A psicologia em memes

por Dandara Fonseca

Conhecido por tratar temas da psicanálise de forma acessível e descontraída, Lucas Liedke fala sobre memes, quarentena e relacionamentos

A pandemia trouxe um verdadeiro desafio para a maioria dos influenciadores digitais. Com o isolamento social, se tornou praticamente impossível postar as fotos de viagens, festas e toda aquela rotina que pode parecer perfeita aos olhos de quem está do outro lado da tela. Na contramão dessa turma, psicólogos e psicanalistas têm ganhado cada vez mais destaque na internet. “As pessoas querem seguir quem consiga trazer um pouco mais de questionamento e reflexão, aumentando um repertório e agregando conhecimento”, diz o psicanalista Lucas Liedke

O gaúcho tem aumentado cada vez mais seus seguidores nas redes sociais ao falar de forma fácil e engraçada – e usando muitos memes – sobre temas da psicanálise.  “Os memes autodepreciativos nos colocam numa situação de reconhecer a nossa vulnerabilidade. É parar um pouco esse giro e dizer: 'Peraí, ninguém tá bem'”, diz.

No papo com a Trip, Lucas fala sobre a necessária desconstrução da linguagem da psicanálise e reflete como a quarentena pode influenciar em temas como hiperconexão, relacionamentos, negacionismo científico e luto: “Estamos em um grande luto pelo mundo que já se foi e um outro que ainda não se desenhou.”

Trip. Com a quarentena, psicólogos e psicanalistas têm se tornado influenciadores nas redes sociais. Por que você acredita que esse movimento tem acontecido? 

Lucas Liedke. Acho que tem dois fatores andando em paralelo. Primeiro, há alguns anos, a saúde mental começou a entrar mais em pauta no mainstream. O pensamento de que análise era coisa de gente louca ou de gente rica e desocupada começou a mudar. Os discursos da psicanálise começaram a ter uma tradução mais acessível, que chega em mais pessoas. Em segundo lugar, as pessoas querem seguir quem consiga trazer um pouco mais de questionamento e reflexão, aumentando o repertório e agregando conhecimento, e não só influenciadores que vão mostrar apenas como a vida deles é perfeita. Não é uma virada radical, mas já temos alguns exemplos disso acontecendo. A Anitta nos ensinando sobre política é sinal de que realmente tudo mudou. 

Você enxerga essa mudança como positiva? Super, acho que estamos cansados de usar as redes sociais para nos sentir apenas rebaixados ou inferiores. É voltar um pouco para o que é a essência delas, que é a conexão. Fazer a gente se conectar com algo que possa nos construir ou mesmo nos provocar, no bom sentido, e não ficar só nessa comparação tão imaginária de estilo de vida. 

A quarentena pode nos ajudar a repensar sobre a vida e nos entender melhor? O isolamento social é uma grande crise, é difícil para todo mundo, mas nos dá uma chance de entender o que é mais importante. Tem uma oportunidade de mudança, não só as objetivas da sociedade – como tudo que vem se discutindo sobre mercado, as formas de trabalho, de consumo –, mas também no aspecto subjetivo, de colocar uma luz na forma que enxergamos o mundo. Eu vejo muito uma imagem de uma loja fechada para balanço. Nós estamos fechados nesse momento, no sentido de conseguir fazer esse balanço interno: o que está saindo caro demais na nossa vida, onde dá para cortar os gastos, quais podem ser as novas práticas. Sem querer passar pano em uma situação que é trágica, mas dá para fazer um questionamento das nossas escolhas. 

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Como surgiu a ideia de usar memes nas redes para falar de temas da psicanálise? Eu sinto que existe ainda, na psicanálise e na psicologia, um certo rigor e conservadorismo que não olha para esse tipo de linguagem com bons olhos. Vejo como uma forma de sair do lugar do psicanalista dono do conhecimento, que não ajuda ninguém. Os memes aproximam mais as pessoas, principalmente em uma hora em que está todo mundo precisando de algum tipo de ajuda. Além disso, vale lembrar que nós basicamente elegemos um presidente à base do meme. É um formato muito poderoso. Vamos usá-lo para questões que possam ir a favor da saúde mental das pessoas. 

Você acredita que dá pra falar de assuntos pesados com menos seriedade? É um pouco controverso. De um lado, a gente poder trazer tabus, assuntos que são mais difíceis de ser falados, em formato de meme. É colocar o humor como uma linguagem para fazer as pessoas se olharem um pouco e sentirem que não estão sozinhas. Posso descobrir que uma angústia que tenho outras pessoas também tem e podemos de alguma forma dar risada disso juntos. Mas acredito que não dá pra ficar só nesse campo. O meme pode ser uma porta de entrada para se aprofundar em alguns temas. E é claro, quando estamos falando de assuntos mais complexos, como as mortes ligadas à Covid-19 ou taxas de suicídio, não dá para dar risada, existe um limite. Tem um ponto do meme que é muito legal, e a Brené Brown fez o favor de colocar em pauta, que é a vulnerabilidade. Os memes mais autodepreciativos nos colocam numa situação de reconhecer a nossa vulnerabilidade. É parar um pouco esse giro e dizer: "Peraí gente, ninguém tá bem". E tudo bem, a gente pode olhar para isso juntos, dar risada e entender um pouco qual é o sofrimento de cada um. E hoje temos mesmo que lidar com isso, ser durão todos os dias uma hora cansa. É um momento de pedir ajuda e não ficar sofrendo em silêncio, porque já estamos muito isolados. 

