Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Em dezembro de 98, depois de trabalhos que consumiram seis meses de uma equipe comandada por um pesquisador profissional, a Revista TRIP assumiu num editorial que abria matéria de quinze páginas, a postura anti-tabagista e comprometeu-se a não mais veicular em suas páginas, publicidade de cigarros.
Para que a decisão fosse tomada, foram ouvidas todas as fontes, de leitores a cientistas, passando por alguns dos mais importantes nomes da publicidade
brasileira como Julio Ribeiro e Ricardo Guimarães ou por especialistas em Saúde Pública do porte de Dráuzio Varella, uma espécie de ‘Surgeon General’
não oficial do Brasil e o jornalista Gilberto Dimenstein.
Resumidamente, o motivo da decisão foi a transposição dos limites da ética, do bom senso e do tolerável, por uma indústria mentirosa e comprometida única e exclusivamente com o lucro e que, banida de setores mais fortes, inteligentes e sofisticados do mercado e da comunicação, viram na aproximação dos esportes não convencionais, da aventura, do rock e de outros
ambientes compostos e frequentados por jovens, a geléia ideal para reimplantar seus tentáculos devastadores. Assim, e diante das dezenas de
Marlboro Adventure Teams e de Hollywood No Limits projects, de festivais de jazz e de rock, de filmes publicitários assessorados pelas melhores cabeças
do cinema alternativo brasileiro e por consultores técnicos do nível de Amyr Klink, os empacotadores de câncer vinham nadando de braçada entre os alvos e
ingênuos corredores do planeta jovem. Para a TRIP, diante de afirmações como a de Julio Ribeiro (Parei de trabalhar para a indústria do tabaco quando numa reunião de briefing me foi dito para direcionar a publicidade ao target das pessoas de treze anos) ou a de Dráuzio Varella (em dez anos como médico voluntário no Carandiru, não vi nada mais devastador e difícil quanto um dependente de cigarro afastar-se desta substância. É mais fácil largar heroína e crack); fingir-se de morto e continuar veiculando publicidade de cigarros ou mesmo calar diante da cena seria uma declaração mensal de conivência com uma indústria que de hoje até 2.025 produzirá mais dez milhões de defuntos fresquinhos, segundo a OMS.
Para nossa surpresa mais que positiva, cerca de um mês depois, os órgãos de comunicação mais sérios do país começaram a reverberar a decisão e a reportagem. Folha de S. Paulo, Veja, TV Globo (programa Muvuca), Época, Jornal da Tarde e Carta Capital foram alguns dos grandes veículos que se inspiraram no tema levantado para aprofundá-lo e repercuti-lo de forma consciente cumprindo seu papel social da melhor maneira. Apesar das reportagens porém, nenhum dos órgãos citados deixou de aceitar em suas páginas, publicidade de ‘um raro prazer’, ‘uma questão de bom senso’ ou ‘ao sucesso’.
No meio da semana passada, em editorial de primeiro caderno, o New York Times, considerado por muitos o mais importante jornal do mundo, publicou seu ‘statement’ anti-tabagismo, encerrando inclusive uma história de décadas e décadas de publicidade de cigarros que lhe rendia atualmente algo em torno
de dez milhões de dólares por ano em receita publicitária.
A Revista TRIP publica (ainda) publicidade de cervejas. A decisão de não fechar seu espaço às bebidas de baixo teor alcoólico foi mantida em função
de dois argumentos apresentados pelo próprio Dr. Dráuzio Varella em sua entrevista.
Primeiro: O conteúdo e a composição química da cerveja são amplamente conhecidos e divulgados. Os dos cigarros, como se descobriu recentemente,
além de ocultados da população, apresentam dezenas de substâncias altamente prejudiciais à saúde e são manipulados pela indústria para tornar a
dependência química mais rápida e efetiva.
Segundo: ao contrário do cigarro, não só é possível, como felizmente ainda corresponde aos hábitos da grande maioria dos usuários desta droga lícita
o álcool), um uso razoavelmente consciente, sem a criação da odiosa dependência química e sem que o consumidor tenha qualquer prejuízo à própria
saúde ou manifeste comportamento prejudicial a si mesmo ou à sociedade.
A TRIP mesmo assim, sempre publicou editoriais e mensagens frisando o poder devastador do álcool e os efeitos destruidores de seu uso abusivo, tão ou
mais temível que os da cocaína, crack e heroína.
Além disso, declaro aqui que a qualquer momento, desde que venhamos a constatar que o tal uso comedido do álcool comece a se tornar exceção, o que
se ocorrer certamente se dará com o apoio da publicidade, não hesitaremos em banir este tipo de anúncio de nossas páginas.
Deixo porém a pergunta. E os outros veículos, infinitamente mais poderosos economicamente que a TRIP farão o mesmo com relação ao cigarro inspirando-se no eterno exemplo-editorial do NY TIMES?
A Folha, por exemplo, que ontem publicou matéria exemplar sobre os índices alarmantes de consumo de cerveja entre os jovens, deixará de veicular nas
edições seguintes publicidade de drogas lícitas como cigarro e a própria cerveja? Abrirá mão de patrocínios freqüentes destas indústrias a seus
projetos de marketing cultural? Que possamos comemorar em breve uma reposta positiva a estas perguntas que por enquanto ficam no ar incômodas como a fumaça.
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