por Joaquim Salles

Dois anos após a legalização da maconha no Colorado, Trip foi conferir como a nova indústria se desenvolveu por lá e os desafios que o negócio da cannabis ainda enfrenta

Em agosto de 2009, Tim Cullen, então 37 anos, pediu demissão da escola onde deu aulas de biologia por dez anos em um subúrbio de Denver, capital do estado do Colorado. No mesmo dia foi almoçar com o pai para discutir sua decisão. “Pai,” disse, “abandonei a carreira de professor para plantar e vender maconha medicinal.”

O Colorado havia legalizado a maconha para uso medicinal em 2000, e só agora a indústria começava a decolar, com novas lojas, chamadas de dispensaries, abrindo quase que semanalmente. Havia uma chance também da maconha ser legalizada para uso recreativo no ano seguinte. Era a hora certa para entrar no mercado.

A principio seus pais ficaram preocupados. Afinal de contas maconha ainda era ilegal no nível federal, considerada uma Schedule I Drug (Droga Classe I) pelo governo americano, categoria reservada para as drogas mais viciantes e perigosas. E se desse errado? E se o governo decidisse, da noite para o dia, fazer cumprir a lei federal?

Cullen decidiu correr o risco. “Houve dias em que achei que tinha cometido um grande erro,” ele diz. “Abandonei um emprego que eu amava e arrisquei as finanças da família.”

Eventualmente, depois de muitos altos e baixos, tudo se encaixou. Hoje Cullen é um dos mais bem-sucedidos empreendedores de maconha do estado, e um dos líderes de uma indústria que não para de crescer. O ex-professor de biologia, sócio de quatro dispensaries e duas outras companhias relacionadas à maconha,  é motivo de orgulho para os pais. Quando Cullen saiu na capa de uma revista local, sua mãe se deparava com a cara do filho toda vez que ia ao supermercado, e falava empolgada para os outros clientes: “Este é o meu filho, o magnata da maconha legalizada!”

As projeções de Cullen indicam que suas quatro lojas irão render mais de U$16 milhões em 2015. Suas duas outras empresas, uma produtora de óleo de haxixe orgânico chamada OrganaLabs,  e uma companhia de vaporizadores individuais chamada O.penVAPE   também vêm crescendo exponencialmente desde de que foram criadas.  Segundo ele, 2016 vai ser um ano ainda melhor, com planos de expansão não só no Colorado mas também para outros estados que legalizaram maconha de alguma forma.

No Colorado a história de Tim Cullen não é tão incomum. Ele é apenas um dos muitos empreendedores que sacaram que a legalização de um produto extremamente popular era uma excelente oportunidade. Uma indústria gigantesca vem se erguendo no estado desde que o uso medicinal de maconha foi legalizado em 2000, e principalmente desde de que o mesmo aconteceu com o uso recreativo, em 2014. Não dá para afirmar como será o futuro da maconha no mundo, mas se olharmos para o Colorado, temos um bom exemplo a ser seguido.

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Muitos chamam o Colorado de Vale Do Silício da maconha. O estado tem hoje mais lojas de maconha do que restaurantes do McDonald’s. Qualquer pessoa acima de 21 anos de idade pode entrar em um dos 390 dispensaries recreativos no estado e ter acesso à uma diversidade de produtos de maconha que surpreende até os mais viajados dos maconheiros. Isso sem contar com os 115 pontos de venda de maconha exclusivamente para uso medicinal. Dezenas de tipos diferentes de skunk, haxixe, óleos, barras de chocolate, balas, biscoitos, sucos, refrigerantes, cremes, e até sprays nasais de maconha estocam as estantes das lojas. A indústria é uma verdadeira fabrica do Willy Wonka, se Willy Wonka vendesse psicotrópicos e não chocolate.

O produto vem sempre dentro de uma embalagem à prova de crianças,  com instruções de uso, e com todos os ingredientes e químicos usados no processo de cultivo listados no rótulo. Essas são só algumas das regras impostas pela Marijuana Enforcement Division (MED), o órgão estadual que regula a indústria. O preço de venda inclui no mínimo 25% de imposto para compras recreativas, e às vezes mais, dependendo do município.

Em 2014 o governo do estado arrecadou U$44 milhões em impostos sobre a venda de canábis, e mais U$32 milhões em taxas de licenciamento, quase o dobro do que foi arrecadado pela venda de álcool. Projeta-se que até o final de 2015 o estado vai arrecadar U$125 milhões só em impostos. O dinheiro é investido em educação, programas de prevenção ao uso de drogas, e na estrutura burocrática criada para regular a nova indústria. Pueblo County, um município do Colorado, vai financiar uma bolsa universitária com parte dos impostos arrecadados em cima da maconha.

