Os catadores franceses Alain Fonteneau e Triskel só comem aquilo que encontram no lixo

 

Alain exibia um sorriso vitorioso naquela tarde de sábado acinzentado do inverno parisiense. Além da variedade de legumes e frutas que normalmente recolhe em meio às sobras do mercado no bulevar Edgar Quinet, no bairro Montparnasse, havia, minutos antes, catado do lixo de um supermercado um pacote intacto de café empacotado a vácuo, de uma marca das mais caras. No mesmo lixo, já “pescou” (a gíria usada pelos catadores) 500 g do prestigiado queijo gruyère, e nunca saiu de lá sem levar iogurtes ou mesmo pratos pré-preparados. Em sua pescaria do dia, havia fisgado um outro troféu: um apetitoso pão integral com nozes, intocado. “Peguei em uma lixeira ali em frente ao hotel Meridién. É preciso ter sorte, estar lá para catar na hora certa”, diz, enquanto afivela sua mochila preta carregada de alimentos.
Biólogo de formação, 44 anos, Alain Fonteneau se alimenta desde 1996 do que “pesca” nos lixos, uma prática que começou por acaso. “Ao caminhar uma vez por esse mercado, na hora em que os comerciantes partiam, notei que havia frutas em bom estado que seriam jogadas fora. Em outro dia, passando em frente a um supermercado, vi pessoas mexendo no lixo e reparei que ali também havia muita coisa a ser recuperada. E assim iniciei minha atividade de catador”, conta.
Em 2000, “Alain F.” se tornou um dos personagens do filme Os catadores e eu, da cineasta francesa Agnès Varda. Na época, recebia convites para participar de debates sobre a fome e o desperdício de alimentos no mundo. Sua reflexão não é de se jogar fora: “Li em um livro que com tudo o que produzimos podemos alimentar o dobro da população do planeta. Um dia desses, um capitalista disse que, quando formos 8 bilhões no mundo, teremos de produzir ainda mais alimentos. Para quê? Hoje somamos 6 bi­lhões, temos condições de alimentar 12 bi­lhões e há 850 milhões de malnutridos. É paradoxal!”.
“Se abaixar não é se rebaixar”, resume Alain. “Quando nos agachamos para pegar os alimentos há o olhar dos outros, e isso não é fácil no começo. Mas, depois que se entra nesse sistema, não nos importamos mais com isso”, diz, ao colocar a mochila carregada de alimentos nas costas e sair caminhando com seus vistosos tênis com amortecedores. achados no lixo.

WI-FI PIRATA
Em Aix-en-Provence, Triskel e Ozone já são conhecidos na paisagem da cidade. Triskel é o apelido do bretão Patrick Goujon, 25, e Ozone é o nome de seu cão, inspirado na camada de ozônio. Há cinco anos, Triskel começou a fazer do lixo sua despensa e seu sustento. Duas ou três vezes por semana, entre 3h e 4h da madrugada, com uma lâmpada de mineiro fixada na testa, vasculha o lixo de um supermercado. “A cada vez, cato comida o suficiente para fazer uma refeição para 50 pessoas”, diz. Às 13h, dá uma espiada nos restos do mercado de legumes e, no restante do dia, faz a ronda de lixeiras particulares. Mesmo o sabão ele cata em lixeiras de hotéis.
Sem-teto, dorme em uma van Trafic-Renault ano 1987, abando­nada porque já não funcionava e recuperada por ele, ou na casa de amigos. Para conseguir alguns trocados, vende alumínio, cobre, chumbo ou zinco que recolhe do lixo. “Preciso de apenas 100 euros por mês para viver”, diz. Autodefinido como hedonista e revoltado com o “desperdício do que é feito com o que a terra oferece”, há um ano e meio criou um site (www.freegan.fr) para ajudar candidatos a catadores. O conteúdo é postado em um velho laptop – “um pouco quebrado, mas que funciona” –, por meio de conexões wi-fi “pirateadas”, diz Triskel de seu telefone celular. catado no lixo.

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