Prorrogar a adolescência é bobagem. Tão idiota quanto ser um idoso precoce é ser o tiozinho da balada

Havia aquela canção, que eu ouvia quando criança, sobre não confiar em ninguém com mais de 30 anos, mais de 30 ternos, mais de 30 cruzeiros. Trinta sempre teve um peso enorme. Para mim, foi mais difícil fazer 30 do que 40 ou 50. A minha geração foi um divisor de águas. Até a anterior, de meus pais, envelhecer era uma coisa positiva, ganhava-se respeitabilidade. Na parede da casa de minha mãe há um retrato de minha bisavó, com presumidos 16 ou 18 anos, no qual ela parece uma austera senhora com pelo menos o triplo da idade (esta minha bisavó morreria com 20 e poucos, depois do sétimo parto). Por outro lado, na turma que chegou agora, a de meus filhos, ninguém quer ficar mais velho, e a adolescência se prolonga para além dos 30 anos. Ser jovem era, antes, uma condição precária, de mera preparação para a “vida real”, que só viria com a idade adulta, e quanto mais rápido se chegasse lá, melhor. Agora, ao contrário, idade é peso, e a meta é prorrogar a juventude até, se possível, o infinito, e além.

É verdade que a vida adulta começava mais cedo, em parte porque também se morria mais cedo. Mozart deixou uma vasta obra (só de óperas foram 22) e morreu com 35, enquanto Mick Jagger segue rebolando nos palcos, incansável, aos 72. Madonna é outra que transborda energia aos 57, um a mais do que os 56 com que Beethoven, envelhecido e completamente surdo, partiu desta para melhor. Mas há mais do que isso. Na política e na economia, a juventude foi “inventada” no século 20, porque descobriu-se que, com sua muita energia e pouca experiência, ela poderia ser facilmente manipulada para consumir ou militar. Só para citar dois exemplos que mobilizaram milhares de crianças e adolescentes nas décadas de 30 e 40 do século 20 europeu, com papel significativo na maior de todas as guerras, Juventude Hitlerista e Juventude Comunista seriam conceitos impensáveis apenas algumas décadas antes, quando política era assunto restrito a homens maduros, em clubes fechados, exalando fumaça de charuto.

Foi do outro lado do Atlântico que a coisa começou a mudar. Os soldados norte-americanos foram para a mesma guerra ouvindo as músicas que seus pais aprovavam, as big bands de Glenn Miller e Tommy Dorsey. Quando voltaram, queriam ser protagonistas. E aí, nos anos seguintes, para ficar apenas na música, apareceram Elvis, Johnny Cash e Jimi Hendrix (todos com passagens pelo exército, embora posteriores à Segunda Guerra).

I shot the sheriff 

Os jovens não mais se contentavam em “aprender” com os pais, eles queriam produzir a própria cultura. Nas artes plásticas e na literatura o fenômeno se repetiu, prosseguindo na década de 60, com o movimento hippie e outras contraculturas. Só que como o capitalismo é o bicho mais adaptável do mundo, mais até do que as baratas, ele não perdeu tempo em incorporar, empacotar e vender a rebeldia, e o que era para ser revolução logo virou estética de butique e música de supermercado. (Você nunca conduziu um carrinho, entre as gôndolas do mercado, gingando ao som de “I shot the sheriff”?)

Assim, como o mundo tem (por enquanto) mais jovens do que velhos, quase todo o esforço do marketing atual é voltado para o endeusamento da juventude. Daí, acredito, fazer 30 anos ter pesado mais, para mim, do que fazer 40 ou 50. Daí também a geração atual tentar prorrogar o quanto pode a adolescência. Bobagem. O bom caminho está no meio termo, em amadurecer com serenidade, adiando ao máximo os aspectos ruins da velhice, mas assumindo a própria idade. Tão idiota quanto ser um idoso precoce é ser o tiozinho da balada.

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