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Amor em cadeia ou fim do Complexo Carandiru (2)

Um dia de visitas íntimas

em 21 de setembro de 2005

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Luiz Mendes, de 49 anos, está há 29 no Carandiru. Lá, conseguiu estudar e escrever um interessante livro, ‘Sobrevivente do Inferno’, publicado pela Cia. das Letras, que nos motivou a torná-lo colunista da ‘TRIP’. Esta é a segunda parte do seu relato sobre um dia de ‘visitas íntimas’, para quem se interessar em aprofundar as tentativas de entender como é, de verdade, a vida na cadeia:

‘Coloquei meu tesouro para dentro, fechei o quiche e bati a porta. Era o código: ninguém incomodaria. Ela me esperava de pé. Eu a envolvia no mais terno abraço. Ah, como eu a amava. Ali não havia prisão, havia espaço para a expansão do amor. O sexo, duro como pedra, ameaçava explodir dentro da calça. Apalpo aquela bunda macia, ela me segura, aperta forte, estremeço, as pernas bambeiam e ela suspira.

Beijos, a princípio doces, lábios acariciando lábios, depois exigentes, necessitados. As línguas se enroscam e o gosto do amor invade a boca. As mãos percorrem corpos, a cama convida e somos tomados pelo tesão incontrolável. As roupas voam, a nudez diz presente ao prazer. Mãos, bocas sequiosas percorrem e param em oásis para se deliciarem.

A penetração torna-se um carinho mais profundo, após satisfazer a fome, a sede, que estávamos um do outro. O movimento começa leve, carinhoso. Mas aos poucos, tudo exige pressão, vigor, ataque. Ela sobe e desce para derramar-se de prazer, recebo-a em gozo. Ao fundo, a televisão ligada na MTV abafa os gritos. Eu gemia, ela suspirava, então o êxtase estremecido. O fundo e o aperto, eu pulsando, ela em espasmos. Beijo-a agradecido e curtimos um soninho reparador.

Presa lá fora

Almoçamos a comidinha que ela preparou para nós, entre notícias da semana. Famílias, filhos, o trabalho dela, meus textos, editores, amigos e coisas nossas. Ela reclama das filas da entrada na cadeia, da humilhação da revista e da solidão da cama lá de casa. Acaricio, tento consolá-la. Dói.

É muito sofrimento por minha causa.

Mexe daqui a dali e a excitação nos acorda para o amor. Agora tudo é feito com calma, doçura e detalhes. Exploramo-nos com vagar em busca do cume do tesão. Delícias que conquistamos em anos de amor. O prazer não se repete; nasce puro novamente, no esplendor da entrega total. Algo me aperta no fundo de mim mesmo e já não sou mais eu somente. Sou eu, ela, as pessoas e todas as coisas vivas. Abençôo o mundo, perdôo a todos e até a mim mesmo.

Tomamos banho, escuto a sirene anunciando o fim do horário de visitações.

Nos vestimos, agora calados, tristes na certeza da separação. Levo-a ao portão, calado. Abraço-a, ela estremece e chora baixinho em meu peito. Ergo seu rosto com ambas as mãos, beijo seus olhos, enxugo seu rosto e sinto as lágrimas descerem pela minha cara, incontroláveis.

Solto-a no portão, vejo-a sair com seus passos vacilantes e volto, cego, sem ver ninguém, para minha cela. Pronto, acabou. Sento-me, papel e caneta na mão. Vou escrever para ela. Retê-la em mim.’

PALAVRAS-CHAVE
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