Luciano Huck , Kelly Slater e um garoto da favela num encontro que transcende o surf e a TV

Um garoto de 14 anos da favela carioca do Pavão-Pavãozinho, um apresentador de TV global, um fotógrafo solto no mundo e o maior campeão de surf de todos os tempos. Um encontro no Havaí que transcende o surf e a TV - e transformou a vida de quem estava lá

Dentro do caótico oceano de oportunidades onde nossa náufraga existência boia, a sorte parece ser uma bem formada onda, pronta para ser surfada. De caos, de mar e de surf nosso jovem Naamã entende. Só não deve ter entendido muito bem quando se viu desembarcando no Havaí aos 14 anos, despesas pagas, para descer as melhores ondas do mundo a um hemisfério de casa - a favela do Pavão-Pavãozinho. Menino pobre que vive, como tantos, na corda bamba entre uma honesta vida de incertas esperanças e uma queda, quase por inércia, nas linhas do tráfico, seu bote salva-vidas sempre foi a prancha, o surf no Arpoador, o treino com seu mentor Rogério, que mantinham seus olhos e desejos apontados para o horizonte.

Sua rotina e conflitos foram retratados muito bem no documentário Rio breaks, co-produção da brasileira Prodigo Films com o americano Sundance Channel. No filme é contada a história de Naamã e seu amigo Fábio, dois garotos surfistas da favela que descem o morro quase todo dia para, entre dezenas de banhistas, pegar as ondas do canto esquerdo de Ipanema. A convocação do tráfico está sempre no ar. Naamã poderia ser facilmente mais um a se alistar. Mas uma cena do filme gerou a onda de sorte que o arrastou para outras praias. Foi um corte simples, uma cena de poucos segundos em que Naamã afirma que gostaria de surfar no Havaí. Um de seus amigos acrescenta que seu maior ídolo é Kelly Slater. Comentários óbvios até, já que o Havaí sempre foi a terra prometida do esporte, e Slater é, sem discussão, o maior surfista de todos os tempos. Seria como um pequeno boleiro dizer que seu maior sonho é conhecer Pelé...

Mesmo para Huck não é das tarefas mais simples chegar a Kelly Slater

 

Por óbvio que seja, o sonho de Naamã é daqueles pelos quais não se luta. Tão distante, tão improvável que se confunde com o impossível. E serve apenas como uma fantasia, algo para ocupar pensamentos enquanto a vida passa. Mas distância e viabilidade são elásticas, principalmente se você tem um programa de grande audiência na Rede Globo. A onda sortuda de Naamã nasceu em seu curto comentário no filme. Mas tomou corpo quando Luciano Huck assitiu ao Rio breaks. Apresentar o moleque a Kelly Slater seria fazê-lo loucamente feliz. Seria juntar dois universos em extremos opostos, ainda assim com muito em comum. Seria uma boa ação enorme. E seria, evidentemente, boa televisão. Mas mesmo para Huck não é das tarefas mais simples chegar a Kelly Slater. Quem chegou ao topo do mundo, e lá ficou, não é dado aos holofotes sem um bom motivo. Foi quando o fotógrafo Vavá Ribeiro cruzou com Luciano Huck. E a sorte de Naamã ganhou mais uns pés de altura. Vavá está solto no mundo há muito anos. E circula ainda mais solto entre as mais distintas rodas. Pode ser visto tanto nas semanas de moda da Europa quanto nos maiores swells do Havaí. Nos dois casos, é bem mais do que um espectador. Coleciona amigos e contatos, e faz de sua câmera e idos seus deias mais um modo de vida do que uma profissão. Foi numa dessas, há alguns anos, passando um ano novo na Big Island do Havaí, que conheceu Kelly Slater. E quis o acaso que os dois continuassem se trombando meio sem querer pelo mundo. Se tornaram amigos, e, pouco antes do tal encontro com Luciano Huck, Vavá escutou algo interessante de Kelly Slater.

O surfista estava interessado em se aproximar mais do Brasil, mas não para surfar ou faturar. Depois de nove títulos mundiais e de um pé-de-meia que pode se estender por gerações, Kelly está mais preocupado em usar seu largo prestígio como ídolo do esporte para ajudar a construir algo mais significativo para os outros. Pediu para Vavá ser um filtro e um prospectador de projetos interessantes para Kelly tomar parte no Brasil. Quando escutou de Luciano a ideia de levar Naamã ao Havaí, Vavá não teve muito o que pensar. Ligou para Kelly, explicou do que se tratava, e tudo começou a se encaixar, longe, bem longe da tensa rotina favela-praia de Naamã. O fato é que, menos de três meses depois, o menino estava voando pela primeira vez na vida, e desembarcando na ilha de Oahu, em pleno inverno havaiano, o auge das lendárias ondas de Pipeline, Sunset, Waimea.

 

Clash de universos
Vavá não fez as vezes de fotógrafo nessa empreitada. Foi uma espécie de produtor de luxo, alguém que sabe como o complexo jogo do localismo havaiano funciona. "É como na favela... pra subir o morro você precisa pedir licença para quem manda ali, não é? Senão vai se dar mal. No North Shore é a mesma coisa... tem que pedir autorização para entrar no mar de prancha, câmera, equipe de TV, helicóptero...", conta. Mesmo com Kelly Slater envolvido, convém cercar-se dos melhores - e mais bem relacionados - surfistas locais. Enquanto Vavá, Luciano e Kelly jantavam e conspiravam o dia seguinte com Naamã, o moleque descansava alheio no hotel, achando, até então, que encontrar Kelly Slater não estava no programa. Conhecer o Havaí era bom o suficiente para suas antigas expectativas na vida. E bom o suficiente para se tornar um quadro no Caldeirão do Huck. A equipe mantinha um conveniente suspense até a hora H. E foi assim:

O garoto e Luciano estavam sentados na areia, olhando para o mar. Clima de fim de reportagem, aquele necessário clichê do rapaz perdido em pensamentos, contemplando as esculpidas ondas do North Shore. Foi quando Kelly Slater se esgueirou saindo de uma moita logo atrás e, tapando os olhos e dando uma gravata no pobrezinho, o derrubou na areia. Quando levanta, depois do susto, olha pra cima e vê Kelly Slater, Naamã se atraca em um abraço no campeão. Entraram no mar para uma session juntos. Algo que, apesar das muitas câmeras estrategicamente posicionadas, não foi exatamente um sonho. O mar mexido, instável demais, fez com que os dois inclusive se embolasseem ao descer a única onda surfável que deu por ali. Sem problemas, o que interessava ali era outra coisa. O clash de universos, o improvável, mas real encontro de um megacampeão, um moleque da favela, um fotógrafo viajante e um bem nascido apresentador de TV era a verdadeira sessão nas areias do Havaí naquela tarde.

Quando levanta do tombo na areia, Naamã vê Kelly Slater e se atraca com um abraço ao campeão

Kelly, o mais jovem surfista a conquistar o caneco de campeão mundial, e o também o mais velho, veio de uma família de poucos recursos na Flórida. Mas nada como os desafios que Naamã passa. Kelly derramou lágrimas, literalmente, quando viu as cenas da casa e da vida do garoto. Naamã, agora descendo sem medo a onda de sorte, fez uma promessa direta ao seu ídolo: que nunca iria se meter com o tráfico, um erro que levou a vida de seu irmão mais velho e de mais de um amigo. Kelly, do seu lado, retribuiu a promessa, dizendo que vai se dedicar ainda mais a causas sociais, a usar a fama e o prestígio para que "Naamãs" do mundo não precisem de tanta sorte para dar viradas na vida.

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