O problema é que tudo isso existe dentro de uma zona legal ambígua. De acordo com a lei federal, o governo americano não só pode, como deve prender aqueles que plantam, vendem ou consumem maconha. O conflito que vem à tona é muito comum na vida política americana: os direitos dos estados contra o poder do governo federal.

Até agora a Drug Enforcement Administration (DEA), o órgão federal encarregado da repressão e controle de narcóticos, está deixando os dispensaries em paz. O Presidente Obama já declarou que não pretende gastar recursos tentando reverter as decisões de estados que legalizaram a maconha. Ninguém sabe se essa politica será mantida caso um Republicano seja eleito presidente em 2016.

Ainda assim, só porque o DEA parece ignorar a legalização, não quer dizer que não haja problemas. Longe disso. Bancos, por exemplo, são regulados no nível federal, o que significa que qualquer empresa que tenha a ver com maconha tem muita dificuldade de abrir conta em banco. O resultado é que a indústria de maconha no Colorado, que este ano deve vender quase U$1 bilhão em produto, ainda é majoritariamente operada com dinheiro vivo.

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“Entrei para a indústria quando vi o alivio que a canábis deu à minha avó no fim da vida.” diz Bob Eschino, sócio de uma das maiores companhias de produtos comestíveis de maconha do estado, a Incredibles Edibles (Incríveis Comestíveis)  Na época, o irmão de Eschino fornecia à avó bolos de maconha para ajudar com dores e falta de apetite. Junto com seu sócio, Rick Scarpello, Eschino entrou de cabeça na indústria em 2011 e se surpreendeu com o tratamento que recebeu.

Eschino era dono de uma empresa de embalagem, e Scarpello, de uma padaria. “Não tínhamos experiência nenhuma com maconha então não sabíamos como o negócio funcionava. Nenhum banco queria abrir conta com a gente, muito menos nos dar empréstimos,” diz. “Éramos licenciados pelo estado do Colorado. Achamos que teríamos direito a todos as ferramentas oferecidas à qualquer outra empresa.”

Mesmo com todas a dificuldades, o negócio deu certo. No primeiro ano recuperaram o investimento. No segundo, o negócio disparou, com crescimento de mil por cento. Desde então a Incredibles Edibles vem dobrando de tamanho a  cada ano que passa. “É impossível acompanhar a demanda,” diz Eschino.

A empresa começou com um funcionário, Joshua Fink, um sujeito de óculos e um bigode ruivo à la Bismarck. Fink era responsável por comprar maconha, extrair o óleo usado para cozinhar, e fazer as barras de chocolate que levaram a Incredibles Edibles ao topo do mercado. Hoje a companhia tem 40 funcionários, e Fink lidera uma cozinha com oito cozinheiros. Diz que a única coisa chata de cozinhar com maconha é que não pode ficar provando o produto para ver se errou a mão.

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O preconceito e as dificuldades legais, porém, continuam. Algumas empresas ainda pagam impostos estaduais em dinheiro, ato que requer a presença de carros forte e muitos seguranças armados para levar centenas de milhares de dólares pessoalmente ao escritório da receita do estado do Colorado.

Ironicamente, a maioria dos impostos pagos pela indústria são para o governo federal. Sem acesso a serviços como transferências bancarias, as empresas são forçadas a mentir para o governo para poder pagar. “Eu tenho que cometer fraude financeira todo dia.” diz Christian Hageseth, outro líder do mercado e autor de um livro  sobre a indústria chamado “Big Weed”. “Existem várias maneiras de cometer fraude,” diz. “Eu escolho lavar meu dinheiro.”

Hageseth já foi expulso de sete bancos, e ainda assim sua companhia, Greenman Cannabis não para de crescer. O próximo passo é a construção do Cannabis Ranchum projeto de US$35 milhões que pretende abordar a degustação de maconha como se fosse vinho em Napa Valley, na Califórnia. Além de estufas para cultivação e um dispensary, o projeto inclui um hotel, um espaço para shows, um restaurante, e um bar. Hageseth planeja construir não apenas um Cannabis Ranch, mas cinco – um em Washington, que legalizou a maconha para uso recreativo junto com o Colorado, dois na Califórnia e um em Nevada, estados que legalizaram a maconha apenas para uso medicinal. Isso tudo para degustação em imersão um produto que o governo federal considera mais perigoso e viciante do que cocaína.  Independente da ambiguidade legal de seu negócio de seu negócio, Hageseth acredita que o investimento vale a pena, e que a indústria de maconha está aqui para ficar.

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