por Jean Wyllys
Trip #190

Jean Wyllys analisa o sucesso da primeira troca de cartas de Padre Fábio e Gabriel Chalita

Padre Fábio de Melo e Gabriel Chalita acabam de publicar sua segunda troca de correspondências: Cartas entre amigos - sobre ganhar e perder. O título propõe uma experiência que poderia ser única: penetrar na intimidade de dois amigos, um político e outro padre. Mas apenas aparentemente eles expõem suas intimidades: na verdade, exercitam aquele fingimento típico do fazer literário, que serve para esconder e dramatizar a experiência pessoal e íntima. Ao contrário daquelas trocas de cartas entre autores - das quais só ficamos sabendo quando publicadas postumamente - essa nasceu para ser publicada: não se trata de uma troca de cartas real. São apenas arremedos daquilo que o filósofo francês Michel Foucault chama de "escritas de si".

Apesar da falta de um propósito mais, digamos, nobre, Carta entre amigos... é um livro saboroso, que nos gratifica com "confidências" sobre sensações e emoções gestadas por relações e episódios familiares cuidadosamente selecionados e com um "confronto" de ideias acerca de fatos e personalidades diversos.

É de Fábio de Melo a frase que melhor define o livro: "A carta é um mecanismo maravilhoso que nos proporciona a experiência do encontro". Carta entre amigos... é um livro sobre a amizade como modo de vida; e, por isso mesmo, é um livro homoafetivo, uma vez que o modo de vida homossexual está fundado na amizade e na consequente troca de intimidades e de repertórios culturais entre amigos: gays convivem e se abrem mais com os amigos do que heterossexuais, pois contam bem menos com o amor e o acolhimento da família do que estes.

Não quero dizer que Gabriel Chalita e padre Fábio de Melo sejam homossexuais, mas sim que suas cartas refletem a fragilidade da identidade masculina diante da visibilidade e das conquistas do feminismo e do movimento gay. Estes desorientaram o "sentido de si" do homem heterossexual, que não é mais o que era e não sabe bem o que é. Nesse desamparo, o que lhe resta é a amizade como meio de se reencontrar.

Pílulas de Sabedoria

 

 

Gabriel para Fábio

"Somos diferentes, mas banhados pelo mesmo luar e talvez embalados por uma mesma sonata."

"Dor e esperança. Amigos que me farão companhia nesta noite. Amanhã é outro dia. Continuemos."

"Querido padre Fábio. Linda sua carta. As varandas da minha mente ficaram um pouco mais iluminadas."

Fábio para Gabriel

"Não quero correr o risco de morrer sem desvendar os meus mistérios."

"Obrigado pela chuva mansa que suas palavras representam no meu fim de tarde."

"Suas cartas funcionam como chaves. Abrem quartos escuros de minha morada interior, lugar que suas memórias iluminam."

 

 

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