A voz do Brasil
Trip descobriu o mistério que atormentava a cabeça dos fãs do Portishead: quem é o sujeito que abre o disco da banda inglesa recitando uma frase em português
Por Redação
em 11 de junho de 2008
POR KÁTIA LESSA
“Esteja alerta para a regra dos três. O que você dá, retornará para você. Essa lição você tem que aprender. Você só ganha o que você merece.”
Se você já escutou o novo CD do Portishead, Third, deve ter se surpreendido com a voz que abre o disco recitando a frase acima em português. Há dez anos à espera de um trabalho da banda inglesa, fãs do mundo todo, especialmente os brasileiros, se perguntaram quem era o homem misterioso no vocal que antecede a volta de Beth Gibbons. A Trip localizou o sujeito em Bristol, na Inglaterra, e solucionou o enigma. Claudio Campos, 34, é um professor de capoeira brasiliense que mora na cidade desde janeiro de 2003. Dava aula de educação física em um centro que unia gastronomia e esporte, mas, quando o governo desativou o local e ele recebeu uma proposta de trabalho fora do país, não hesitou em vender seu Corsa e se mandar. Abaixo, ele desvenda todos os detalhes do mistério.
Como surgiu o convite para participar da gravação? Eu dou aula de capoeira pra bastante gente aqui em Bristol e promovo uma festa brasileira. Durante uma noite dessas uma amiga disse que uma banda precisava de alguém para gravar um material em português do Brasil e, como eu já tive banda de reggae e de samba e gosto de música, topei.
Você não sabia qual era a banda? Nunca havia escutado nem uma única música.
Você não conhecia o Portishead? Não, mas parece que tô ficando famoso no mundo todo! Se eu soubesse, tinha cobrado mais.
Quanto você recebeu pela participação? Trezentas libras. E a gravação durou só 20 minutos.
Como foi no estúdio? Quando cheguei, eles já estavam por lá. A banda toda menos a vocalista. Foram muito simpáticos, perguntaram de que parte do Brasil eu era e o que eu fazia em Bristol. Estavam felizes e bem animados com o novo trabalho. Me disseram que pensavam em usar o espanhol, mas que o Brasil estava na moda e que eles queriam algo parecido com uma gravação em português que eles tinham no estúdio. Era um homem fazendo propaganda de uma companhia de shows chamada Viva Bahia. Eles pediram para que eu falasse no mesmo ritmo. Então recebi três opções de texto, todos sobre karma e o número três. Falavam que tudo o que a pessoa dá para o mundo ela recebe de volta três vezes. Traduzi os textos, li e eles escolheram esse que saiu no disco. Gravei cinco vezes e fui para casa. Eles agradeceram e disseram que iam trabalhar em cima do material. Mais tarde ainda tirei uma onda com os amigos: ganhei 300 libras facinho!
Quando você ouviu “Silence”, a faixa que abre o CD, pela primeira vez? Estava dando aula de capoeira e um aluno me ligou. Havia reconhecido a minha voz. Depois as ligações não pararam. Muitos amigos daqui notaram. Me disseram até que é a minha fala que abre o show. Outro aluno foi ao festival em que eles tocaram e achou que eu estava no palco falando no microfone! Está sendo divertido. Até já comprei o CD para guardar de recordação.
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