ser o resultado...

Hoje mais do que nunca a sua música conversa diretamente com seu trabalho como artista plástico. Como você identifica a inspiração para pintar e no que é ela é diferente da inspiração para compor?
No sentido empírico, de fazer as coisas, quando estou com pincel e tinta na mão, eu estou com o mesmo instrumento que Leonardo Da Vinci ou o Rafael usava há mais de 500 anos atrás, ou mesmo o Salvador Dali mais atualmente. Mas quando eu faço música, estou sempre longe de alguma coisa. Eu não tenho como tocar uma música do Jack Bruce (ex-baixista do Cream, um dos músicos favoritos de Arnaldo) sem um contrabaixo Gibson e um amplificador Marshall. Então, para mim, esse lado das artes plásticas é muito mais próximo ao ideal, no sentido de conseguir realizar o que quero com instrumentos que eu possuo.

Mudando de assunto, todo mundo está muito ansioso pra ouvir o Esphera...
Ah, eu "esphero" que sim. [gargalhadas]

O que você já pode dizer sobre o disco? Como anda a produção?
Está uma coisa! Eu trabalho com as coisas que eu tenho no momento e com a minha capacidade de criar. Até por isso tem uma das músicas se chama "Colcha de Retalhos", no sentido de fazer a música naquele momento. Então eu quis passar por músicas tipo folclóricas, músicas infantis, músicas que envolvem energia solar nos carros, vegetarianismo, amplificadores valvulados... Então tive que mostrar um lado empírico e real, porque é difícil para muitos entenderem. Algo como um lado belo da vida que pode ser visto como feio, assim como Kurt Cobain achou. 

E já tem data prevista para o lançamento?
Isso eu ainda não consigo falar. Eu vou criando as músicas conforme elas aparecem. Ainda tem uma etapa de mixagem e depois de masterização, para transformar em CD. Então não estou sabendo exatamente qual a data de lançamento. Mas não vai demorar muito, porque já estou com muitas músicas gravadas. Talvez isso tenha um sentido meio egocêntrico, de querer amplificadores valvulados só quando o mundo inteiro não quer, mas eu não sou o único. Então agora eu consegui fazer em casa o sonho que eu sonhava. Então podem falar o que for desse som que vem aí. Eu quero que me julguem, porque eu estou julgando a todos também.

Sobre as gravações, tenho curiosidade sobre uma coisa. Você se sente mais feliz gravando no estúdio hoje do que nos anos 70? É mais fácil pra você trabalhar no estúdio agora?
Sim, eu prefiro. Porque antigamente eu acabava me reprimindo. Tinha o Sérgio, a Rita, o Liminha e o Dinho, que tinham as opiniões muitas vezes diveras às minhas. Hoje, com o trabalho solo, eu posso pesquisar esse lado de frequências subsônicas dos amplificadores. Assim me sinto mais de acordo com o meu modo ser, agora que eu toco sozinho. Eu prefiro assim do que antes com os Mutantes. 

A gente sabe que você tem uma relação bem próxima com a música erudita. Você ainda ouve rock atualmente? 
Sim, sem dúvida. Estou sempre procurando coisas dentro do meu gosto. Tem um conjunto que eu gosto tanto, o West, Bruce and Laing, que eu até gastei o CD de tanto ouvir. Agora tenho que comprar outro [muitos risos]. De tanto ouvir já está aparecendo o outro lado. Fico sempre pesquisando bandas desse tipo e outras músicas que eu gosto como o som do Jimi Hendrix, o Jethro Tull, e muitos músicos atuais também, que dizem respeito ao meu modo de pensar.

Quando você lançou "I Don't Care", fez bastante barulho na internet e repercutiu em todos os grandes meios de comunicação. Você está na internet, cada vez mais próximo de seus fãs. Você gostou da resposta deles para esse lançamento?
Eu estou achando ótimo. Eu procuro sempre me colocar do lado humilde, mas às vezes sou tão coroado que não sei nem como retribuir ou fazer jus a aquilo tudo. Mas está muito bom. Eu vou adiante com o CD e colocar minha energia para funcionar. Tanto tem sido feito por mim que eu preciso fazer jus a tudo isso. 

Para falar mais nessa proximidade com os fãs, queria que você falasse um pouco também sobre o Mini Mecenas. Como você vê essas iniciativas de financiamento coletivo pela internet?
O Esphera, que é o novo disco, já foi pensado meio por esse lado do mecenato. Isso permite que as pessoas paguem pelo lado do deslocamento, equipamento e pessoas para ajudar. Eu dependo dessas contribuições para conseguir fazer meu trabalho de acordo com o que eu estou sonhando.

E isso acaba tornando projeto todo mais "coletivo", não?
Exatamente. Eu não sou capaz de produzir além do que eu possuo atualmente. Então não posso me dedicar totalmente à alguma coisa sem o auxílio de Mini Mecenas que podem prover um lado confortável para que possamos trabalhar. 

Vai lá: Arnaldo Baptista em Sarau o Benedito
Quando: 8 e 9 de outubro de 2011
Onde: SESC Belenzinho - R. Padre Adelino, 1000 - Belém, São Paulo
Quanto: de R$8 a R$32 
Ingressos: à venda a partir das 14h, de 30/09, pela rede INGRESSOSESC
Informações: (11) 2076-9700

Update: Ingressos esgotados em menos de duas horas!

Arnaldo Baptista na internet
www.arnaldobaptista.com.br
http://arnaldobaptista.tumblr.com
www.twitter.com/arnaldobaptista
www.facebook.com/ArnaldoDiasBaptista
www.youtube.com/user/ArnaldoDiasBaptista
www.soundcloud.com/arnaldo-baptista
www.minimecenas.com.br/adote.asp?artista_id=18 

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