por Catarina Bruggemann

Depois de despontar em disco de Elza Soares, o rapper paulista apresenta o disco Ultrassom, em que dialoga com passado, presente e futuro

Edgar define ‘ultrassom’ como a primeira imagem de algo que ainda não se conhece. O que se relaciona diretamente com o disco homônimo: “Ele representa o espaço tempo, o presente. Ele fala do futuro, mas é de agora. Ele desenha um futuro, mas esse futuro está bem próximo”, diz. É assim, com uma estética futurista, até distópica, que o rapper explora sonoridades digitais e ideias profundas.

Ultrassom foi inspirado no livro 1984, clássico de George Orwell, tanto na questão da temporalidade (o disco traz ritmos oitentistas), quanto na pegada de ficção científica-política. Ele conta que compunha imaginando trilhas alternativas para filmes como Blade Runner e Tron: “Criava pensando em temáticas, como em ‘Go Pro’, que seria um filme de guerra, um videogame. ‘Líquida’ é um rolê mais urbano, seria uma cena de metrô", explica.

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O futurismo do cinema é somado ao som dos alemães do Kraftwerk, e a barulhos de objetos cotidianos, como uma impressora ou um fax (tá bom, fax não é mais tão cotidiano assim). Tudo é inspiração. Durante o processo criativo, Edgar diz que tenta não escutar outras coisas para não se influenciar pelas letras, mas andou abrindo exceções para a dupla malinesa Amadou & Mariam, para os paulistanos do Bixiga 70 e também para os congoleses do Kokoko.

O som do rapper ganhou novos palcos depois de sua participação no disco Deus é mulher, de Elza Soares — a faixa “Exú nas Escolas” é uma composição de Edgar em parceria com Kiko Dinucci, músico que participa de projetos como o Metá Metá. A música está concorrendo ao Prêmio Multishow na categoria Canção do Ano, enquanto Edgar está disputa na categoria Revelação.

Quase sem querer

Ultrassom é o quinto disco de Edgar e traz 10 faixas inéditas produzidas por Pupillo, baterista da Nação Zumbi. A relação dos dois começou em 2016 de uma forma espontânea e foi gradualmente tomando a forma de disco. “Eu não sabia da carreira do Pupillo, não sabia do portfólio, para mim, era mais um mano querendo fazer música, sem pretensão. Eu achava que era tranquilo, só fazer som.”

A relação despretensiosa com a música e a mistura de referências são reflexos do cenário que tinha em casa, durante a infância e adolescência. “Eu escutava muito forró, que meu pai ouvia, e meu irmão escutava bastante rock e eletrônico, ele era clubes.” A geração espontânea é justamente a marca do seu trabalho desde que começou a compor, em 2010, em rodas de freestyle com os amigos, em Guarulhos. “Se eu tivesse nascido em Pernambuco, teriam sido as rodas de repente”, compara o rapper. Depois desse momento, veio um curso de percussão e a fusão dos dois elementos seria imediata. Ao unir rima e ritmo, se deu conta: “Puts, tô fazendo música”.

A performance também se tornaria um aspecto marcante de seu trabalho. As  primeiras apresentações foram numa avenida de Guarulhos, sempre em horário de pico. Ele andava de bicicleta todo de verde com um megafone e gritava: “A bicicleta é um transporte do futuro. Se você quer o futuro, a bicicleta é um transporte do futuro!”. Diante da repercussão na cidade, percebeu o poder dessa expressão artística. “É quando você consegue alcançar uma leve mudança, nem que seja no pensar da pessoa. Ela já vai ficar um pouquinho diferente.”

Tudo é luxo, nada é lixo

Edgar cria os próprios figurinos e alguns instrumentos usando lixo, ou melhor, material reciclável. “Depois que você começa a mexer com lixo, percebe que não é lixo, só está no lixo.” Desde 2015, ele dá outros significados para objetos que foram descartados. Uma parte do material vem do lixo eletrônico da loja do irmão. “Ao invés de fazer mais pilhas e pilhas e pilhas de lixo, você pode fazer a cenografia de uma loja, a vitrine da C&A com um monte de placa de celular...”, divaga.

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Além de refletir sobre questões ambientais, ele coloca a intolerância religiosa em debate, o que fica claro em "Exú nas Escolas", composta para Elza Soares. “Meu pai é descendente afro com índio, e minha mãe é de índio com italiano. Eu cresci sendo muito julgado na escola e pelos meus amigos por minha mãe sofrer um problema de saúde e tentar resolver pela religião da umbanda. Rolavam encontros na minha casa”, relata.

Durante essa fase da vida, chegou a negar sua ancestralidade. “Eu queria morrer, eu queria me esconder, não queria fazer parte daquilo de jeito nenhum.” A música tem justamente a função de resgatar essa identidade perdida e deixar uma mensagem para as próximas gerações: “É preciso fortificar nossas crianças para não terem vergonha de suas raízes, porque não é nada vergonhoso."

Vai lá: Edgar lança Ultrassom em show no dia 15 de setembro, em São Paulo, no Sesc Pompeia.

 

Créditos

Imagem principal: Pedro Ladeira/Divulgação

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