por Arthur Veríssimo
Trip #186

Nosso repórter tarja preta encara uma luta com o playboy faixa preta Chiquinho Scarpa

Nosso repórter tarja preta encara o faixa preta Chiquinho Scarpa no tatame do aikido, com participação surpresa de Eduardo Araújo, “O bom” da Jovem Guarda. De quebra, eles batem um papo sobre o maior erro da vida do conde: as complicações pós-operação de redução de estômago que quase o mataram

Observo pela janela a chuva diluviana que castiga a cidade há mais de 40 dias. No interior da casa, classe e bom gosto. Aguardo uma figura ímpar da cultura pop brasileira em sua biblioteca adornada com quadros de Napoleão Bonaparte. Durante décadas ele foi o ícone do playboy brasileiro. Sim, amabilíssimos leitores, estou falando de Francisco Scarpa Filho, a.k.a. Chiquinho Scarpa. Em abril de 2009 Chiquinho submeteu-se a uma cirurgia de redução de estômago e teve seriíssimas complicações no pós-operatório. Segundo ele, após a operação, em casa, entornou jarros de suco de melancia e seu corpo entrou em colapso. Durante muito tempo tomou Roacutan, remédio para acne e rosácea. Os efeitos colaterais são uma bomba. As paredes e tecidos dos órgãos tornaram-se finos como papel. Um dos pontos da cirurgia estourou e vazou líquido para a cavidade abdominal. Foi um Deus nos acuda. No Sírio-Libanês os médicos constataram uma grave peritonite (infecção na membrana que reveste os órgãos internos). Durante 63 dias ele ficou em coma. Não lembra de nada e agora pretende fazer uma regressão para “ver” o que aconteceu nesse hiato. O que se recorda é do instante em que acordou. Não conseguia falar nem se mexer. Estava consciente, sedado e uma enfermeira pingava colírio em seus olhos para que não ressecassem.

 

Se arrependimento matasse, Chiquinho já estaria junto dos deuses. Depois de cinco cirurgias e de receber duas extremas-unções, Chiquinho renasceu.

Percebo a maçaneta da biblioteca movimentando-se. Com seu 1,71 m, Chiquinho veste um quimono impecavelmente engomado. Seu sorriso, sua elegância e sua educação de fidalgo reluzem na sala napoleônica. Uma leve camada de base e pó de arroz envolve seu rosto - alguém se recorda de sua linha de cosméticos? Conta histórias antigas do extinto clube noturno paulistano Gallery e do jet set internacional. Sua mente e memória parecem intactas. Reclama da dificuldade para se movimentar e que a fala está devagar. Ao longo da vida, experimentou tudo aquilo com que milhões sonham: viagens, mulheres, banquetes, iates, baladas, mordomias, poder, supercarros e uma vida de aristocrata. Chiquinho ostenta o título de conde transmitido jus sanguinis, ou seja, por direito de sangue, por seus antepassados da Itália. Abre gavetas, gavetinhas, gavetões, caixas e armários no encalço de documentos da Ordem de Malta. Há nove séculos a organização é reconhecida como estado soberano e promove ações humanitárias em 160 países.

Espada samurai e iMac
Repentinamente surge na sala sua atual esposa, Rosimari Bosenbecker, em trajes de gala. “Ela resolve todos os problemas, sou apaixonado. Ela foi minha namorada 17 anos atrás. Terminei com ela numa festa e banquei o cafajeste. Saí com outra e ela saiu com meu melhor amigo.”

“Reencontrei-a depois de anos e imediatamente nos casamos, em janeiro de 2007”, diz Chiquinho, ao que Rosimari emenda: “Como diziam os médicos, ele é um enigma, não dá pra saber o que vai acontecer com ele no dia seguinte. Quando a gente deduzia que ia melhorar, piorava. E vice-versa. Eu acredito que é Deus, uma força do além que protege ele”. Chiquinho intercede e conclui: “Minha sobrevida vem do companheirismo da Rosi, da capacidade de 16 médicos, dos amigos, fãs e da harmonia da prática do aikido”.

Sou convidado para conhecer os outros aposentos. A antessala do quarto é recheada por dezenas de espadas samurai. Na bancada de trabalho vejo um Kindle e um iMac turbinado. Chiquinho faz questão de mostrar a câmara nupcial do casal. Estátuas de Buda em diversas posições equilibram sua intimidade. Sobre o criado-mudo, uma miríade de medicamentos tarja preta e vitaminas.

