A ONDA DO GUGA
Muita gente comentou sobre a grandeza da vitória de Guga neste impensável primeiro lugar do tênis mundial. Prefiro então comentar a inteligência demonstrada na forma de comemorar
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Quem acompanha com alguma assiduidade esta coluna deve se lembrar que muitas vezes abordo o surf como algo mais que uma simples atividade física ou esportiva. De forma geral, refiro-me a esta arte como um instrumento de eficiência significativa, com o qual o ser humano consegue atingir um nível de relaxamento físico e elevação mental e espiritual comparáveis à ioga ou à meditação.
A atitude de Gustavo Kuerten depois de obter o título em Portugal gravando na pedra seu nome no primeiro posto do tênis mundial não poderia comprovar com mais riqueza esta velha tese.
Como ele mesmo andou dizendo em Oahu (em vez de voltar ao Brasil e dar de comer ao próprio ego e a centenas de repórteres, televisões, jornais, sites e outros demônios, em infindáveis carreatas no lombo de um carro aberto do corpo de bombeiros), Guga foi ao encontro de alguns amigos, e principalmente da própria paz, num ponto do planeta onde a vida ainda corre num ritmo um pouco mais racional, cujo compasso é determinado não por compromissos agendados mas pelo ritmo do sol, das colheitas, da lua, e muito especialmente, das marés.
AMPLIFICADOR
Apesar da deterioração inevitável causada por anos e anos de fluxos cada vez maiores de turistas e estrangeiros que chegam para se fixar na área, o north shore (costa norte) de Oahu, no Havaí, mantém a magia determinada para ali estar pela natureza. Basta olhar o mapa para entender.
Aqueles pontinhos de terra, ou mais precisamente, de rocha vulcânica, estão insistindo em se sobressair da água salgada, numa região do globo em que não há outro sinal de terra a milhas e milhas em qualquer das direções que se procure. As ondulações geradas por furacões e outros fenômenos em diferentes partes do planeta viajam milhares de quilômetros sem obstáculos, e de repente encontram as bancadas de coral que, teimosas, fazem frente. É desse encontro que aparecem as ondas gigantes, lado mais divulgado e visível da exuberância da natureza naquelas paragens.
A verdade é que não são apenas as ondas. Todas as manifestações da natureza parecem estar conectadas a um grande amplificador. Os abacaxis são gigantescos. Os tubarões têm cinco metros, os arco-íris são assustadoramente grandes, as chuvas são torrenciais, os vulcões ameaçadores. Estas forças funcionam como dezenas de avisos, permanentemente relembrando nossa condição de coadjuvantes microscópios no mesmo filme em que as cidades às vezes conseguem nos enganar prometendo o papel principal.
Muita gente comentou sobre a grandeza da vitória de Guga neste impensável primeiro lugar do tênis mundial. Prefiro então comentar a inteligência demonstrada na forma de comemorar, e não só da humildade de valorizar o adversário, de ir beijar a mãe e a avó nas arquibancadas. Mas, principalmente a de deixar o ego na mala, e ir ao encontro de sua dimensão humana, pequena, atirando-se de tow-in (surf rebocado) em ondas seríssimas e arriscando tudo, para mais uma vez lidar com seus limites. Guga, ao lado de Álfio Lagnado, Renan Rocha, Silvinho Mancuzzi, Armando Daltro e do experiente salva-vidas brasileiro Romeu Bruno, que o rebocou para as ondas em seu jet ski, foi encontrar algo muito mais rico, interessante e recompensador do que a fama: ele mesmo.
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