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A IDÉIA DO RATINHO

Para que servem os vereadores? Pelo que consta, para legislar em nome e proteger o conjunto dos cidadãos que os elegeram.

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Para que servem os vereadores? Pelo que consta, para legislar em nome e proteger o conjunto dos cidadãos que os elegeram. Assim, as atribuições do vereador alcançam espectro bastante amplo. Impedir a prisão arbitrária de um rapper que entoa canções contra a polícia, rebatizar ruas com nomes às vezes patéticos, para ‘prestigiar’ gente influente, brecar ou acelerar os projetos do prefeito, comandar à distância tudo o que se passa nas administrações regionais, que todo mundo sabe são usadas como moeda de remuneração aos partidos que apoiam o prefeito e instrumento ‘calaboca’ para os que não o apoiam, estão entre as tarefas que ocupam o dia a dia dos nobre vereadores.
Outra missão que ocupa parte importante nas atividades da Câmara é a farta distribuição de medalhas e honrarias aos mais diversos personagens do folclore nacional. De atletas, personalidades, heróis e outras figuras que realmente fazem jus aos títulos até parentes, amigos, ex-patrões, malandros, gente de reputação duvidosa, difícil é encontrar quem não tenha no fundo da gaveta, uma medalha Anchieta ou um título de cidadão paulistano, esta última honraria aliás, entregue semana passada com a devida pompa, em pleno ar, ao ‘apresentador ilustre’ Carlos Massa, o Ratinho, que passa a ostentar o título pelos ‘relevantes serviços prestados à comunidade paulistana’. Muito bem acostumados a ações desta monta saindo dos portões da Câmara Municipal, é fácil entender porque, em geral, não é dada grande importância às atividades da casa pela imprensa em geral.
Ocorre que nos últimos dias, um vereador malufista lançou projeto de lei que merece alguma atenção. Jooji Hato, em resumo, propõe que sejam fechados os bares que servem bebidas alcoólicas e que têm mesas nas calçadas à uma hora da manhã. O projeto tem despertado discussões que dividem a população em dois times: de um lado, os que em nome da alegria e descontração brasileira defendem os únicos momentos de relaxamento a que o cidadão sofrido e sem lazer tem direito na cidade, supostamente a hora da cervejinha com os amigos, com o nó da gravata afrouxado. Do outro lado, o time dos que querem dormir, ler, relaxar de verdade com amigos e família, desfrutando da paz e do direito sagrado ao silêncio noturno, mantendo pelo maior tempo possível as características familiares e residenciais dos bairros onde ainda se pode tentar fazê-lo.
Moro perto de um bar moderno e bem projetado, o Pirajá. Seus donos são jovens empresários da melhor lavra, ex-estudantes de boas universidades, filhos de gente culta e que por isso e por conhecerem as leis vigentes hoje no mercado, cuidaram de cada detalhe do estabelecimento.
No estilo (e apenas nisso), a casa lembra os botecos que antigamente pontuavam as ruas do Rio de Janeiro. Fotos antigas na parede, balcão de mármore com tira-gostos expostos à freguesia, chopp bem tirado, mesas e cadeiras confortáveis, até o piso da calçada reproduz as famosas passarelas de Copacabana. Os proprietários se esmeraram ainda contratando empresas de estacionamento, cuidando para que o lixo fosse devidamente armazenado e recolhido, pintando a fachada dos edifícios próximos etc… O resultado? A vida dos moradores da região sofreu uma queda brutal de qualidade. É que muito pouco há para se fazer no sentido de brecar a ignorância que prolifera quando se junta muita gente num lugar só. Escolha a fazenda mais bucólica e paradisíaca. Enfie ali uma convenção de 800 inocentes revendedoras da Avon e você terá em questão de horas, barulho, sujeira, brigas, desordem de degradação do ambiente sem volta.
Os eficientes proprietários do bar mencionado, por exemplo, não têm como vigiar e impedir que centenas de pessoas falem alto a noite inteira, que mesmo dispondo de manobristas, estacionem em fila dupla para namorar e conversar, que manobristas dêem ré a 60 por hora por um trecho de 300 metros, que desrespeitem os moradores que ousem reclamar, que uma rua cheia de famílias de classe média veja o trânsito subitamente quadruplicado, que carros sejam estacionados em frente a garagens, latas sejam atiradas nas calçadas, flanelinhas apareçam de todos os lados e, pior de tudo, que assaltantes a mão armada comecem a agir na área como ocorreu de forma inédita semana passada de madrugada. Conclusão, não há curso na GV que ensine a controlar a ignorância e a falta de cidadania. Só há por enquanto uma forma de lidar com isso: o poder coercitivo do Estado.
Não fossem todos os motivos alegados que são elevados à décima potência em regiões como Vila Madalena, Vila Olímpia, Moema e outras, fica ainda uma questão de igual relevância: o que se pode concluir de uma sociedade que tem como única maneira de relaxamento e lazer sentar diante de uma mesa e encher o bucho de álcool (já que a cervejinha quase sempre vira uisquinho, tequilinha, conhaquinho etc…). Como dizem os americanos, ‘GET A LIFE, MY FRIEND’. Que seja aprovado o projeto do vereador, que aliás é bem mais ameno que a lei similar na Inglaterra, considerada uma das civilizações mais avançadas do planeta em termos sociais. Lá a torneirinha do álcool fecha às 23, e não tem choro nem vela, e só quem reclama são os ladrões.

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