Maseratti e Jovem Guarda
Chiquinho exclama que estamos atrasados para a aula de aikido. Saímos da propriedade de 6 mil m² na praça Nicolau Scarpa (batizada com o nome de seu avô) no Jardim América em uma Maseratti rumo ao Butantã. Chiquinho pilota o bólido com destreza e num piscar de olhos estamos no Instituto Maruyama. Sou agraciado com um quimono novinho e aprendo sobre a origem do aikido, que surgiu com o mestre dos mestres (Doshu) Morihei Ueshiba (1883-1969). Existe todo um protocolo para o momento em que se pisa no tatame (dojo). No início os praticantes sentam-se na direção do altar xintoísta e fazem reverências. Seguia lealmente as orientações e percebia Chiquinho analisando minha conduta. No aikido são utilizadas técnicas para se atingir o máximo de efeito com o mínimo de esforço. Tudo tem de fluir harmoniosamente.

Como num passe de mágica, estou sob o domínio de Chiquinho. Ele controla minha mão, meu pulso desmunheca

Lá estava este inquieto perdigueiro lançando seu corpanzil no tatame em rolamentos, projeções e quedas. Sou surpreendido pela presença de Eduardo Araújo, conhecido na época da jovem guarda com a canção “O bom”. Aos 69 anos, Eduardo pratica a arte marcial com dedicação. Já Chiquinho começou há mais de sete anos e é faixa preta. Orienta o fotógrafo sobre como serão os golpes que irá aplicar neste ser senciente. Fico à mercê. Num dado momento, sob seu comando, invisto com violência. Como num passe de mágica, estou sob seu domínio. O conde controla minha mão, meu pulso desmunheca e caio de joelhos. Concordo com Chiquinho: o aikido segue como a corrente do rio, a força dos ventos e o nascer do Sol. Que os deuses de todas as linhagens deem vida longa a Chiquinho Scarpa Filho. Domo Arigato Gosaimashita.

 

O Cavalheiro errante

Sem pudor de mostrar seu poderio econômico e enroscando-se com mulheres ora glamorosas, ora nem tanto, Chiquinho criou, ao longo dos anos, um personagem cada vez menos playboy e mais estranho

por Mario Mendes

O carioca Jorginho Guinle (1916-2004), a mais perfeita tradução do termo “playboy” que o Brasil conheceu, nunca trabalhou. Torrou uma herança de muitos milhões de dólares com festas, viagens, champanhe, jazz e amantes que atendiam pelos nomes de Heddy Lammar, Ava Gardner, Marilyn Monroe e Romy Schneider. Era enturmado com monstros sagrados do porte de Orson Welles e Billie Holiday. Outro latin lover nacional, o milionário Francisco “Baby” Pignatari (1917-1977) “passeou” com as hollywoodianas Zsa Zsa Gabor e Linda Christian e casou-se com uma princesa europeia, Ira de Furstenberg – e a trouxe para morar em sua mansão no Morumbi.

Chiquinho Scarpa (nascido Francisco Scarpa Filho, em 1951, em São Paulo), cuja trajetória na crônica social conta mais de 30 anos, revelou-se descendente direto dessa linhagem mundana de bon-vivants, porém subverteu a tradição. No lugar do glamour cosmopolita Rio-Hollywood-Paris-Riviera, abraçou o clima pauliceia-pornochanchada que imperava nos anos 70. Seu raio de ação cobria os nightclubs exclusivos de então, Hippopotamus e Ta Matete, na avenida 9 de Julho, além de passagens pela casa de shows O Beco, na Bela Cintra, e pelo La Licorne, lendário endereço da boca do luxo, no centro. Em vez de starlets e estrelas do cinema americano ou europeu, suas conquistas ficaram entre moças bem-nascidas da sociedade local, como Alice de Freitas, e atrizes de carreira nebulosa, como Gigi Monteiro. Sem contar um episódio muitíssimo explorado pela imprensa nos anos 80, quando Chiquinho leiloou as peças de roupas vestidas pela então sex symbol Matilde Mastrangi, em noite que sacudiu as paredes espelhadas do club privé Gallery, do qual, claro, o playboy era assíduo frequentador. O leilão/striptease causou tanto furor que chegou a ser investigado pela polícia federal. Meses depois, a dupla repetiu a dose de escândalo quando Chiquinho compareceu ao talk show de Matilde na TV, onde ela entrevistava os convidados na cama. Detalhe: durante toda a entrevista ele fez questão de dizer que estava nu sob os lençóis. Chiquinho sempre foi, como se costuma dizer hoje, “polêmico”.

