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A VACA E O ESTUDANTE

Todo mundo que já encarou um ambiente como este, cheio de estudantes brasileiros, sabe que ao menor vacilo a sacanagem vai rolar

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Há pouco tempo, tive a chance de participar de um evento na FAAP, uma universidade paulistana importante. Era uma espécie de palestra com uns 150 estudantes de comunicação. Sempre que posso, procuro participar deste tipo de evento sem a menor pretensão de ensinar nada. Na verdade, vou para aprender.

E de fato aprendi mais uma.

Todo mundo que já encarou um ambiente como este, cheio de estudantes brasileiros, sabe que ao menor vacilo a sacanagem vai rolar. É claro que há uma certa tolerância com quem está lá para dar a palestra, mas entre eles, como diriam os policiais de Nova Iorque, é tolerância zero. Coitado de quem tiver a língua presa e se atrever a fazer uma pergunta. Vai tomar bola de papel na cabeça, no mínimo. A crueldade do grupo atinge requintes. Um sujeito, por exemplo, disparou uma seqüência de oito ‘tipo assim’ na tentativa de formular uma pergunta. Tomou uma daquelas borrachas Faber-Castell verdes bem no meio da nuca. Outro cara tentou falar difícil e também experimentou 10 amargos segundos de execração pública.

A uma certa altura, quando o debate já estava bastante aquecido, um sujeito de camisa xadrez de flanela ergueu a mão e tomou o microfone. Logo nas primeiras palavras proferidas, o forte sotaque baiano já indicava caminho aberto para o preconceito cruel do grupo. Não bastando o risco de falar com sotaque forte, o cara se pôs a ler um trecho do livro mais recente do sociólogo italiano Domenico Demasi, razoavelmente complexo para a descontração da ocasião. Como se tudo isso não bastasse, um dos palestrantes chamou-o ao palco do auditório para fazer a leitura diante dos 150 pequenos carrascos.

Achei que o sujeito iria amarelar. Ao contrário, respirou fundo, encheu-se de razão, e não só foi ao palco como leu determinado mais de meia página do livro e ainda propôs uma reflexão sobre como o futuro do planeta depende na verdade deste tipo de atitude, de não ter medo de encarar uma posição, por mais difícil que seja sua defesa.

O cara venceu a barreira e foi aplaudido longamente.
Terminado o evento, enquanto me despedia, vi a mesma figura se aproximando. Aguardou pacientemente por alguns minutos e veio até o meu lado. Apressei-me em saudá-lo usando uma expressão curta: ‘Mandou muito bem’. A resposta veio direta:

‘É o surf que faz a gente ficar assim, te dá força para enfrentar as situações inesperadas com uma mistura de coragem e jogo de cintura, por que você sabe que se não tentar, vai dançar, e se conseguir vai ser recompensado de forma maravilhosamente inexplicável.’

É claro que fui para casa refletindo sobre isso. E pensei mais. Pensei que o surf, logo nos primeiros meses de prática ensina uma lição fundamental a quem se apaixona por ele: o quanto somos frágeis e insignificantes diante do mundo, da natureza, da morte às vezes iminente e sempre inexorável.

Esta lição pode ser aprendida no primeiro dia diante do primeiro caldo que tirar a respiração do novato ou depois de décadas, como deve ter sido o caso daquele local metido a fodão que precisou implorar ao querido Marcelo Bijú para que o salvasse em pleno North Shore.

Ao mesmo tempo em que se aprende a ser humilde, se percebe que a força interior é muito maior do que imaginamos, e que se você dominá-la e entendê-la, vai conseguir superar obstáculos aparentemente impossíveis. Quem já viu uma foto do Carlos Burle pegando ondas gigantes em Todos os Santos, no México ou a famosa vaca do Ianzinho em Pipeline, no Havaí, sabe o que eu quero dizer. Felizes os surfistas (e todos) que entendem a própria insignificância e a partir daí adquirem a sabedoria que lhes torna grandes diante da vida.

À propósito, o sujeito do começo do texto se chama Fred, é um surfista baiano e, certamente, será em breve um grande profissional de comunicação.

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