Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Fui ver o jogo de tênis em Florianópolis no domingo de manhã.
Valeu a pena. A arena montada na avenida Beira-Mar estava belíssima. Ao contrário do primeiro dia, a entrada estava bem, organizada, não levamos dez minutos entre estacionar o carro e sentar confortavelmente nas cadeiras anatômicas de plástico que faziam valer o preço do ingresso. Infelizmente, a cidade, como ouvi dos próprios comerciantes catarinenses, não soube se preparar como deveria para receber os 12 mil visitantes atraídos pelo evento.
Os restaurantes não mudaram seus horários de atendimento, deixando muita gente com fome depois dos jogos, em outros faltou estoque. Conseguir vagas em hotéis e aviões, também foi tarefa relativamente difícil para o simples mortal, sem ‘conexões’ importantes na cidade. Nada disso porém conseguiu tirar o brilho ou diminuir o prazer do evento. Em grande medida , graças ao espírito desarmado e afável do povo de Floripa, que graças a Deus, preserva a alegria de viver e amabilidade que costumava existir em São Paulo no passado distante, antes que tomar um café na padaria exigisse conhecimento avançado de técnicas de guerrilha, dado o nível da competição instalada.
E falando em competição, os jornais da segunda, lamentavam a derrota de Guga frente a um australiano que mal completou vinte anos, por amargos três a zero.
Houve todo tipo de análise, das mais técnicas e frias às mais emocionadas , que compararam o resultado à derrota no Maracanã de 1950. Em nenhuma das que li porém, vi menção clara ao aspecto psicológico do jogo.
Lendo a revista/programa da Copa Davis, há um indício que talvez explique muito da performance não só de Guga, mas de Oncins e Meligeni. Do time brasileiro.
Da apresentação da equipe publicada na revista, além do perfil dos jogadores, constam as biografias da equipe técnica que inclui além do dedicado e competente capitão Ricardo Acioly, seus assessores técnicos Larri Passos e João Zweitsch, Eduardo Faria, o respeitado preparador responsável pela forma física da equipe, sobre a qual não pairam dúvidas.
Folheando e revirando a revista porém, não se vê qualquer menção a um preparador psicológico.
Mesmo com episódios como o de Ronaldinho em Paris, ainda insistimos em ver atletas como máquinas de fácil manutenção, das quais é possível obter performances máximas colocando combustível (apesar de não haver menção qualquer na revista, em geral, há, hoje em dia, nutricionistas envolvidos em qualquer trabalho que se preze com atletas ou equipes de esporte de alto nível no país) e fazendo revisões periódicas, mantendo o motor em uso constante para que as engrenagens funcionem sempre azeitadas.
Enquanto isso em países nos quais o esporte e principalmente a cultura são melhor tratados, qualquer time obscuro de segunda divisão, seja qual for a modalidade, conta com um psicólogo (não estamos falando em terapeutas de auto-ajuda, astrólogos, pais de santo e outros ‘conselheiros’.
Mesmo nas empresas, campo no qual a competição é tão ou mais acirrada, ter um psicoterapeuta entre os quadradinhos mais elevados do organograma, é comum.
Ó AVAÍ SEJA AQUI
Guga fez todos os esforços a seu alcance para trazer a Davis para sua amada cidade. Conseguiu. A quadra estava ali, seus amigos, vizinhos,os colegas de surf da ‘Mole’, as gatas, a família…
quem viu o jogo, percebeu claramente que Kuerten ‘entrava e saía ‘ da partida, em oscilações cíclicas. Jogadas magistrais eram sucedidas por erros banais. Enquanto isso, Hewitt, o jovem australiano, frio por natureza, e sem maiores obrigações, já que uma derrota seria muito fácil de justificar, tinha a seu favor, além de técnica e precisão cirúrgica, um grande aliado emocional: o sentimento de ‘o que vier é lucro’.
Venceu a partida e o número 1 do mundo, sem que nem mesmo o mais púrpura dos torcedores do Avaí pudesse contestar sua superioridade. A cena na capa do JT de ontem, mostrando Guga com o rosto metido na toalha, sentado à beira da quadra é emblemática.
Guga tentava amparar a própria cabeça.
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