por Emilio Fraia
Trip #246

Em 1991, o traficante Pablo Escobar se entregou à polícia colombiana. Mas impôs uma condição: construir a própria prisão onde seria trancafiado

Chamava-se La Catedral. Ficava nas montanhas, a cerca de meia hora de Medellín, com vista privilegiada da cidade. Durante um ano, entre junho de 1991 e julho de 1992, foi a morada do maior traficante de drogas da história: Pablo Escobar.

Quando se entregou à polícia colombiana (fruto de um acordo com o Governo que invalidava a lei de extradição vigente no país), Escobar impôs condições, aceitas pelo então presidente César Gaviria. A principal delas era ser recolhido numa prisão construída por ele mesmo, no lugar que escolhesse (um terreno que pertencia ao próprio Escobar), vigiada por seus homens e sem restrição de visitas – que subiam à sede em confortáveis Toyota Land Cruiser de carroceria vermelha e cabine branca.

“Eu achava que meu pai ficaria alguns anos ali, deixaria de cometer crimes, se recuperaria, para então voltar para casa”, conta por telefone Juan Pablo Escobar, filho do traficante e autor do recém-lançado Pablo Escobar, meu pai – As histórias que não deveríamos saber (editora Planeta). “Mas com o passar do tempo se tornou mais e mais evidente que, em La Catedral, meu pai trataria de reorganizar seu aparato militar e redesenhar as rotas do narcotráfico.” Juan Pablo conta que quando perguntou sobre o lugar para sua mãe, ela disse: “Meu filho, é como se fosse uma das nossas fazendas”.

De fato, La Catedral contava com mesas de bilhar, de pingue-pongue, campo de futebol equipado com sistema de drenagem – jogadores da seleção colombiana como o goleiro René Higuita e o atacante Faustino Asprilla eram presenças cativas. A comida era preparada por três chefs. Havia um médico da família, sempre disponível. Uma varanda semicoberta dava acesso às celas-suítes. A de Pablo tinha um cômodo de 25 metros quadrados na entrada e mais 25 metros de quarto, além de banheira, sauna, escritório com escrivaninha, sofá, pele de zebra no piso e lareira maravilhosa.

Em julho de 1992, porém, tudo chegou ao fim. A execução de dois comparsas acusados de traição tornou insustentável a permanência de Escobar na Catedral. Ficou decidido que ele seria transferido para outra prisão, mas o traficante não aceitou. Fugiu com nove homens por uma saída secreta que ele mesmo mandara construir – Escobar seria morto um ano depois, em 2 de dezembro de 1993, em Medellín, aos 44 anos. Hoje, no lugar onde ficava La Catedral, funciona uma comunidade beneditina.

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