Quais são os principais sentimentos que a pandemia e o isolamento social podem trazer? A quarentena pode trazer a dificuldade de ter uma perspectiva, de enxergar um futuro. Planos vão mudando o tempo todo, e isso gera uma grande ansiedade. O Brasil sempre esteve no topo do nível de ansiedade e agora que somos um dos epicentros da pandemia, então estes níveis estão disparando muito. A quarentena também traz uma ideia de castração, do que a gente podia e agora não pode mais. Mas por mais que a gente leia bastante, ouça o que as pessoas estão falando, é um sentimento muito pessoal, intransferível. Acredito que o recado maior é conseguir se escutar, escutar suas próprias emoções e ver por onde as coisas estão passando. 

A cobrança de passar por esse momento de forma positiva e sendo produtivo pode ser um problema? Super. Tem dias que dá e tem dias que não dá. A experiência na clínica tem sido bem ilustrativa nesse sentido. Tem pessoas que pioraram muito, e que estão realmente não conseguindo organizar sua rotina, e ao mesmo tempo tem outras que estranhamente estão muito bem, quase melhores do que antes. E quando começamos a fazer essas comparações, principalmente nas redes sociais, os sentimentos dão uma agravada. Porque por mais que a gente queira dar um exemplo, ser uma inspiração para o outro, isso também pode se tornar meio chato e opressivo. Tem dias que você não está bem, que você está simplesmente cansado de tentar lutar contra essa situação. 

O lado negativo pode se acentuar quando estamos confinados? Sempre existiram coisas que a gente não teve, que a gente não podia. Só que agora isso ficou ainda mais restrito, ainda mais gritante. Cair no pessimismo, em um vitimismo, é bem fácil e muito tentador. Ao mesmo tempo, a história da positividade tóxica pode ser uma grande chatice. São duas formas que nos atravessam e que talvez o ideal seja conseguir intercalar um pouco das duas. Dependendo do dia você vai estar mais otimista, talvez até um pouco mais fantasioso, e outros dias você vai estar vivendo a realidade, lendo todas as notícias. Intercalar um pouco esse mundo da realidade e da fantasia pode ser uma dosagem boa para não ficar nem tanto se alienando na dor, mas também não se entregar. 

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As redes sociais podem nos ajudar a falar com quem está longe, mas também gerar uma hiperconexão negativa. Como você enxerga essa relação? Nos últimos anos, estávamos com uma postura super crítica e válida em relação ao uso das redes sociais e de como o abuso delas seria preocupante, já que estaríamos substituindo a presença física. Um exemplo disso são as pessoas transando menos. Agora, a gente pode dar graças a Deus que as redes sociais existem, porque é o que está nos salvando. É importante estar atento à alienação, mas tem uma virada interessante em demonizar um pouco menos as redes. O que a gente pode fazer é olhar com cuidado para o tempo que não estamos conectados, pensar nas pessoas com quem a gente mora, criar momentos especiais. Porque estar na mesma casa não é o mesmo que estar junto. 

Como a quarentena pode impactar nos relacionamentos? Existe uma ideia da quarentena ser como um acelerador de futuro. É como se aquilo que já estivesse em curso agora se agiliza. Isso pode significar duas pessoas que estavam formando uma relação e decidem morar juntas ou um casal que já estava com dificuldade de conviver em casa descobrir que eles não podem mais seguir assim. Qualquer relacionamento é sobre um balanço entre proximidade e distância, sobre dinâmicas. É sobre passar por turbulências e crises e também ter paciência para fazer ajustes constantes. Nesse sentido, acabam aparecendo vários desafios neste período. 

Você fez um post sobre as pessoas indecisas, que tomam decisões baseadas no que as outras estão fazendo. Existe obviamente uma questão muito real que é o Governo Federal. Providências que foram tomadas em outros países e que aqui no Brasil não, levando na brincadeira. As questões políticas também entraram com tanta força que a questão da saúde ficou de lado. É uma grande bagunça, as pessoas ficam perdidas, e os indecisos acabam sendo influenciados e seguindo um mau exemplo. Tem uma falta de coletividade também. O brasileiro é super sociável e extrovertido, mas ao mesmo tempo falhamos no senso de coletividade. Acaba tendo um pensamento egoísta de concluir que se só eu fizer não vai dar problema. E aí vamos contaminando os outros. 

É possível encontrar alguma explicação na psicanálise para a onda de negacionismo científico que estamos vivendo? É quase um nível de psicotização, onde você está negando a realidade dos fatos. É claro que existem outras coisas além da ciência, mas quando tiramos essa parte, o resto do mundo não se sustenta muito bem. Nós vimos o que aconteceu em todos os outros países, estamos negando uma história absurdamente recente. Além disso, a alienação também dá um certo conforto. O que é melhor: acreditar que o presidente está fazendo um excelente trabalho que vai nos salvar ou acreditar que estamos caminhando para um colapso porque elegemos o pior governante do mundo? O primeiro lugar é muito mais confortável.

Como lidar com o luto trazido por esse momento? Tem uma análise que estamos em um grande luto pelo mundo que já se foi e um outro que ainda não se desenhou. A pandemia trouxe a perda de pessoas, mas também de emprego, de liberdade e de cenas que estamos sentindo falta, como festas e jogos. Acaba sendo um luto quando questionamos quando essas coisas vão acontecer novamente. Acho que o maior consolo que podemos ter é que a falta já existia antes. Ao mesmo tempo que falamos que não dá para ser feliz na pandemia, o quão feliz éramos antes? Podemos usar esse momento para olhar mais para as necessidades, fazer um balanço de perdas e ganhos. Estamos perdendo uma série de coisas, mas temos que pensar que ainda estamos com saúde, ou ainda temos emprego, nossa casa. Este cálculo nos dá algum tipo de alívio nessa hora.

Créditos

Imagem principal: Reprodução Instagram / Arquivo pessoal

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