por Matias Maxx
Trip #209

Subimos o morro para ver como vive hoje Bibi Perigosa, ex-mulher do Barão do Pó da Rocinha

“Tá fazendo merda aí, né, mãe?”, é o que Fabiana Escobar costuma escutar quando o filho a vê atualizando seu blog. Escobar ficou conhecida nacionalmente como Bibi Perigosa quando, no final de 2011, o Fantástico afirmou que seu ex-marido, Saulo de Sá Silva, o “Barão do Pó” da Rocinha, só havia sido preso, três anos antes e condenado a 18 anos de prisão, graças a um vídeo feito por ela. Bibi estava, ao lado de amigos, em frente à televisão de sua loja de roupas, Danger Girl. A reportagem começava com Saulo numa praia em Maceió, na véspera de sua prisão, declarando seu amor por Bibi, que operava a câmera.

Aquele domingo, 13 de novembro, dificilmente será esquecido pelos 70 mil habitantes da Rocinha. Foi o “dia da ocupação”, quando foi instalada a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) na favela. Àquela altura, Bibi já estava separada de Saulo. Os tempos de luxo de “mulher de bandido” haviam ficado para trás.

A blogueira e empresária conta que era apaixonada por Saulo desde os 6 anos. Casaram-se quando tinha 17 e Saulo era apenas um carteiro. Tiveram dois filhos (hoje com 15 e 13 anos) e divorciaram-se em 2010, depois de uma série de declarações de amor públicas de parte a parte. Ganhou o apelido depois de algumas pequenas demonstrações de ciúme – como atear fogo em um salão de manicure ou atacar a dentadas um outro traficante que tentava apartar uma briga do casal. “Sou ciumenta, brigona, estressada e pavio curto mesmo”, reconhece. Mas também é uma mulher sorridente e forte, que se acostumou a ter e a perder tudo mais de uma vez. Sua história é tanto uma história de amor marginal quanto a tragédia de um tipo de riqueza que cresceu na ausência do Estado. Bibi recebeu a equipe da Trip na sede da Danger Girl para contar a sua nova vida, sem luxos – salvo uma enorme piscina de fibra sobre a laje, de onde se pode observar a favela de um lado e a mata atlântica do outro.

Como ficou o morro depois da ocupação?
A maioria das pessoas da Rocinha não é criada aqui, elas vêm do Nordeste, não têm raiz, então foda-se se é UPP, polícia ou bandido. Aqui era o fervo, tinha baile todos os dias. A loja ficava aberta até as quatro da manhã, vendia muito. A ocupação quebrou muitos comerciantes porque veio na melhor época do ano, perto do Natal. Agora que não tem mais baile, eu tô ficando mais em casa e já engordei um monte!

Como é a vida de Bibi depois da separação?
Quando me separei, o Saulo tentou me fazer mudar da Rocinha, porque ele comprou uma casa pra mulher nova dele aqui. Mas ele vai ter de me engolir, se eu quiser ficar pelada em cima do telhado eu fico, e ninguém vai poder falar nada! Porque eu é que pago as minhas contas. Pô! Ele quis separar, eu aceitei. Aí eu arrumei um namorado de fora da Rocinha e o pessoal daqui ficou colocando terror nele: “Tu é maluco! Tu vai morrer!”. Nessas, é difícil arrumar namorado porque os caras ficam com medo. Na internet, criam anônimo pra dizer: “Você é gostosa”, “Quero te pegar!”. Eu digo: “Bota a cara! Aparece! Vem aqui me comer!”, e nada. Os homens têm medo. Ah, quer saber? Se eu não posso namorar ninguém, vou namorar logo 3 mil de uma vez! Aí eu fui, peguei três garrafas de vinho, um monte de Red Bull, fui pra um motel sozinha, abri a Twitcam, tomei banho de hidromassagem com eles [os internautas], dancei no pole dance com eles... Cheguei a ter uns 4 mil seguidores, só no nosso grupinho ali da sacanagem.

E o estigma de mulher de bandido?
Quando o Saulo foi preso a primeira vez [em 2005], fizeram abaixo-assinado pra tirar nossos filhos da escola. Ele era carteiro na rua da escola. “Meu Deus, o carteiro é o bandido!” Vou fazer o quê? Eu era mulher de bandido porque era casada com bandido. Agora, não pode confundir as coisas. Eu não conheci ele no morro, não conheci ele em boca de fumo, ele não usa droga e eu não uso droga. Eu conheci o Saulo quando ele era carteiro e estudante de matemática, fui casada com ele por 14 anos, desde que eu tinha 17, temos um filho de 15! Eu só acompanhei o meu marido. E errei também, porque eu não devia ter acompanhado.

Como você se adaptou à nova vida, sem os luxos de antes?
As crianças foram acostumadas com gasto. Era muito dinheiro. Minha filha tem cabelo loiro, e você sabe que cabelo loiro gasta mesmo, tem que ir no salão! Ela quer ir no show de não sei quem, meu filho precisa de dinheiro pra sair com a namorada. Você vê, minha [nova] casa não tem luxo. O que eu faço coloco na loja. E ainda assim veio um capeta aqui da Rocinha e roubou a loja! Fui lá na 15ª DP e registrei. Pergunta se vieram tirar digitais aqui? Ah, você acredita em Papai Noel, né? Mas eu fico monitorando pra ver se eu acho alguma das peças. Porque teve uns shorts lá que eu mesmo costurei, pedrinha por pedrinha. Se eu encontrar na rua... Ah, tá fudida! “Onde você comprou esse short?? Vou te amarrar de cabeça pra baixo no poste agora, vagabunda!!” [Risos.]

Então você está se virando mais ou menos bem sozinha?
Eu deixo de comprar minhas coisas pra pagar a escola da nossa filha. Outro dia, mandei vir uma quentinha aqui e a batata frita era só a casca da batata. Porra! Você acha que eu não queria estar fazendo compra de R$ 1 mil no mercado? Eu fazia! Sabe há quanto tempo eu não faço? Nove meses! Se eu não fosse uma mulher esperta, já tinha falido há muito tempo.

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