A descoberta de Silvio Santos
Triste é perceber a crueldade subliminar, disfarçada, que habita os vãos da mídia
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Assisti ao episódio final de Casa dos Artistas. É claro que muita coisa chama a atenção e leva os desavisados a engrossar o coro que eleva Silvio Santos à categoria de gênio mediático. Tenho milhões de objeções a alguém que passou a vida se locupletando a qualquer custo, fazendo muito pouco ou quase nada do que deveria ser a função primeira de um detentor de concessão pública de teledifusão, qual seja, contribuir para elevar o nível educacional do povo. Mesmo assim, é impossível não ficar admirado ao ver o link ao vivo e em horário nobre entre duas das maiores emissoras abertas de TV. Impossível não zapear freneticamente em busca do canal da Record para checar se realmente os dois apresentadores de programas diferentes, em canais concorrentes, estavam conversando via satélite.
Não faltou crueldade ao programa. Dos closes nas cicatrizes de Bárbara Paz ao prazer sádico de S.S. lendo as espinafradas dos jornais a cada um dos ‘artistas’. Sobra maldade, o que por si não deveria surpreender num show que se pretende uma fotografia da vida real de quase famosos.
Mais interessante, porém, não é perceber a crueldade clara e explícita de Silvio Santos se abrindo em risadas ao ler para 55 pontos de ibope que Mari Alexandre é burra segundo o jornalista fulano, ou Núbia de Oliveira tramando contra sua colega de quarto pelas costas.
Nem Gisele é Gisele
Triste é perceber a crueldade subliminar, disfarçada, que habita os vãos da mídia.
Zapeando pelos canais durante o programa de domingo à noite por exemplo, um comercial de adoçantes mostrava um desfile de modelos magérrimas, à beira de um desmaio anoréxico, puxando a pele das próprias barriguinhas em gestos entre sádicos e sensuais, levando a crer que se entupindo de ciclamato os milhões de gordinhas (se comparadas aos padrões vendidos na propaganda, todas as mulheres do mundo, até Gisele, são gordinhas) do outro lado da tela, se tornarão magras como Núbia e Mari Alexandre.
Será que a irmã de Bárbara Paz teria alguma chance de participar do mundo artístico, com as gordurinhas salientes que exibia durante a festa do final do programa?
Se nem o programa que se arvora a condição de ‘reality show’, uma apresentação da vida real ,consegue se livrar da cruel exclusão dos imperfeitos, dos que não se enquadram nos padrões traçados em escritórios de marketing, quase sempre por ‘marketeiros’ gordinhos, gordinhas e feinhos, talvez seja pedir demais , imaginar que o mundo da propaganda, ainda em boa medida (apesar das exceções) dedicado, como S.S., a vender mesmo que isso custe a ansiedade mortal e a infelicidade da população, possa passar a ver as pessoas e o mundo como são de verdade.
A Beleza do imperfeito
Silvio Santos disse que a TV mudou. Que agora as pessoas querem ver a vida real.
É nova, Papito!
Os milhões de pares de olhos grudados em ‘Casa dos Artistas’ buscavam o imperfeito. Queriam se certificar de que até os artistas magros, atléticos e jovens sofrem, e muito, pelo simples fato de estarem vivos.
Parece lógico que a menina pobre, menos bonita, com o rosto marcado pelas cicatrizes da vida e o coração marcado pelo arrancamento da mãe, tenha sido a escolhida não só pelo príncipe da casa, mas pela audiência, para levar os R$ 300 mil.
Ela é cheia de defeitos. E só por isso tem graça .
Como a gente.
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