por Henrique Goldman
Trip #239

Em meio à chatice contemporânea, tudo passou a ser definido como ”de esquerda” ou ”de direita”

O Brasil contemporâneo é muito mais politizado do que era antes, o que muito provavelmente é um grande bem. Mas, precisamente por isso, o país hoje é também lamentavelmente muito mais chato. Uma das mais claras manifestações dessa chatice contemporânea nacional é que tudo – não só as tendências políticas ou os partidos – passou a ser, sem limites, definível como “de esquerda” ou “de direita”. O mundo se reduziu a dois lados de um único e monótono debate, sem fim e sem graça.

Um convicto adepto dessa dicotomia universal postou recentemente a seguinte frase no Facebook: “Notícia ruim para a turminha da tapioca”. A frase apresentava um artigo do jornal O Globo com o título “Mitos e verdades sobre a tapioca”, no qual nutricionistas avaliam o alimento derivado da mandioca de forma negativa, por conter calorias vazias e, portanto, ser signo de um esquerdismo demagógico e populista, igualmente vazio. A tônica desmistificadora do artigo e a picardia do postador traem uma vontade consciente e deliberada de atacar a ingenuidade da “turminha” tapioca-marinista. A menção à inaceitável ausência de fibras na tapioca espelharia então a índole corrupta de quem consome o alimento e é, portanto, conivente com o mensalão e o petrolão.

Mas é quando defende o velho e tradicional pãozinho como opção superior à tapioca que o artigo revela suas tendências direitistas, tomando partido e se alinhando descaradamente com o golpismo. O pão não é só menos calórico, mas, nas entrelinhas, assume também um papel reacionário, “de mercado”, pró-banqueiros, pró-Rede Globo e pró-Aécio.

CUBA E VENEZUELA

O artigo segue denunciando o ativismo natureba terceiro-mundista da tapioca. Assim como a própria revolução comunista, os tapioquistas têm como ambição se internacionalizar, se expandir para além de fronteiras nacionais. O autor do artigo lança um alerta: “Mesmo sendo muito pobre em proteínas, sódio e ômega 3, a tapioca é a terceira mais importante fonte de calorias dos trópicos”. Não seria essa uma clara alusão às lamentáveis tendências gastro-bolivarianistas de alguns setores do governo? Qual é o café da manhã preferido em Cuba e na Venezuela?

Somos prisioneiros de um paradoxo. Com medo do incompreensível, aceitamos cegamente versões simplificadas do mundo. Ao simplificar o mundo, ficamos cada vez mais burros e sem graça, distantes de uma possível compreensão maior.

*Henrique Goldman, 53, cineasta paulistano radicado em Londres, é diretor do filme Jean Charles.

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