“Ele foi uma mistura explosiva de playboy com yuppie”, diz o jornalista Hermès Galvão, agudo observador da cena social no eixo Rio-São Paulo. “Nenhum playboy que viveu os anos 80 podia acertar, ele foi um rapaz que ficou preso no seu tempo, nem à frente, nem atrás”, prossegue Galvão. A cena paulistana começou a acompanhar as estripulias do filho do casal Patsy e Francisco Scarpa nos anos 70, quando ele desfilava a bordo de possantes esportivos em companhias femininas vistosas. A então provinciana São Paulo ainda se lembrava de Baby Pignatari, e no high society havia um clima favorável para o surgimento de um sucessor do velho playboy. Aliás, Chiquinho tinha até rival na façanha, o igualmente jovem e milionário Toninho Abdala. A mídia adorava a disputa. O apresentador Flavio Cavalcanti chegou a perguntar em seu programa de auditório: “Quem é o maior playboy de São Paulo? Toninho Abdala ou Chiquinho Scarpa?”. Apesar do “Chiquinho Scarpa é um lixo! Toninho Abdala é um luxo!”, do costureiro Dener, Chiquinho levou a melhor naquela noite.

Anos depois, ainda na década de 70, em entrevista para o colunista social Ibrahim Sued, no Fantástico, o playboy insinuou conhecer, digamos, “mais intimamente” a princesa Caroline de Mônaco. Ao que Ibrahim rebateu: “Mas ela é virgem”. E Chiquinho: “Isso é o que você diz”. Bastou para o governo do principado entrar com um processo que levou Chiquinho a se desculpar publicamente perante o governo de Mônaco e a família Grimaldi.

Cueca com brasão
“Ele inventou um personagem que vive com muita intensidade e muito realismo”, diz o jornalista César Giobbi, amigo da família Scarpa e de Chiquinho “desde que ele era criança”. Realmente o personagem floresceu como nunca nos anos 80, a década do “show me the money”. Sempre vestido com ternos de alfaiataria e rodando a bordo de um Rolls-Royce, Chiquinho não se fazia de rogado fazendo e contando excentricidades. Passou a se dizer conde e a alardear que só usava cuecas com o brasão da família bordado. E enquanto o tempo passava ficavam evidentes tanto as operações plásticas quanto a maquiagem.

Para a revista Interview chegou a declarar que mantinha uma criação de anões em casa e mais de uma vez a polícia foi averiguar. Tudo não passava de uma brincadeira de gosto duvidoso engendrada entre o jornalista Michael Koellreuter e Chiquinho. Esse tipo de comportamento e atitude foi tornando Chiquinho cada vez mais estranho e menos playboy.

Na sombra dos holofotes
Por outro lado, quem o conhece de perto garante que o “médico” tem muito pouco a ver com o “monstro”. “Na intimidade, com a família e os amigos, é uma pessoa extremamente agradável”, diz César Giobbi. Até mesmo este que se assina teve a oportunidade de conhecer um Chiquinho Scarpa educado, atencioso com todos e galante com as mulheres durante um fim de semana passado no Club Med de Angra dos Reis, no início dos anos 90.

Claro que a persona de playboy de época serviu como uma luva para a cena tabloidizada e de reality show dos anos 2000. E Chiquinho inaugurou a década de maneira retumbante com o escandaloso casamento e separação da “princesa Carola”. Desde então, suas aparições públicas escassearam até ele retornar ao noticiário por conta da malsucedida cirurgia bariátrica. Talvez Chiquinho ainda volte a dar o que falar nas colunas sociais. Mas, no momento, mantém a discrição – sempre na medida Chiquinho Scarpa de ser. 2010 é o ano do centenário de Francisco Scarpa pai e, como bom filho, Chiquinho sabe que deve estar na sombra dos holofotes. Aliás, é bom enfatizar que depois de tantas aventuras, Chiquinho Scarpa ainda mora na casa dos pais.

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Jovem "em" guarda

Eduardo Araújo, aquele do carro vermelho, um dos reis da Jovem Guarda, numa conversa olho no olho com o repórter excepcional Arthur Veríssimo. Os dois se encontraram totalmente por acaso numa aula de Aikido.

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